quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Mundo de Tinta


A primeira vista o desconhecido
Tudo tão novo e sem sentido...
Como um cavaleiro errante
Vagando sem destino
Colecionando lembranças.
Mas o mundo lhe sorri
Tudo soa convidativo
Não precisa mais fugir,
Faz desse pedaço sua casa
E se por um instante
Ou por tantos outros
A emoção lhe invade
Não tema, faz parte.
Afinal quem disse que era fácil?
Esse não era o primeiro
Certamente não será o último
Colhe então os frutos doces
Sem temer a flor amarga.
E no fim dessa longa marcha
Quando tudo ficar gravado na memória,
E a saudade no coração fizer morada.
Abre de novo aquele mundo
E viva outra vez essa jornada.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Domingo de chuva



Domingo
18 de setembro de 2011
13 h e 37 m
Hoje pela manhã fui à feira com minha sobrinha desprevenida e no meio do caminho caiu uma chuvarada, então corremos para nos proteger debaixo de um toldo de uma loja. Enquanto contávamos os minutos impacientes para a chuva diminuir, surgiu uma cadela vira-lata com a pata traseira esquerda quebrada, provavelmente por atropelamento ou talvez por espancamento/ vandalismo, procurando abrigo.
Ela tinha uma aparência deprimente, o pêlo molhado era maltratado, andava com dificuldade e o pior de tudo, tinha um olhar revelador.
Ao encará-la, pude ver muita dor, indecisão, medo e acima de tudo desconfiança. Senti muita vergonha por estar ali embaixo do toldo enxuta e segura enquanto ela estava só e em busca de abrigo, chamei-a para ficar conosco e ao invés de atraí-la, a afastei. Ela se foi com muita dificuldade e pingando com o excesso de água acumulada nos pêlos. Meu remorso só aumentou ao vê-la partir, se não estivéssemos ali, ela iria estar protegida, senti também indignação por ela não ter confiado em mim e pressentido que eu só queria ajudá-la. Pouco depois ela voltou envergonhada por sua condição, desejei que ela me ignorasse e viesse para junto, ela pareceu hesitante, depois veio em nossa direção, parou e me encarou, fingi que não a via para que ela achasse que estava chegando sorrateira e sem ser percebida, então minha sobrinha gritou e se agarrou em meu braço com medo, quase colocou tudo a perder, mas ela não fugiu como temi, apenas me encarou culpada como quem pedia desculpas pelo transtorno e chegou mais perto. Pedi a minha sobrinha que ficasse quieta para não amedrontá-la e ficamos esperando. Ela se aproximou mais um pouco meio desconfortável e se sentou ao nosso lado, olhava de soslaio e virava pro outro lado carregando a culpa por todas as desgraças do mundo em seu olhar, dois segundos depois levantou e partiu sem que eu pudesse retê-la. Dessa vez não voltou, ficou poucos metros depois encarando-nos com pesar, eu havia roubado seu lugar e isso me corroeu por dentro, então mesmo com toda a chuva que caia, partimos para outro abrigo e fiquei olhando-a desejando que ela tivesse confiado mais em mim. Ela se foi e eu a perdi de vista, decidi ir embora também sem me importar de ainda estar chovendo, mas a chuva não apagou sua imagem de minha cabeça, ainda agora ela está aqui vívida. Seu olhar me disse tantas coisas, inclusive que sua vida foi uma tortura, já não havia mais confiança em seres de duas pernas. Como confiar em seres que não merecem a confiança de seus próprios semelhantes?
Agora me envergonho por saber que se culpam quando nós é que devemos nos culpar por tudo de ruim que causamos voluntária ou involuntariamente.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Uma página de diário


Estou afastada daqui já faz um tempo, então decidi me forçar a romper esse silêncio e acabar com esse ócio literário postando uma coisa que é muito minha, mas que agora vai ser dividida com quem se interessar e quiser “perder tempo” lendo. Vou postar hoje uma folha antiga do meu diário, são coisas bobas que eu escrevia para matar o tempo e também para que não fossem esquecidas. Escolhi uma bem pessoal. Espero que ninguém se sinta ofendido.

26 de maio de 2006
15:28 hrs

Hoje pela manhã ouvi uma “brincadeira” que me ofendeu, na verdade, essas coisas sempre me ofendem. E me perseguem desde que eu me entendo por gente, aonde quer que eu vá, elas não mudam e a mais comum de todas é: “hei menina, você não conhece praia?” Então irritada solto uma exclamação de protesto qualquer e fico magoada. Sei que é bobo se ofender por tão pouco, mas é que já aconteceu tantas vezes que já me encheu.
Quando eu era bem pequena, tinha uns quatro, cinco anos, ouvia as pessoas se admirarem por eu ser tão transparente, a ponto de ficar azul quando sentia frio. Minha pele ficava pálida deixando visíveis veias roxas nas mãos e nos pés, as unhas e os lábios também ficavam roxos (se bem que ainda fico assim hoje) e isso me rendeu inúmeros apelidos que me levavam a fúria. Posso até enumerar alguns aqui: “lagartixa branca”, “velinha (diminutivo de vela)”, “morta (por causa da translucidez quando sentia frio)”, “leite”, “lagarta de coco ou bicho de coco (o que tanto faz, dá tudo na mesma)” e “fantasminha”.
Tudo isso me fazia me sentir uma estranha, um ser totalmente anormal, e até achava que era a única no mundo a ser assim. Hoje sei que não sou, graças a Deus, mas naquela época eu era pequena demais para entender isso, e sabe não é? O que a gente aprende em criança, leva para a vida toda, e o que eu trouxe comigo foi essa mágoa.
Nessa mesma época da coleção de apelidos, minha tia adotou uma bebê linda de pele negra, face redonda e olhos vivazes, e eu passei a admirá-la enquanto dormia no berço, sonhando em como seria se minha pele fosse igual a dela, cheia de viço e brilhante. Lembro que passava meio mundo de coisas na minha cabecinha, mas o que ficou foi esse desejo de ter a pele daquela cor e não mais ser motivo de chacotas.
Minha prima cresceu, assim como eu, e veio nos visitar nas férias, então enquanto conversávamos, surgiu entre a gente esse assunto e ela me revelou que sofre preconceito por causa de sua cor, que queria ser igual à mãe e as irmãs e que odiava quando lhe davam apelidos ainda mais pejorativos que os meus. Eu a compreendi tão bem!
Infelizmente o que as pessoas mais sabem fazer é serem cruéis com os próximos, e hoje sei que esse é um assunto delicado demais e requer muita compreensão da nossa parte, pois, se quisermos viver em harmonia, temos que aprender a ceder, isso não quer dizer que devemos alimentar e aceitar o preconceito e sim que não dá pra partir pra porrada toda vez só pra mostrar que eles estão sendo infames.
PS:. Pelo menos uma coisa boa temos hoje: conseguimos acabar com os apelidos. É, eu tenho um nome!

domingo, 18 de setembro de 2011

Pode ser gato...


Pode ser gato,
 mas não pode andar no telhado, 
Olhar a lua em cima do muro
Virar e revirar latões de lixo
É preciso ser precavido.
Nesse mundo urbanizado, 
Não sobraram espaços para ser gato
Sem correr riscos 
Para não ter de  pagar por isso.
Onde andam os gatos,
Dessa cidade sem mato?
Sem árvore e grama verde
Coberta de cinza e de concreto
Onde o natural é ser adestrado
Para não ser gato
E sim, ser apático
Dormindo no tapete
E sonhando em ver através das paredes
Esse mundo que não lhe cabe.

sábado, 27 de agosto de 2011

♥♥♥♥♥


Você vai me colocar dentro do sol é tia?
Uma pergunta sem o menor sentido aparente.
Cientificamente impossivel de ser concretizada.
Mas que diante dos enormes olhos pretos de cilios longuissimos e do sorriso tão radiante quanto um  sol de verão, conseguiu me levar mais além do que uma simples explicação cientifica poderia levar.
Colocar dentro do sol?
Sim, eu quero lhe colocar dentro do sol.
Se o sol significar a luz da felicidade, a cor da alegria, a paisagem de um horizonte hospitaleiro e benevolente.
Sim meu amor, eu quero lhe colocar dentro do sol.
Quero lhe oferecer o melhor que o mundo puder ofertar.  

sábado, 20 de agosto de 2011

Little Child (final)



Lucy in the sky with diamonds
Lucy in the sky with diamonds
Lucy in the sky with diamonds


The  Beatles(Lennon e McCartney)

- Como está se sentindo agora?
Limitou-se apenas em olhá-la sem quebrar o silêncio.
- Tem certeza que não quer conversar? Pode ser bom pra você se abrir um pouco.
- Sobre o que?
- Não sei, sobre sua mãe talvez. Ela tem aparecido com frequência ainda?
- Não! Ela me abandonou. – Respondeu magoado fazendo a amiga perceber que pisara em terreno perigoso de novo. Mas já que havia começado, decidiu seguir em frente.
- Mas ela gostava tanto de você?!
- Eu a decepcionei mais uma vez e ela não vai me perdoar. Não dessa vez.
- Mas pelo que você me dizia, achei que isso seria impossível. Ela te amava tanto.
- Eu fiz por onde. Sou um monstro. – Falou e socou a parede com fúria assustando-a, mas ele precisava de ajuda.
- Não! Você é uma pessoa boa...
- Não sou! – Falou aos gritos e se levantou encarando-a de muito perto com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar e as veias dilatadas dando-lhe uma aparência de insanidade.
- Eu te conheço e posso garantir que você é bom. Foi bom para o Paulo, foi bom para sua mãe...
- Mas não fui bom com você. Menti para você, lhe atraí para uma armadilha. Justo você que foi a única pessoa que sempre me entendeu, me estendeu a mão e me tratou como uma pessoa de verdade todo esse tempo.
- Do que você está falando? – Não conseguia entender nada, talvez fosse algum delírio insano. – Você é incapaz de prejudicar alguém. Te conheço como a palma da minha mão. Confio em você!
- Mas não devia! Eu não mereci sua confiança! – Começou a andar de um lado para o outro como uma fera enjaulada. – Confiar em mim foi um erro. Minha mãe não vai me perdoar nunca.
Ao vê-lo voltar a chorar, se levantou com a intenção de abraçá-lo e confortá-lo. Mas quando o fez, seus braços abraçaram o vazio.
Sentiu um frio gélido subir por seu corpo eriçando a pele. O que seria esse fenômeno? Estaria ficando louca?
Ao ver sua expressão, ele chorou ainda mais.
- Você também não vai me perdoar não é?
- O que está acontecendo aqui? Só pode ser um pesadelo...
- Eu não queria. Juro que não queria! Achei que estava curado por sua causa. Você era boa e confiava em mim...
Ela olhou em volta buscando um meio de sair correndo dali. Tentou lembrar-se do que realmente havia acontecido naquele apartamento, mas só havia um imenso vazio. Então era isso? Ele havia cometido um suicídio? Ela chegara tarde demais, sua luta fora inglória? Claro, só podia ser isso. E ela tonta achando que poderia ajudá-lo todo esse tempo.
- Como foi que isso aconteceu Leo?
- Você não lembra não é?
E era para lembrar? Então estava presente no momento do suicídio! Então por que não o impedira?
- Eu devo ter esquecido. Você não quer me ajudar a lembrar?
Ele a encarou com uma expressão dolorosa e emudeceu.
Antes que pudesse quebrar o silencio que reinara, o telefone tocou na sala e ela correu para atender na esperança de encontrar ali respostas para suas perguntas. Ele foi atrás para tentar impedir, mas chegou tarde, ela já havia tentado agarrar o aparelho.
Ela recuou apavorada ao tocar o vazio. Como um flash sua memória voltou com todos os detalhes quase visíveis. Lembrou-se de estar distraída olhando o porta-retrato em cima da mesa do telefone quando ele chegou por trás com um cadarço grosso e enlaçou seu pescoço estrangulando-a, apesar da rapidez da execução, ainda pôde divisar seu olhar misto de triunfo e prazer. Ainda ouviu sua voz sussurrar em seu ouvido: Perdoe-me, é mais forte do que eu.
E depois só o vazio e a escuridão.
- Por que você fez isso? Eu só queria te ajudar...
- Esse foi seu erro. Que direito você tinha de confiar em mim? A culpa por tudo isso foi sua. E agora que você já sabe, vá embora de uma vez e me deixe em paz! Deixe-me esquecer de tudo e seguir em frente com minha vida. Quero minha vida de volta...
- Você quer sua vida de volta?! E a minha quem vai devolver? Você me roubou a única coisa que me pertencia de verdade. E agora o que eu faço? Para onde vou, me diz?
- Para qualquer lugar. Aqui é que você não pode ficar. Eu não suportaria sua presença constante me lembrando que fui eu o responsável por sua desgraça.
- Eu não tenho mais nada, nem ninguém. Só me resta você, e eu me recuso a ficar sozinha. Recuso-me a ir embora.
- Mas eu não sei se aguentaria essa tortura.
- Não me mandes embora? Não me condenes a solidão, eu não suportaria.
Deitou no sofá resignado. Era justo que pagasse um preço.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Little Child (parte I)




Little child, little child
little child won't you dance with me
I'm so sad and lonely
Baby take a chance with me
The  Beatles(Lennon e McCartney)


Daniele acordou sentindo um vazio na cabeça, olhou em volta e não reconheceu o lugar que estava. Voltou a deitar esperando a sensação estranha passar quando ouviu um soluço. Decidiu procurar a pessoa que pelo visto precisava de companhia. Talvez o motivo do choro fosse apenas solidão.
O apartamento era minúsculo, não demorou a encontrá-lo prostrado no canto do quarto.
Ao vê-lo, teve certeza que o conhecia, sabia de sua dor, só não lembrava seu nome, algo bloqueara sua mente. Talvez houvesse tomado algum anestésico para dormir e esquecera-se de algumas coisas, o melhor seria esperar o efeito passar. Mas seu amigo estava precisando de ajuda.
Entrou de fininho com medo de assustá-lo como acontecera no dia anterior. Lembrava-se de sua expressão quando a vira, parecia apavorado.
Quando ele notou sua presença dessa vez, começou a chorar ainda mais alto. Mesmo assim se aproximou tentando tocá-lo, fazer um carinho. Queria confortá-lo. Ele a repeliu de forma enérgica.
- Vá embora, já pedi mil vezes que me deixe em paz. Eu quero ficar sozinho.
- Não vou te deixar! – Estava decidida a tentar ajudá-lo dessa vez. – Você precisa de mim!
Sentou-se na cama próxima a ele que se encolheu ainda mais.
- O que você quer de mim?
- Só quero te ajudar.
- E por que você iria querer me ajudar? Não mereço que ninguém me ajude. Só machuco quem eu amo. – Falou com amargura limpando o rosto com as costas da mão.
- Não é verdade, você é bom. Abrigou-me em sua casa e respeita meu espaço.
- Não! Eu não sou bom, eu sou um ser horrível! – Começou a gritar descontrolado deixando-a assustada.
Ela se levantou procurando manter distância enquanto ele socava a parede com violência.
Queria consolá-lo, dizer que tudo ficaria bem, mas não agora; ele a estava apavorando. Saiu do quarto tremendo e se sentou no sofá-cama onde acordara pouco antes e decidiu esperar o ataque de fúria passar.
Enquanto esperava, começou a lembrar de fatos que a ligavam ao amigo problemático. Agora sabia que ele se chamava Leo; que o conhecera pela Internet; se falavam há muito tempo e um sabia tudo sobre o outro.
Lembrava-se que no inicio da amizade havia tomado todas as precauções, não dera sequer seu nome verdadeiro, ele a conhecia por D.A. e ela o conhecia por Lucy. Só depois soubera que dera esse nome porque amava a musica Lucy in the Sky with Diamonds que era uma espécie de hino para ele.
Com o passar do tempo, a reserva foi se desfazendo, foram ficando íntimos. Lucy, ou melhor, Leo foi cativando-a com sua amizade sincera, contou-lhe seus problemas, falou-lhe sobre a mãe que amava a ponto de vê-la mesmo depois de morta, sobre a dor que sentira quando o pai foi embora e falou também de um papagaio que teve e que morreu engasgado. Para ela era uma historia engraçada a do bichinho, mas sabia que ele levava o caso muito a serio. Ora sua segunda maior perda na vida, a primeira fora a mãe. Ainda lembrava-se do carinho com que ele falava do querido Paulo, seu companheiro desde menino.
Enquanto lembrava-se das horas e horas gastas com ele na internet, um sentimento bom a invadia, uma sensação de carinho, de uma afetividade que os ligava ainda mais. Em pensar que temera tanto o primeiro encontro dos dois no passado? A primeira vez que o vira, fizera questão de marcar em um lugar publico e com muito movimento por medo de que ele fosse um maníaco e apesar de já se falarem até por telefone, não se sentia segura o suficiente para confiar cegamente nele. Mas quando o vira, todas as duvidas sumiram; foi como se já se conhecessem a milhões de anos.
Agora se lembrava até de como fora parar ali. Leo lhe telefonara desesperado, estava tendo uma crise de pânico e precisava de sua ajuda. Dizia que queriam matá-lo, que era perseguido por homens de capuz preto. Então não pensou duas vezes e por isso ainda estava lá, o amigo precisava dela.
Sabia que tinha o dever de voltar para casa, mas não agora, ele ainda não estava bem. E os pais não estavam merecendo que se preocupasse com eles. Estava fora há dias e eles nem deram um telefonema para saber como ela estava ou se estava precisando de alguma coisa.
Um tempo depois percebeu que o amigo estava silencioso, levantou e foi verificar se ele havia adormecido. Entrou cautelosa e sentou em silêncio ao lado dele que ainda estava acordado e no mesmo lugar de antes.
Ele era tão sozinho, parecia um menino desamparado. Tinha o dever de ajudá-lo, não o deixaria tão cedo...

domingo, 31 de julho de 2011

Lembranças de São João


Dedicarei esse texto a minha mana que alegra meu cantinho com suas visitas silenciosas e que também faz parte desta história. Minha mana mais velha que foi meu exemplo a seguir na infância e que a fez muito mais colorida. É para você Sol...


Com o prazo excedendo (afinal hoje é o último dia do mês de julho e não faz sentido falar sobre festa junina em agosto) e muitas lembranças na memória para contar, resolvi finalmente falar sobre o São João para nós das bandas de cá.
Se perguntarmos a uma criança qual sua festa preferida, com certeza ela responderá sem exitar duas delas, o São João e o Natal; e conosco não era diferente.
Lembro-me do meu pai cortando a lenha para fazer a fogueira Caueira com toras grossas para que fizesse muita brasa e assim assássemos milho no espeto como os americanos fazem com o marshmellow. 
Minha mãe e minha tia passavam o dia 22 e o 23 ralando milho e coco para preparar as deliciosas iguarias: canjica, mungunzá, arroz doce, bolo de milho e aipim, batida de frutas, milho cozido e ainda tinha o pé de moleque comprado na feira feito com mandioca.
À tarde no dia 23 nos vestíamos com as fantasias de caipira com direito a tranças e pintinhas na bochecha, depois junto com a meninada da vizinhança dávamos inicio as brincadeiras que seguiam até o amanhecer. Para brincar as brincadeiras de São João não precisa ter idade, apesar de ter uma certa periculosidade, pois, já dizia minha vó; quem brinca com fogo corre o risco de sair queimado. Mas graças a Deus nunca houve nenhum acidente com nenhum dos nossos.
Nesse dia a festa não era só nossa ou só do vizinho, era de todos formando uma grande família que corria e pulava, dançava ao som do pé de serra e arrastava o pé a noite toda (dois para lá e dois para cá).
Apesar das noites frias de inverno, não sobrava tempo para a apatia, todo mundo entrava na folia e não via a noite passar.
São tantas as lembranças que dariam um livro, mas como tudo no mundo muda, eu também mudei. Não temos mais nosso pai para fazer a fogueira e por isso temos que comprá-la todos os anos agora, não vivemos  mais perto das tias e agora somos todos adultos. Hoje a alegria está em preparar a festa para os pequeninos, preparar as comidas típicas e dançar forró da terra (forró pé de serra) para aquecer a noite junto com o vinho.

Nossos novos caipiras.




sábado, 30 de julho de 2011

PROMOÇÃO NOVA NO BLOG AMOR IMORTAL




   O blog Amor Imortal em parceria com a Editora Dracaena está sorteando dois super livros: O Coração de Salatiel da autora Kêzia Lobo e o Chamado Selvagem de Jack London. Serão dois sorteios simultâneos, com um prêmio para cada ganhador, de acordo com a promoção que o participante escolher. Quem quiser participar dos dois sorteios, deverá preencher o formulário e seguir as regras duas vezes.
Para participar é só acessar esse link: http://amorimortall.blogspot.com/2011/07/novas-promocoes-no-blog-o-coracao-de.html e seguir as regras de maneira simples e rápida.
                                                                                                            

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Viagem sem volta



Kaaliã estava compenetrado olhando para um ponto fixo no espaço através da parede transparente da sala de comandos quando o general Jodl entrou e se surpreendeu com o fato do amigo estar sob a forma humana que assumira durante a estadia na terra. Desde então, Kaaliã já não era mais o mesmo e isso o estava preocupando.
- Olhando o espaço outra vez?
Sua voz era gélida, lembrava um lamento.
- Ela chama de céu...
A voz de Kaaliã era mais suave e demonstrava emoção nessa simples frase.
- Ela... Isso explica sua forma...
Olhou pro amigo com desagrado.
- Você foi vê-la?
- Fui. Ela quer voltar. – Levantou o dedo indicador e apontou para um ponto azul quase indistinto no firmamento.
- Sabe que é impossível. Já falamos sobre isso tantas vezes. – havia um tom de impaciência na sua voz.
- Eu sei, você já falou varias vezes que ela é nossa maior fonte de pesquisa e nossa ultima esperança. Mas e ela? O que ela quer não importa?
- Não nesse caso. Essa humana foi à única até hoje que resistiu a viajem. Você mesmo a trouxe para nós...
- Mas estou arrependido – Cortou bruscamente – Se pudesse voltar no tempo, jamais a teria usurpado de seu mundo, da sua família, de seu lar...
- Faz ideia do que está dizendo Kaaliã? Prefere essa humana à  toda nossa nação? Prefere sucumbir aos desejos fúteis desse ser a reconhecer a grande contribuição que ela pode trazer para nossas pesquisas?
- Eu convivi com ela na terra, conheci seus desejos e anseios, me fiz de amigo. Ela confiou em mim e eu a traí.
- Realmente não te reconheço mais. Será que não vês que deves lealdade a seu povo e não a ela?
- Os humanos têm prazo de validade sabia? E o prazo de Kayla não vai durar muito se ela continuar vivendo nesse sofrimento.
Jodl suspirou para controlar a irritação.
- E o que você sugere que façamos?
- Deixe-me levá-la de volta?
- Isso não está em minhas mãos Kaaliã. Mesmo que eu desse permissão, o conselho não permitiria e ainda me destituiria do meu cargo. Não pretendo ser promovido a desertor. Tudo que Kayla terá que fazer agora é aceitar que nosso planeta é seu novo lar.
- Se você tivesse conhecido a terra de perto, tivesse visto de perto como eles vivem, não diria para Kayla aceitar nosso planeta como seu lar.
- Eu não vi a terra de perto, mas estudei seu ecossistema. Não vi como eles vivem, mas sei que não são esses seres perfeitos que você idealiza. Eles matam seus semelhantes, tiram vidas de inocentes, constroem armas e guerreiam por poder.
- Mas nem todos são assim, muitos deles amam seus semelhantes, se dedicam aos mais necessitados...
- E de onde você copiou esse discurso? Por acaso foi Kayla que lhe falou tudo isso?
- Isso e muito mais. Me contou historias lindas de atos heróicos e grandes provas de amor. Sabia que os humanos amam?
- E o que seria isso?
- Amar é quando você se dedica a alguém. Quando você quer ver o outro feliz mesmo que disso dependa sua própria felicidade. É quando você não se importa de morrer por alguém.  É quando você decide que não pode morrer por que disso depende a vida de seu grande amor e amor é quando você só é feliz se seu amor também for...
- Se tudo que me disse for o que você sente por ela, então não vai querer vê-la livre se souber que o que me pede é uma sentença de morte. Kayla sobreviveu a viagem de vinda, mas não suportaria uma viajem de volta. A matéria dela pode se dissolver como aconteceu com os outros e aí sua luta não teria valido a pena. Sinto muito.
Jodl saiu da sala alterado, essa conversa havia mexido mais com ele do que gostaria.
Kaaliã voltou a mirar o céu relembrando do lugar onde fora realmente feliz apesar de ter sido apenas um estrangeiro.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Liberdade


Olhava com um prazer infindável as labaredas rubras exalando o cheiro acre de cera queimando. Não o perdoaria nunca por ter te roubado a vida exatamente quando mais a prezara, agora estava pagando com a dele. Um trio de lodo fétido desceu por cada órbita até manchar o pescoço pálido. Não podia evitar sofrer, o amava, apesar de tudo. Contraditoriamente, também o odiava com todas as suas forças.
Levantou trôpega e começou a valsar pelo ambiente, como naquele dia fatídico, onde o sonho se transformou em pesadelo. Era sua festa tão sonhada, estava debutando, e Augustus era seu príncipe encantado. Estavam felizes, havia vozes e risos alegres, a música suave ao fundo, farfalhar de saias rodadas de todos os tecidos e cores, não conseguia parar de sorrir, o tempo não parecia passar. Mas no fim todos se foram e por um breve momento ficara só, breve o suficiente para perder a alma por toda a eternidade.
Ainda que se passassem cem anos, lembraria daquele dia como se fosse agora, a respiração gélida e arrepiante na nuca, as mãos suaves pressionando sua testa e imobilizando seu corpo, a dor aguda na jugular, e o rio da vida a correr manchando seu vestido branco como a neve.
Quanto mais lembrava, mais doía, mais chorava e valsava.
Parou diante da fogueira e caiu de joelhos, os gritos de apelo entre as chamas ecoavam em sua cabeça apesar do silêncio reinante.
Estava livre. Mas livre de quê se continuava presa aquele destino fatídico? Se não havia mais vida, mais sonhos, mais Augustus? 
Levantou decidida, tirou as sandálias e de braços abertos abraçou as chamas.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Sorteio do livro Nêmesis, o Retorno de Astarot no blog Amor Imortal


Promoção: O blog Amor Imortal em parceria com a Editora Dracaena está sorteando um exemplar do livro Nêmesis, o Retorno de Astarot do autor Diogo de Souza, uma promo muito legal e para quem quiser participar é só visitar o blog através desse link: http://amorimortall.blogspot.com/2011/06/promocao-sorteio-de-um-exemplar-do.html  e para saber quais são as regras para concorrer também. 
Já vou adiantando que é super fácil, não deixem de participar.


domingo, 12 de junho de 2011

Selinho parabéns ao amor imortal



Faz alguns dias que ganhei esse selo lindo do blog Amor Imortal mas só agora tive tempo de postar meu agradecimento, tenho estado com o tempo corrido, mas não podia deixar de agradecer esse presentinho. Aliás, ganhei vários selinhos lindos ultimamente e fiquei super feliz. Obrigada a todos.
Prometo dar mais atenção a todos nas férias, desculpe Giza por ter demorado tanto com esse agradecimento, mas não foi por falta de vontade e sim por falta de tempo disponível.

REGRINHAS:

1) DIZER O QUE ACHA DO BLOG AMOR IMORTAL E  DIZER O QUE SIGNIFICA PARA VOCÊ UM AMOR IMORTAL.
Simplesmente fantástico. De encher os olhos e dar vontade de visitar sempre para ver tudo de novo que surge a todo momento. Visualmente e informativamente claro.
E um amor imortal para mim é não só a possibilidade de viver eternamente um sentimento, mas também a chance de não sofrer com as perdas inevitáveis que a vida nos trás. Ter sempre por perto quem amamos.
2) LINKAR QUEM TE INDICOU O SELINHO
3) INDICAR PARA 5 BLOGS
Infelizmente pulo essa parte pelo mesmo motivo que já citei tantas outras vezes, não teria a quem indicar.
E para finalizar, parabéns ao Amor Imortal, sucesso mais que merecido.

sábado, 4 de junho de 2011




Recebi semana passada esses dois selinhos da Blogueira Beronique do Blog Brisa Noturna, mas só agora tive a oportunidade de agradecer.
Tive a oportunidade de conhecer Beronique através do desafio literário do qual participo junto com o Brisa Noturna e A Fantasista. Partilhamos também uma antologia (Beijos e Sangue) junto com vários outros autores de muito talento (o que de longe me deixou muito feliz e orgulhosa). 
Beronique é uma autora de muito talento e de escrita ecléctica, envereda por todos os estilos da literatura com perfeição. Sempre vale a pena conferir seu cantinho.
Obrigada por esses selinhos e por todo carinho com que sempre comenta meus textos.



domingo, 29 de maio de 2011

Selo Seu blog é encantador!


Ganhei esse selinho do blog Alone in the dark, o que me deixou muito feliz.
Sei que muita gente considera o fato de ganhar selinho uma daquelas correntes hiper chatas que rolam por ai (O que pra mim nem se compara, mas, cada qual com sua opinião), mas eu particularmente adoro. Acredito que essa é uma forma de carinho que diz mais que mil palavras, e receber carinho é sempre bom...
Obrigada Giza pela lembrança.
Agora a parte de praxe:


Regras para quem recebe o meme:
1- Para você, o que faz seu blog ser encantador?
Para mim, o fato de as pessoas visitarem, comentarem, o carinho que recebo dos amigos  bloggers e o desafio literário que deu um ar eclético (se é que poderei falar assim, rsrsrs.) a esse modesto espaço.
2- Link o blog que te enviou o meme e diga o que acha dele.
http://aloneinthedark30.blogspot.com/, esse é o link para quem quiser conhecer.
Deliciosamente arrepiante, informativo, gostoso de acompanhar a cada evolução, a cada novo post, brilhante. Se duvidarem, confiram. (vale a pena)
3- Repasse este meme para todos os blogs que você considera encantador.


A fantasista
Brisa Noturna


Infelismente minha lista é muito pequena, :(
Mas fica a boa intenção.

domingo, 22 de maio de 2011

Fim de tarde...

                                                               



Você lembra, lembra!
Daquele tempo
Eu tinha estrelas nos olhos
Um jeito de herói
Era mais forte e veloz
Que qualquer mocinho
De cowboy...
(Roupa Nova)

Sentou-se no banco da orla como fazia todas as tardes, sentindo o vento sacudir suas roupas e inspirou o ar calmamente. As ondas batiam nas pedras e se desfaziam em espumas brancas, o sol rubro descia no horizonte rumo ao desconhecido.
Apesar de a vista embaçada divisar apenas sombras confusas, gostava de assistir aquele espetáculo que após tantos anos ainda achava ser um milagre. De todas as coisas que presenciara na vida, a natureza era a única que ainda lhe reservava maravilhosas surpresas. Lembrava-se com perfeição de sua vida de menino, de como gostava de subir em árvores, nadar pelado no rio, correr entre as árvores do sitio, galopar pelo pasto no Pintado, ordenhar a vaca Cabrita... Foi ele que a batizara com esse nome, só por que quando ela era bezerrinha vivia saltitando no pasto feliz da vida. 
Sentia muitas saudades daquela época, mas sentia ainda mais saudades do Herói, seu cão perdigueiro, foi o melhor amigo que podia ter existido no mundo; fiel, companheiro, cúmplice, divertido e muito faceiro. Tudo que fazia, ele topava sem reclamar, corria atrás do Pintado pelo pasto, tomavam banho de rio, caçavam na mata e pescavam na bica.
Lembrava com freqüência do dia em que ele chegou à casa grande pequenino e resmunguento, foi simpatia a primeira vista, pegou-o no braço e acariciou, recebeu uma lambida de cumprimento. Herói tinha um cheiro bom, cheiro de cachorro, mas era bom, adorava ficar sentindo o cheiro dele enquanto dormia nos seus braços. Uma vez, ele até colocou um gato do mato pra correr só por que percebeu o perigo que o animal lhe representava, e isso fez com que o admirasse ainda mais, eita bicho corajoso sô! Sorriu só de lembrar.
Herói viveu quatorze anos, mas por ele estaria vivo até hoje, quem sabe assim sua vida teria mais sentido, não sentiria tanta solidão apesar da família enorme que havia construído. Um dia sua casa foi barulhenta, agora o silêncio era seu companheiro; sua vida fora corrida e seu tempo curto, mas agora sobravam horas no fim do dia; antes tinha sempre um ombro amigo para ofertar, uma palavra de conforto para doar, agora sua boca mal articulava um bom dia, as pessoas não tinham mais paciência para lhe escutar. 
Mas nem tudo era amargura no fim, havia lembranças para confortar um corpo calejado, enrugado, e estranhamente cansado. Havia também sua esposa Edite companheira e cúmplice como Herói. E havia também a pequena Julia, esperta e sagaz, com seus poucos anos de vida, lhe ensinava valorosas lições de amor, sua razão de continuar seguindo em frente até que a escuridão da noite trouxesse seu merecido descanso.
Mas enquanto o descanso não vinha, continuaria sorrindo como um bobo com as lembranças que lhe acompanhavam dia após dia, sentindo prazer em vislumbrar daquele banco marrom na orla da praia o espetáculo do entardecer

domingo, 15 de maio de 2011

Resenha Quase Inocentes

Quando o assunto é criança, o que nos vem imediatamente à cabeça é a doçura, ingenuidade, pureza e muitas coisas agradáveis. Mas ao lermos Extraneus vol. 2 - Quase Inocentes, nos convencemos que nem sempre essas características condizem com a realidade.
De início nos deparamos com uma adorável garotinha e seu inseparável ursinho de pelúcia a quem carinhosamente batizou de Dentinho. Aliás, “Dentinho” é o titulo do primeiro desses 15 surpreendentes contos que preenchem magistralmente essa deliciosa antologia de contos de terror.
Depois de “Dentinho” de Georgette Silen enveredamos pelo mundo soturno de Giulia Moon com uma espertíssima “Criança Noturna”.
Definitivamente essa garotinha me fez lembrar uma outra também fascinante vampirinha, Claudia do  livro Entrevista com o Vampiro. Mas, claro, Claudia era loura como um anjo de olhos vítreos ao contrário dessa japonesinha de olhos puxados que faria qualquer um querer levá-la para casa.
M. D. Amado nos trás “Corações Negros”, um conto instigante, protagonizado por uma enfermeira carinhosa que trabalha em uma maternidade, e suas três adoráveis crianças, possíveis herdeiras de seu fatídico legado.
“Vestido Cor-de-Rosa”, de Camila Fernandes, me lembrou Clarisse Lispector com seu tom realista. Infelizmente histórias como a da menina Joelma acontecem todos os dias no mundo, mas nem todas elas possuem a coragem que essa menina tem no final.
“A Revelação Kyngá”, de André Bozeto jr. Nos remete ao mundo lupino e nos faz refletir. Afinal o que um pai e uma mãe não são capazes de fazer pelo amor a um filho?
“Guardian Angel”, de Luciana Fátima, nos trás uma mistura de sentimentos contraditórios. Sentimentos que ora nos fazem querer mudar o destino desse anjinho, outra nos fazem aceitar o destino dele.
“O Presente de Berenice”, de Adriano Siqueira trata-se de um conto consideravelmente curto e de fácil leitura. Narra uma aventura agradável, com um final não só surpreendente, mas também divertido.
“Loucos, Ocos, Passos de Sopros” de Lucas Rezc, nos trás um misto de tudo; aventuras, piratas, suspense, misticismo e magia dando um toque especial a esse conto de terror.
“O Grande Estopim para a Vida Criminosa de Alice Carmesim” de Luíza Viana.
O titulo nos faz lembrar os romances policiais de Agatha Christie. E o conto não deixa por menos, é convincente e envolvente.
“Brincadeira de Criança” de Juliano Sasseron nos mostra a difícil e às vezes até traumática passagem da infância para adolescência. Essa complicada fase onde sentimentos contraditórios digladiam-se por um espaço dentro da gente. Onde não se é mais criança, mas também ainda não se é adulto.
“Os Servos de Thoth” de Ana Lúcia Merege nos faz viajar para um mundo fascinante, onde existem reis déspotas, sacrifícios e oferendas, injustiças e desigualdades. Onde um pequeno escravo mostra sua coragem e fé no seu Deus, mostrando-se capaz de um grandioso feito para cumprir sua missão. Este conto que se passa no Egito Antigo, reúne ingredientes suficientes para nos proporcionar uma agradável e fascinante leitura.
“O Poço das Harpias” por Celly Monteiro.
Um conto surpreendente, quase palpável, minuciosamente relatado nos fazendo perceber que para a personagem, apesar do tempo transcorrido, tudo ainda a machuca como se tivesse sido ontem.
Amor, traição, compaixão, ódio e vingança se juntam perfeitamente nesse horripilante conto de terror deixando um gostinho de prazer no final.
“Reversões” de André Carreiro Fumega traz as aventuras nada saudáveis de três diabinhos que tem como passatempo praticar vis crueldades.
Quem nunca conheceu uma criança perversa que sente prazer em torturar animais indefesos?
Eu conheci várias. Aliás, acho que fui vizinha do Léo, do Rafa e do Edu quando era pequena.
“Duas Crianças e Duas Chaves” de Felipe Pierantoni narra como o ódio e a rivalidade entre duas localidades pode influenciar gerações após gerações. Mostra também como a guerra não trás nada de benéfico, principalmente para as crianças.
Finalmente o 15º conto. “Caindo no Despertar” de Suzy M. Hekamiah que vem fechar de forma brilhante essa antologia.
Um conto envolvente que consegue nos prender até seu desfecho final.
Oliver que no início se mostra confuso, perdido, como uma peça que não se encaixa no quebra cabeça, vai sutilmente mostrando a que veio, tomando finalmente o lugar que lhe é de direito no mundo.
Bom, termino por aqui minha resenha da mesma forma que acabei de ler o livro, com um desejo enorme de ter muito mais. Nem acreditei quando cheguei ao fim. Definitivamente virei fã desses 15 autores sensacionais. Parabéns a todos! O tema é ótimo e a idéia merece ser repetida. Esse eu recomendo!

domingo, 8 de maio de 2011

Encontro marcado




Eram quase sete e meia da noite e ela ainda estava no escritório presa com um relatório urgente, mas sua cabeça estava em outro lugar, mais precisamente em sua casa ou em quem a estava esperando lá. Tinha um encontro importantíssimo e iria chegar atrasada pra variar. Precisava se concentrar no trabalho para terminar logo e não perder mais tempo, senão só chegaria em casa nove e meia, isso se o trânsito fosse condescendente com ela.
Olhou novamente para o relógio ao lado do monitor do computador, sete minutos para as sete e meia, só mais uma revisão e estaria pronto, sairia a tempo.
Finalizou o trabalho, imprimiu e entregou ao chefe, que o aprovou e a dispensou, podia ir embora finalmente.
Ele sempre ressaltava sua competência e disponibilidade, uma funcionária exemplar, digna de toda confiança. Havia conseguido chegar onde muitos desejavam estar, mas por puro mérito seu, amava o que fazia, era uma mulher realizada, mas infelizmente só na vida profissional, por que na pessoal, tinha muito que lamentar.
Pegou a bolsa e a chave do carro e correu para o elevador: “Será que ele ainda a estaria esperando, ou havia desistido”?
Abriu a porta e entrou, apertou o T e desceu, pegou o carro na garagem e partiu para a estrada movimentada. Parecia que todo mundo tinha pressa de chegar, ou seja, não chegariam tão cedo a lugar algum. O trânsito lento, o barulho, as buzinas irritantes se juntaram a frustração de ver a hora se esvair sem avanços fazendo seu humor minar pouco a pouco.
Parou o carro no estacionamento do prédio as dez em ponto, meia hora depois do esperado e subiu no elevador derrotada. Tinha certeza que ele não aguentara esperar tanto, estava mais que atrasada. Perdera as contas de quantas vezes furara com ele, quantas vezes o fizera esperar em vão.
Seguiu pelo corredor procurando as chaves de casa em meio ao buraco negro que era sua bolsa, quando achou, já estava em frente à porta. Abriu e entrou esperançosa, mas só encontrou o vazio, o silêncio de sua sala escura e triste. Ele já dormira, ela furara mais uma vez.
Jogou as chaves na mesa de centro e foi até seu quarto também vazio, largou a bolsa em cima da cama e foi até o banheiro lavar as mãos e o rosto. Depois foi até o quarto ao lado dar pelo menos um beijo de boa noite, sentir seu perfume doce e contemplar sua face rosada.
Entrou de fininho e acendeu a luminária clareando o quarto com a luz azulada e agradável. Lá estava ele, dormindo em seu berçinho quente e confortável, a expressão tranqüila, as pálpebras serradas, as bochechas rosadas...
Passava o dia todo com aquela imagem tão perfeita na cabeça, recordando sem cessar todos os detalhes, com o coração apertado por estarem longe um do outro. Seu filho crescia longe de seus olhos e de suas asas, mas não podia reclamar, fora por escolha própria. Escolhera ser mãe, mesmo sabendo que não poderia abrir mão da vida profissional por isso. Pois, ser mãe era muito mais que amar e cuidar, era educar, alimentar, vestir e se doar... Se doar sim, por que era por ele que ela sofria dia após dia atrás de uma mesa de escritório, tendo que se superar dia após dia pra ser boa no que fazia, era por ele e para ele que se dividia em tantas sendo uma só.
Sabia que ele não compreenderia, e não iria compreender até que fosse adulto, mas não fazia diferença, não se arrependeria nunca por ter escolhido ser dele, mesmo sabendo que havia tanta coisa em jogo. A única coisa que lhe cabia nesse papel que escolhera, era amar de longe, sofrer de longe e esperar uma recompensa que nunca chegava.
Pegou na mãozinha rosada e aquecida, beijou a palma e sentiu o cheirinho de sua pele.
Ele fechou a mão em volta do dedo polegar da mãe e apertou, depois relaxou e soltou lentamente. Só queria senti-la, mesmo não tendo conseguido esperar acordado, sabia que ela estava ali agora. E essa era sua forma de dizer isso.
Sara se deixou ficar por algum tempo e depois foi tomar banho. Pensou em muita coisa ao lado dele, mas no fundo sabia que não podia se culpar pra sempre, ela não era a única mãe no mundo a passar por isso.

domingo, 1 de maio de 2011

O Mar

Há coisas na vida difíceis de compreender, dormimos e quando acordamos nada mais é como antes. Não sei como foi, senti uma dor muito grande quando vi.  Foi como se tudo que vivi não tivesse valido a pena. O mar lava a terra e apaga todos os passos que demos, todos os sonhos que tivemos, todos os momentos belos que tivemos.
Ainda agora olho para o mar e não acredito que ele foi tão implacável conosco.  Todos nos avisaram que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde, mas não quisemos acreditar.  Achei que não estaria mais viva para ver. E de repente acordo e o que vejo é destruição, fúria e revolta.  Muita revolta.
É preciso ir, mas não consigo desenterrar os pés dessa areia quente que os calejaram.  Onde antes havia a calma serena de um rio, agora habita as ondas furiosas do mar que o destrói.  Onde havia coqueiros belos e altos, restam raízes arrancadas à força de seu berço. Onde havia casas simples e aconchegantes, apenas destroços.  Os barcos, apenas madeiras pintadas e sem nenhum valor. O mar se aproxima mais e mais das casas restantes.  Logo será a minha que irá adormecer no fundo do que fora o meu sustento um dia, do que fora o meu medo e minha alegria.
Está sendo difícil ir e deixar este lugar. Não tenho mais para onde ir, estou velha demais para bater asas e voar para outro lugar. Aqui nasci e me criei. Uma vez ou outra é que pegava a barca e ia à feira da cidade, mas logo voltava a pisar no meu reino querido onde muitas vezes fui princesa e fui rainha na minha imaginação de menina, onde tudo era belo e simples.  
Lembro-me perfeitamente de tudo. Vejo um filme passar diante de meus olhos e me admiro como minha história está entrelaçada com a deste lugar e com a deste rio que se foi quando nunca imaginávamos que isso aconteceria.
E é nesse lugar que estão os meus pais, meus irmãos, meus filhos e netos que já se foram. Agora todos ficarão para trás, como se mais de sete décadas não fizesse diferença. Vou arrumar minhas riquezas, tudo o que posso carregar e o resto vou deixar para o mar. Não posso deixar que ele  leve os meus bordados de anos e anos guardados, os quadros dos meus mais caros parentes, os meus livros que já não me dizem mais nada, mas já me fizeram feliz há tempos atrás, e, as mais belas lembranças que possuo e que mar algum levará.


sexta-feira, 25 de março de 2011

Sem Tempo


             Essa postagem é exatamente um pedido de desculpa a todos por minha desatenção com o meu blog, com os blogs de meus amigos e com o desafio. Mas tenho uma boa justificativa para esse ato falho.
            Semana de prova na faculdade.
            Hum! Acho que não preciso dizer mais nada não é?
           Só para resumir, tenho três fichamentos, um seminário e três apresentações para fazer fora as provas...






            Então não estranhem se até o final de abril eu andar meio sumida. Sou totalmente inoscente dessa culpa!
           Quando voltar prometo fazer as correções no último conto publicado(John) e acompanhar os de minhas parceiras nessa maratona. É com tristeza que vou abrir mão desse espaço ainda que seja por pouco tempo, mas é por uma boa causa, ou melhor, ótima causa.
          Entre nós vou confessar algo, o que eu realmente queria era estar fazendo isso...



                                                                       E ISSO...




           Mas fazer o quê não é? Vou estudar que é muito bom também...



               E quanto ao meu próximo tema: Fim de Tarde, vou ficar devendo por enquanto, mas prometo que um momento sai, não vejo a hora de começar a trabalhar nele...
               Bom é isso, até a minha volta!


quarta-feira, 23 de março de 2011

John ( Parte Final)

            
John ficou trancado no escritório até o anoitecer. Mary-ann e Lionel o aguardaram pacientemente.
- Você viu como Mr. Jones ficou apavorado hoje cedo. – Lionel ria enquanto relembrava. – Pobrezinho, deve achar que somos um bando de loucos.
- Ou coisa pior não é? Já pensou como devem nos ver os de fora? Temos hábitos incomuns, moramos em casas sombrias, economizamos a luz do dia, encerramos as janelas com cortinas pesadas, só eu me alimento, só eu durmo e só eu tenho uma coloração comum na pele. Sem falar nos estoques de sangue para transfusões diária nos doentes.
- Já havia me esquecido que pensamos e vivemos diferentes de todos os outros.
Enquanto conversavam alguém bateu na porta do quarto. Quando interrogaram de quem se tratava, John respondeu do outro lado. Mary abriu a porta aflita.
- Papai, o que aconteceu? Estamos esperando-o desde cedo.
- Não se preocupe, foi só um dissabor, estou melhor agora. Vim avisar que vamos partir ainda hoje, arrumem suas coisas.
- Então o senhor vem conosco?
- Sim, não tenho mais nada a fazer aqui. Lionel tem razão, essa não é mais a nossa Londres. – Mary percebeu muita tristeza na voz dele.
- E o que o fez tomar essa decisão? O que foi que Mr. Chapman lhe disse para que decidisse isso?
- Ele disse que não há mais o que fazer, não existe mais nenhum descendente nosso vivo. Todos se foram, a última delas faleceu ontem à noite. Morreu muito jovem devido à miséria em que vivia. Aparentemente não deixou nenhum herdeiro.
- Oh! Sinto muito!
- Em apenas dez anos, destruíram toda a herança que lhes deixei, não deram valor ao meu esforço, a minha luta. Como foram parar naquele beco imundo? Eu não entendo. Como foram empobrecer dessa maneira?
- Gastar dinheiro é muito fácil vovô, principalmente o que se ganha sem nenhum esforço, de mão beijada. Não deve se culpar, o senhor fez o que pôde.
- Tudo bem. Vamos esquecer essa história de uma vez e vamos embora.
Quando terminou de falar, o bebê grunhiu na cama envolto nas cobertas. Todos o olharam.
- E o que faremos com ele papai?
- Eu havia me esquecido completamente. Acho que podemos abandoná-lo em algum convento na passagem...
- Isso não. Eu não vou permitir. Prometi a mãe dele que o protegeria, não posso simplesmente jogá-lo em qualquer beco. E não vou deixar que o senhor faça isso.
- Como assim prometeu a mãe dele? Você a conhecia então?
- Sim. E ela me fez prometer que não o deixaria desamparado quando ela partisse. Ele era a única razão dela ter resistido tanto à doença. Mas infelizmente acabou morrendo a noite passada e eu me encarreguei dele desde então.
- Mas como você a conhecia Lionel? Estamos aqui há tão pouco tempo. Como pode ser isso?
- Faz alguns dias eu estava andando pela cidade à noite, então ela me chamou a atenção, estava passando mal e eu fui ajudá-la. Quando me viu, achou que eu era um anjo da morte e havia ido buscá-la, me implorou que não a levasse, pois tinha um filho para criar e precisava viver por ele. Disse-me que não tinha mais ninguém no mundo, era viúva e só.
Por mais que eu tentasse explicar que só queria ajudá-la, não me ouvia, estava delirando. Em meio aos delírios fugiu de mim e eu a segui até em casa. Entrei pela janela e cuidei dela a noite toda, estava queimando de febre. Cuidei dele também, quando adormeceram, parti com o dia clareando. Voltei lá todas as noites desde então. Em um momento de lucidez, ela me fez prometer que cuidaria de seu filho quando se fosse, que não o deixaria desamparado. Fiz o que pude, mas ela não resistiu. Então o trouxe para cá para cumprir a promessa que lhe havia feito.
- Ai Lionel, o que faremos agora?
- Eu já disse, cuidaremos dele. Devo isso a Jane... – Não devia ter dito, mas já era tarde.
John o olhou surpreso.
- Que Jane, Lionel?
- Não era Jane, eu me confundi, nem sei o nome dela na verdade.
- Você está me escondendo algo e eu quero saber o que é!
- Não estou escondendo nada John!
- Desculpe-me, estou sendo injusto com você. Sei que não fez nada de errado, tenho plena confiança em seus atos. Desculpe-me de verdade.
Lionel baixou a cabeça em silêncio. John percebeu que o magoara mais uma vez.
- Não fique assim Lionel, diz alguma coisa, me xingue, me bata... Mas não me odeie.  
- Eu nunca o odiei, não sou esse monstro que pensas, não sou um imaturo e inconsequente como dizes. Apesar de tudo tenho sentimentos e tenho orgulho próprio.
- Sei disso, sei muito mais que você imagina. Sei que você me salvou, também salvou a Mary dez anos atrás, e sei que sem você eu não teria chegado aonde cheguei. Se sou o que sou, só devo isso a você Lionel. Mais uma vez lhe peço perdão.
Lionel estendeu a mão em consentimento para selar a paz entre ambos. John o puxou e enlaçou em um abraço. Depois fez cafuné desalinhando a cabeleira cor de mel do neto enquanto ele tentava se desvencilhar.
- Eu queria que o senhor soubesse que lhe entendo. – Falou ajeitando os cabelos e se recompondo do abraço de urso. – Eu sei o quanto era importante para o senhor resgatar o passado. Também sinto falta de meus irmãos, meu pai e minha mãe. Mas sempre achei que seria inútil procurar por alguém que não voltaria mais. Achava que era loucura sua.
- E era, você sempre esteve correto, eu fui um louco.
- Não foi não vovô. Eu também conheci uma moça idêntica a Jane. Por um momento achei que era minha mãe que havia voltado para nós. Mas era só uma coincidência...
- Onde? Como você conheceu essa moça?
- Aqui em Londres mesmo e como já lhes contei. Era ela a jovem que me pediu ajuda, e eis o por que de eu ter feito o que fiz por ela. Foi como se tivesse tido a oportunidade de ter Jane perto de mim mais uma vez. Era como se estivesse diante de mamãe, como quando tudo era real e palpável. Quando morávamos no campo, trabalhávamos na terra, riamos de tudo, cantávamos e tínhamos amigos. Tudo nela lembrava mamãe, a voz, o sorriso, a face...
- Então era ela esse tempo todo, era a pessoa que busquei todos esses dias. E este bebê era seu descendente! Meu descendente...
John ficou emudecido, todo tempo tivera em suas mãos o que procurava.
Ainda havia esperança, ainda havia alguém por quem lutar, ainda havia um motivo para a vida continuar fazendo sentido.
John pegou a pequena criatura lamurienta da cama e ficou fitando seus traços tentando se reconhecer ali, e de repente tudo passou a fazer sentido, não importava quanto tempo se passasse, quantos desencontros ocorressem, um dia Jane e Matt voltariam para ele, só precisaria esperar e não perder a esperança.