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sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Zoltan, um cão adorável

              ZOLTAN, O CÃO VAMPIRO DE DRÁCULA


Há muitos anos atrás era de costume recebermos a volta dos pais para casa com histórias e novidades, certa vez, nos chegou em um início de noite com muito folguedo infantil um novo habitante. A mãe com a bolsa de bebê azul da caçula nos braços entrou em casa fazendo segredo.
- Quem adivinhar o que trago aqui, vai ganhar um pirulito! Só não pode opinar caçula por já saber o que é. Fique de bico calado!
Todos os outros pequenos se manifestaram ávidos por diversão, olhavam os contornos, olhava-se as brechas e os lances arrancavam gargalhadas gerais, um dizia que era um urso porque tinha visto uma patinha, a outra dizia que era uma bruxa porque tinha medo de bruxas, outro dizia que era um bebê, outro passando perto disse que era um gato para ficar no lugar de Tom que morreu queimado. A surpresa cansada de esperar furou o bloqueio e colocou o focinho para fora, ágil como um gato a mãe colocou de volta, passaria despercebido por todos se a mais esperta não visse e delatasse: É um cachorro! E é amarelo cor de queimado! Ouviu-se vivas e aplausos, a menina mesmo com ajuda havia acertado. O cãozinho passou de mão em mão, era lindo e arredondado, parecia uma bolinha e estava agoniado, queria descer, sentir o chão nos pés, andara duas horas no escuro para não ser despejado, animal não pode andar em ônibus, desce ele e o dono, não importa se ta tudo pago. Outra onda de gargalhadas, o pobrezinho cambaleava, estava tonto e confuso, não conseguiu andar em linha reta. Foi bem vindo na família, tinha braço à disposição, precisava de um nome, houve outra votação, para uma devia se chamar urso, porque não era um brinquedo, mas era tão fofo quanto, para a outra devia se chamar bruxa, mas era menino e não menina, o nome não servia. O pai decidiu que se chamaria Zoltan, porque era ruivo como o cão vampiro de Drácula, apesar de o filhotinho ser belo e gracioso diferente do personagem do filme de terror de Albert Band, o nome agradou.
Como se o batismo fosse o elo que ligaria o cão ao dono, os dois, pai e filho postiço ficaram próximos, cada vez mais amigos. O cãozinho cresceu, ficou grande como um labrador, o pelo brilhante reluzia ao sol, era quase todo ruivo, exceto por um sinal branco na parte posterior do pescoço, ficava feliz quando corria, mas encontrar o pai depois de dias viajando, o deixava radiante. Não era o único cão da família e dos parentes, mas como ele não havia igual. O pai tinha por habito caçar e pescar, colocava a roupa de caça e pesca, o chapéu, o alforje e a espingarda ou a vara de pescar e saia logo cedo, era mais por diversão ou terapia, pois nunca matara um bicho, voltava com as mãos mais vazias do que quando partia, afinal a marmita voltava limpa. Talvez fosse só para ter o gosto de entrar na mata, ter contato com a natureza, matar um pouco a saudade da infância e se sentir em casa. Com a chegada de Zoltan, esses momentos deixaram de ser solitários, um fazia companhia ao outro e ambos adoravam. No fim da tarde Zoltan surgia no quintal esbaforido da corrida, ao chegar nas redondezas, ele deixava o pai para trás e como se brincasse de aposta, chegava primeiro em casa anunciando sua chegada dez, quinze minutos antes. A mãe respirava aliviada, Zoltan chegou, o pai chegaria logo também, são e salvo de ataque de onça, de porco do mato, de boi bravo e qualquer outro perigo que espreitasse. Depois que chegavam, o pai sentava sereno, acendia um cigarro e Zoltan deitava aos seus pés recebendo um afago entre uma baforada e outra, depois de servido o vício, aos poucos os familiares se reuniam e sob a brisa fresca da noite, ouviam histórias contadas pelo pai sobre o passado e sobre o dia, as peripécias de Zoltan, um bicho novo que encontraram, o cão curioso sempre aprontava uma, não podia ver um rio ou córrego que pulava dentro para tomar banho, então pescar com ele do lado era um verdadeiro fracasso, mas era divertido e não era solitário. Na mata corria atrás de pássaros e bichos de menor porte, se via manada de boi bravo, corria atrás dos calcanhares latindo e rosnando, era destemido, mas o pai sabendo do risco que corriam, também se arriscava para salvá-lo de ser pisoteado. O pai tinha paixão por canto de pássaros e isso ele sabia, respeitava o momento, ficava em silêncio apreciando o fenômeno com paixão igual. Enquanto o pai contava as traquinices do dia, Zoltan olhava desconfiado, entendia que era o assunto e que algo tinha feito de travesso, apenas abanava o rabo e olhava de soslaio atento a qualquer sinal de irritação, mas nunca era castigado, tinha muitas regalias.
Viveu assim por mais de dois anos, nunca ficara doente, nunca fora atropelado ou sofrera qualquer outro acidente, era belo e inteligente. Um dia apareceram na cidade homens vestido em fardas cor de terra, eram de um órgão competente, cuidavam da saúde de bichos e de gente. Furavam, tiravam sangue, faziam exames e quando ninguém mais se lembrava, lá vinham eles, com resultados e sentenças.
Não tinham nomes próprios, eram apenas Sucam’s (Superintendência de Campanhas de Saúde Pública) e nunca foram tão cruéis, quanto quando trouxeram o carrasco e a sentença de Zoltan, que junto com tantos outros foi examinado e teve o sangue colhido, eles não eram médicos, mas tinham um poder de decidir qual o destino dos doentes. Sumiram e o coração aliviado, tomou conta de toda gente. Dias depois, sem que nem pra que, chegaram na porta com um carro e uns documentos, a mãe tinha de assinar, era ordem do governo, os animais contaminados por leishmaniose, teriam de ser sacrificados. Como impedir tal absurdo, ninguém sabia, ninguém podia, talvez o pai pudesse, mas ele não estava em casa. A mãe alegou que era visível a saúde do animal, o pelo lustroso e sedoso, diferente da cadela do irmão que estava doente, caindo os pedaços de couro nas costas e nas orelhas, mas eles foram contundentes, a cadela era saudável, o cão é que estava doente. Mesmo com os apelos e os argumentos, acorrentaram-no e colocaram em cima da caçamba, nem precisava das correntes, era bom e inocente, não faria mal a ninguém nem que quisesse. O homem sempre a dizer: Minha senhora é para seu bem, antes ele que suas crianças, além do mais nem vai sentir, vai fechar os olhos e dormir simples assim.
O carro partiu, Zoltan alegre olhando todos, o rabo balançando, estava passeando sem o pai pela primeira vez. A mãe chorou inconsolável: O que o pai vai dizer, quando não encontrar o seu bichinho que partiu tão feliz, nem desconfiava de seu destino. O filho inconformado pensava em uma solução, o amigo comovido fez um convite: Vamos atrás deles e tomamos o cão a força, eles não podem matar um bicho que nem lhes pertence, não passam de uns cruéis sem coração.
A ideia era boa, a esperança renasceu, foram o filho e mais dois, com certeza trariam o cão. Pouco tempo depois voltaram, os homens eram irredutíveis, não havia acordo, deviam esquecer o amigo, seria melhor assim.
Como esquecer? Como fingir que estava tudo bem? Como contar ao pai? Como seguir em frente?
Quando o pai chegou de viagem, soube de tudo, nos mínimos detalhes, Zoltan se fora para sempre por um ato de crueldade, a mãe tinha certeza que os resultados estavam trocados, mas eles tinham o poder, não aceitaram argumento. O pai acendeu um cigarro, sentou no escuro do quintal e de cabeça baixa por lá ficou por muito tempo, ninguém ousou interromper, era seu luto, estava sofrendo.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Shangri-la


Xandhi terminou a ordenha e alisou o pêlo emaranhado da iaque, depois a liberou para pastar pela pradaria. Antes de levar o leite para dentro de casa, recolheu todo o estrume do estábulo e colocou dentro da estufa para queimar e aquecer a cabana onde moravam.
Com o leite fariam manteiga, queijo e xarope, além de beberem quente para aquecer o corpo no frio. Ela olhou o rebanho pastando ao longe feliz em saber que os animais os respeitavam e partilhavam a vida segura e tranquila de Shangri-la.
Ainda lembrava como se fosse ontem o dia que chegara ali com a avó e o irmão fugindo do horror de ver sua aldeia sendo saqueada por três Ietis das montanhas. O pai ordenara que ela salvasse a mãe, a avó e o irmão enquanto ele se juntaria aos homens da aldeia para a defender com a própria vida se fosse preciso. Mas a mãe se recusara a partir e deixar o marido sozinho sucumbindo junto com toda a aldeia. Para ela não havia escolha a não ser atender ao pedido do pai, os três partiram levando a dor e o medo como companheiros. Erraram por dias a fio na neve congelante sem rumo. Quando não parecia mais haver esperança de salvação, a aldeia sagrada apareceu no horizonte como um oásis no meio do deserto. O paraíso que tantos buscaram sem sucesso e de onde muitos fugiram por não estar preparado para alcançar a paz de espírito quase alucinante. O paraíso que surgira do desespero e da incerteza, do medo e da dor.
Ela agora sabia que Shangri-la era sagrada porque abria seus braços maternos para os que mais necessitavam e os que menos ambicionavam, fossem humanos ou não.
Inspirou enchendo os pulmões de ar gelado e expirou soltando fumaça pelo nariz, depois colocou a manta feita de pêlo de iaque em cima dos ombros, pegou os baldes de leite e foi até a cozinha. O ar quente da habitação a envolveu lembrando o colo aquecido da mãe quando era pequena. Enquanto aquecia um pouco de leite ouvia a voz grave da avó contando histórias para Jamhàal sentada na sala forrada com a lã da última tosa dos iaques da aldeia.
Quando o leite ferveu, levou três xícaras e se juntou aos dois agradecendo mentalmente pela oportunidade de ter sido escolhida para viver em Shangri-la.  

sábado, 20 de agosto de 2011

Little Child (final)



Lucy in the sky with diamonds
Lucy in the sky with diamonds
Lucy in the sky with diamonds


The  Beatles(Lennon e McCartney)

- Como está se sentindo agora?
Limitou-se apenas em olhá-la sem quebrar o silêncio.
- Tem certeza que não quer conversar? Pode ser bom pra você se abrir um pouco.
- Sobre o que?
- Não sei, sobre sua mãe talvez. Ela tem aparecido com frequência ainda?
- Não! Ela me abandonou. – Respondeu magoado fazendo a amiga perceber que pisara em terreno perigoso de novo. Mas já que havia começado, decidiu seguir em frente.
- Mas ela gostava tanto de você?!
- Eu a decepcionei mais uma vez e ela não vai me perdoar. Não dessa vez.
- Mas pelo que você me dizia, achei que isso seria impossível. Ela te amava tanto.
- Eu fiz por onde. Sou um monstro. – Falou e socou a parede com fúria assustando-a, mas ele precisava de ajuda.
- Não! Você é uma pessoa boa...
- Não sou! – Falou aos gritos e se levantou encarando-a de muito perto com os olhos vermelhos e inchados de tanto chorar e as veias dilatadas dando-lhe uma aparência de insanidade.
- Eu te conheço e posso garantir que você é bom. Foi bom para o Paulo, foi bom para sua mãe...
- Mas não fui bom com você. Menti para você, lhe atraí para uma armadilha. Justo você que foi a única pessoa que sempre me entendeu, me estendeu a mão e me tratou como uma pessoa de verdade todo esse tempo.
- Do que você está falando? – Não conseguia entender nada, talvez fosse algum delírio insano. – Você é incapaz de prejudicar alguém. Te conheço como a palma da minha mão. Confio em você!
- Mas não devia! Eu não mereci sua confiança! – Começou a andar de um lado para o outro como uma fera enjaulada. – Confiar em mim foi um erro. Minha mãe não vai me perdoar nunca.
Ao vê-lo voltar a chorar, se levantou com a intenção de abraçá-lo e confortá-lo. Mas quando o fez, seus braços abraçaram o vazio.
Sentiu um frio gélido subir por seu corpo eriçando a pele. O que seria esse fenômeno? Estaria ficando louca?
Ao ver sua expressão, ele chorou ainda mais.
- Você também não vai me perdoar não é?
- O que está acontecendo aqui? Só pode ser um pesadelo...
- Eu não queria. Juro que não queria! Achei que estava curado por sua causa. Você era boa e confiava em mim...
Ela olhou em volta buscando um meio de sair correndo dali. Tentou lembrar-se do que realmente havia acontecido naquele apartamento, mas só havia um imenso vazio. Então era isso? Ele havia cometido um suicídio? Ela chegara tarde demais, sua luta fora inglória? Claro, só podia ser isso. E ela tonta achando que poderia ajudá-lo todo esse tempo.
- Como foi que isso aconteceu Leo?
- Você não lembra não é?
E era para lembrar? Então estava presente no momento do suicídio! Então por que não o impedira?
- Eu devo ter esquecido. Você não quer me ajudar a lembrar?
Ele a encarou com uma expressão dolorosa e emudeceu.
Antes que pudesse quebrar o silencio que reinara, o telefone tocou na sala e ela correu para atender na esperança de encontrar ali respostas para suas perguntas. Ele foi atrás para tentar impedir, mas chegou tarde, ela já havia tentado agarrar o aparelho.
Ela recuou apavorada ao tocar o vazio. Como um flash sua memória voltou com todos os detalhes quase visíveis. Lembrou-se de estar distraída olhando o porta-retrato em cima da mesa do telefone quando ele chegou por trás com um cadarço grosso e enlaçou seu pescoço estrangulando-a, apesar da rapidez da execução, ainda pôde divisar seu olhar misto de triunfo e prazer. Ainda ouviu sua voz sussurrar em seu ouvido: Perdoe-me, é mais forte do que eu.
E depois só o vazio e a escuridão.
- Por que você fez isso? Eu só queria te ajudar...
- Esse foi seu erro. Que direito você tinha de confiar em mim? A culpa por tudo isso foi sua. E agora que você já sabe, vá embora de uma vez e me deixe em paz! Deixe-me esquecer de tudo e seguir em frente com minha vida. Quero minha vida de volta...
- Você quer sua vida de volta?! E a minha quem vai devolver? Você me roubou a única coisa que me pertencia de verdade. E agora o que eu faço? Para onde vou, me diz?
- Para qualquer lugar. Aqui é que você não pode ficar. Eu não suportaria sua presença constante me lembrando que fui eu o responsável por sua desgraça.
- Eu não tenho mais nada, nem ninguém. Só me resta você, e eu me recuso a ficar sozinha. Recuso-me a ir embora.
- Mas eu não sei se aguentaria essa tortura.
- Não me mandes embora? Não me condenes a solidão, eu não suportaria.
Deitou no sofá resignado. Era justo que pagasse um preço.

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Little Child (parte I)




Little child, little child
little child won't you dance with me
I'm so sad and lonely
Baby take a chance with me
The  Beatles(Lennon e McCartney)


Daniele acordou sentindo um vazio na cabeça, olhou em volta e não reconheceu o lugar que estava. Voltou a deitar esperando a sensação estranha passar quando ouviu um soluço. Decidiu procurar a pessoa que pelo visto precisava de companhia. Talvez o motivo do choro fosse apenas solidão.
O apartamento era minúsculo, não demorou a encontrá-lo prostrado no canto do quarto.
Ao vê-lo, teve certeza que o conhecia, sabia de sua dor, só não lembrava seu nome, algo bloqueara sua mente. Talvez houvesse tomado algum anestésico para dormir e esquecera-se de algumas coisas, o melhor seria esperar o efeito passar. Mas seu amigo estava precisando de ajuda.
Entrou de fininho com medo de assustá-lo como acontecera no dia anterior. Lembrava-se de sua expressão quando a vira, parecia apavorado.
Quando ele notou sua presença dessa vez, começou a chorar ainda mais alto. Mesmo assim se aproximou tentando tocá-lo, fazer um carinho. Queria confortá-lo. Ele a repeliu de forma enérgica.
- Vá embora, já pedi mil vezes que me deixe em paz. Eu quero ficar sozinho.
- Não vou te deixar! – Estava decidida a tentar ajudá-lo dessa vez. – Você precisa de mim!
Sentou-se na cama próxima a ele que se encolheu ainda mais.
- O que você quer de mim?
- Só quero te ajudar.
- E por que você iria querer me ajudar? Não mereço que ninguém me ajude. Só machuco quem eu amo. – Falou com amargura limpando o rosto com as costas da mão.
- Não é verdade, você é bom. Abrigou-me em sua casa e respeita meu espaço.
- Não! Eu não sou bom, eu sou um ser horrível! – Começou a gritar descontrolado deixando-a assustada.
Ela se levantou procurando manter distância enquanto ele socava a parede com violência.
Queria consolá-lo, dizer que tudo ficaria bem, mas não agora; ele a estava apavorando. Saiu do quarto tremendo e se sentou no sofá-cama onde acordara pouco antes e decidiu esperar o ataque de fúria passar.
Enquanto esperava, começou a lembrar de fatos que a ligavam ao amigo problemático. Agora sabia que ele se chamava Leo; que o conhecera pela Internet; se falavam há muito tempo e um sabia tudo sobre o outro.
Lembrava-se que no inicio da amizade havia tomado todas as precauções, não dera sequer seu nome verdadeiro, ele a conhecia por D.A. e ela o conhecia por Lucy. Só depois soubera que dera esse nome porque amava a musica Lucy in the Sky with Diamonds que era uma espécie de hino para ele.
Com o passar do tempo, a reserva foi se desfazendo, foram ficando íntimos. Lucy, ou melhor, Leo foi cativando-a com sua amizade sincera, contou-lhe seus problemas, falou-lhe sobre a mãe que amava a ponto de vê-la mesmo depois de morta, sobre a dor que sentira quando o pai foi embora e falou também de um papagaio que teve e que morreu engasgado. Para ela era uma historia engraçada a do bichinho, mas sabia que ele levava o caso muito a serio. Ora sua segunda maior perda na vida, a primeira fora a mãe. Ainda lembrava-se do carinho com que ele falava do querido Paulo, seu companheiro desde menino.
Enquanto lembrava-se das horas e horas gastas com ele na internet, um sentimento bom a invadia, uma sensação de carinho, de uma afetividade que os ligava ainda mais. Em pensar que temera tanto o primeiro encontro dos dois no passado? A primeira vez que o vira, fizera questão de marcar em um lugar publico e com muito movimento por medo de que ele fosse um maníaco e apesar de já se falarem até por telefone, não se sentia segura o suficiente para confiar cegamente nele. Mas quando o vira, todas as duvidas sumiram; foi como se já se conhecessem a milhões de anos.
Agora se lembrava até de como fora parar ali. Leo lhe telefonara desesperado, estava tendo uma crise de pânico e precisava de sua ajuda. Dizia que queriam matá-lo, que era perseguido por homens de capuz preto. Então não pensou duas vezes e por isso ainda estava lá, o amigo precisava dela.
Sabia que tinha o dever de voltar para casa, mas não agora, ele ainda não estava bem. E os pais não estavam merecendo que se preocupasse com eles. Estava fora há dias e eles nem deram um telefonema para saber como ela estava ou se estava precisando de alguma coisa.
Um tempo depois percebeu que o amigo estava silencioso, levantou e foi verificar se ele havia adormecido. Entrou cautelosa e sentou em silêncio ao lado dele que ainda estava acordado e no mesmo lugar de antes.
Ele era tão sozinho, parecia um menino desamparado. Tinha o dever de ajudá-lo, não o deixaria tão cedo...

domingo, 31 de julho de 2011

Lembranças de São João


Dedicarei esse texto a minha mana que alegra meu cantinho com suas visitas silenciosas e que também faz parte desta história. Minha mana mais velha que foi meu exemplo a seguir na infância e que a fez muito mais colorida. É para você Sol...


Com o prazo excedendo (afinal hoje é o último dia do mês de julho e não faz sentido falar sobre festa junina em agosto) e muitas lembranças na memória para contar, resolvi finalmente falar sobre o São João para nós das bandas de cá.
Se perguntarmos a uma criança qual sua festa preferida, com certeza ela responderá sem exitar duas delas, o São João e o Natal; e conosco não era diferente.
Lembro-me do meu pai cortando a lenha para fazer a fogueira Caueira com toras grossas para que fizesse muita brasa e assim assássemos milho no espeto como os americanos fazem com o marshmellow. 
Minha mãe e minha tia passavam o dia 22 e o 23 ralando milho e coco para preparar as deliciosas iguarias: canjica, mungunzá, arroz doce, bolo de milho e aipim, batida de frutas, milho cozido e ainda tinha o pé de moleque comprado na feira feito com mandioca.
À tarde no dia 23 nos vestíamos com as fantasias de caipira com direito a tranças e pintinhas na bochecha, depois junto com a meninada da vizinhança dávamos inicio as brincadeiras que seguiam até o amanhecer. Para brincar as brincadeiras de São João não precisa ter idade, apesar de ter uma certa periculosidade, pois, já dizia minha vó; quem brinca com fogo corre o risco de sair queimado. Mas graças a Deus nunca houve nenhum acidente com nenhum dos nossos.
Nesse dia a festa não era só nossa ou só do vizinho, era de todos formando uma grande família que corria e pulava, dançava ao som do pé de serra e arrastava o pé a noite toda (dois para lá e dois para cá).
Apesar das noites frias de inverno, não sobrava tempo para a apatia, todo mundo entrava na folia e não via a noite passar.
São tantas as lembranças que dariam um livro, mas como tudo no mundo muda, eu também mudei. Não temos mais nosso pai para fazer a fogueira e por isso temos que comprá-la todos os anos agora, não vivemos  mais perto das tias e agora somos todos adultos. Hoje a alegria está em preparar a festa para os pequeninos, preparar as comidas típicas e dançar forró da terra (forró pé de serra) para aquecer a noite junto com o vinho.

Nossos novos caipiras.




sexta-feira, 22 de julho de 2011

Viagem sem volta



Kaaliã estava compenetrado olhando para um ponto fixo no espaço através da parede transparente da sala de comandos quando o general Jodl entrou e se surpreendeu com o fato do amigo estar sob a forma humana que assumira durante a estadia na terra. Desde então, Kaaliã já não era mais o mesmo e isso o estava preocupando.
- Olhando o espaço outra vez?
Sua voz era gélida, lembrava um lamento.
- Ela chama de céu...
A voz de Kaaliã era mais suave e demonstrava emoção nessa simples frase.
- Ela... Isso explica sua forma...
Olhou pro amigo com desagrado.
- Você foi vê-la?
- Fui. Ela quer voltar. – Levantou o dedo indicador e apontou para um ponto azul quase indistinto no firmamento.
- Sabe que é impossível. Já falamos sobre isso tantas vezes. – havia um tom de impaciência na sua voz.
- Eu sei, você já falou varias vezes que ela é nossa maior fonte de pesquisa e nossa ultima esperança. Mas e ela? O que ela quer não importa?
- Não nesse caso. Essa humana foi à única até hoje que resistiu a viajem. Você mesmo a trouxe para nós...
- Mas estou arrependido – Cortou bruscamente – Se pudesse voltar no tempo, jamais a teria usurpado de seu mundo, da sua família, de seu lar...
- Faz ideia do que está dizendo Kaaliã? Prefere essa humana à  toda nossa nação? Prefere sucumbir aos desejos fúteis desse ser a reconhecer a grande contribuição que ela pode trazer para nossas pesquisas?
- Eu convivi com ela na terra, conheci seus desejos e anseios, me fiz de amigo. Ela confiou em mim e eu a traí.
- Realmente não te reconheço mais. Será que não vês que deves lealdade a seu povo e não a ela?
- Os humanos têm prazo de validade sabia? E o prazo de Kayla não vai durar muito se ela continuar vivendo nesse sofrimento.
Jodl suspirou para controlar a irritação.
- E o que você sugere que façamos?
- Deixe-me levá-la de volta?
- Isso não está em minhas mãos Kaaliã. Mesmo que eu desse permissão, o conselho não permitiria e ainda me destituiria do meu cargo. Não pretendo ser promovido a desertor. Tudo que Kayla terá que fazer agora é aceitar que nosso planeta é seu novo lar.
- Se você tivesse conhecido a terra de perto, tivesse visto de perto como eles vivem, não diria para Kayla aceitar nosso planeta como seu lar.
- Eu não vi a terra de perto, mas estudei seu ecossistema. Não vi como eles vivem, mas sei que não são esses seres perfeitos que você idealiza. Eles matam seus semelhantes, tiram vidas de inocentes, constroem armas e guerreiam por poder.
- Mas nem todos são assim, muitos deles amam seus semelhantes, se dedicam aos mais necessitados...
- E de onde você copiou esse discurso? Por acaso foi Kayla que lhe falou tudo isso?
- Isso e muito mais. Me contou historias lindas de atos heróicos e grandes provas de amor. Sabia que os humanos amam?
- E o que seria isso?
- Amar é quando você se dedica a alguém. Quando você quer ver o outro feliz mesmo que disso dependa sua própria felicidade. É quando você não se importa de morrer por alguém.  É quando você decide que não pode morrer por que disso depende a vida de seu grande amor e amor é quando você só é feliz se seu amor também for...
- Se tudo que me disse for o que você sente por ela, então não vai querer vê-la livre se souber que o que me pede é uma sentença de morte. Kayla sobreviveu a viagem de vinda, mas não suportaria uma viajem de volta. A matéria dela pode se dissolver como aconteceu com os outros e aí sua luta não teria valido a pena. Sinto muito.
Jodl saiu da sala alterado, essa conversa havia mexido mais com ele do que gostaria.
Kaaliã voltou a mirar o céu relembrando do lugar onde fora realmente feliz apesar de ter sido apenas um estrangeiro.

domingo, 22 de maio de 2011

Fim de tarde...

                                                               



Você lembra, lembra!
Daquele tempo
Eu tinha estrelas nos olhos
Um jeito de herói
Era mais forte e veloz
Que qualquer mocinho
De cowboy...
(Roupa Nova)

Sentou-se no banco da orla como fazia todas as tardes, sentindo o vento sacudir suas roupas e inspirou o ar calmamente. As ondas batiam nas pedras e se desfaziam em espumas brancas, o sol rubro descia no horizonte rumo ao desconhecido.
Apesar de a vista embaçada divisar apenas sombras confusas, gostava de assistir aquele espetáculo que após tantos anos ainda achava ser um milagre. De todas as coisas que presenciara na vida, a natureza era a única que ainda lhe reservava maravilhosas surpresas. Lembrava-se com perfeição de sua vida de menino, de como gostava de subir em árvores, nadar pelado no rio, correr entre as árvores do sitio, galopar pelo pasto no Pintado, ordenhar a vaca Cabrita... Foi ele que a batizara com esse nome, só por que quando ela era bezerrinha vivia saltitando no pasto feliz da vida. 
Sentia muitas saudades daquela época, mas sentia ainda mais saudades do Herói, seu cão perdigueiro, foi o melhor amigo que podia ter existido no mundo; fiel, companheiro, cúmplice, divertido e muito faceiro. Tudo que fazia, ele topava sem reclamar, corria atrás do Pintado pelo pasto, tomavam banho de rio, caçavam na mata e pescavam na bica.
Lembrava com freqüência do dia em que ele chegou à casa grande pequenino e resmunguento, foi simpatia a primeira vista, pegou-o no braço e acariciou, recebeu uma lambida de cumprimento. Herói tinha um cheiro bom, cheiro de cachorro, mas era bom, adorava ficar sentindo o cheiro dele enquanto dormia nos seus braços. Uma vez, ele até colocou um gato do mato pra correr só por que percebeu o perigo que o animal lhe representava, e isso fez com que o admirasse ainda mais, eita bicho corajoso sô! Sorriu só de lembrar.
Herói viveu quatorze anos, mas por ele estaria vivo até hoje, quem sabe assim sua vida teria mais sentido, não sentiria tanta solidão apesar da família enorme que havia construído. Um dia sua casa foi barulhenta, agora o silêncio era seu companheiro; sua vida fora corrida e seu tempo curto, mas agora sobravam horas no fim do dia; antes tinha sempre um ombro amigo para ofertar, uma palavra de conforto para doar, agora sua boca mal articulava um bom dia, as pessoas não tinham mais paciência para lhe escutar. 
Mas nem tudo era amargura no fim, havia lembranças para confortar um corpo calejado, enrugado, e estranhamente cansado. Havia também sua esposa Edite companheira e cúmplice como Herói. E havia também a pequena Julia, esperta e sagaz, com seus poucos anos de vida, lhe ensinava valorosas lições de amor, sua razão de continuar seguindo em frente até que a escuridão da noite trouxesse seu merecido descanso.
Mas enquanto o descanso não vinha, continuaria sorrindo como um bobo com as lembranças que lhe acompanhavam dia após dia, sentindo prazer em vislumbrar daquele banco marrom na orla da praia o espetáculo do entardecer

quarta-feira, 23 de março de 2011

John ( Parte Final)

            
John ficou trancado no escritório até o anoitecer. Mary-ann e Lionel o aguardaram pacientemente.
- Você viu como Mr. Jones ficou apavorado hoje cedo. – Lionel ria enquanto relembrava. – Pobrezinho, deve achar que somos um bando de loucos.
- Ou coisa pior não é? Já pensou como devem nos ver os de fora? Temos hábitos incomuns, moramos em casas sombrias, economizamos a luz do dia, encerramos as janelas com cortinas pesadas, só eu me alimento, só eu durmo e só eu tenho uma coloração comum na pele. Sem falar nos estoques de sangue para transfusões diária nos doentes.
- Já havia me esquecido que pensamos e vivemos diferentes de todos os outros.
Enquanto conversavam alguém bateu na porta do quarto. Quando interrogaram de quem se tratava, John respondeu do outro lado. Mary abriu a porta aflita.
- Papai, o que aconteceu? Estamos esperando-o desde cedo.
- Não se preocupe, foi só um dissabor, estou melhor agora. Vim avisar que vamos partir ainda hoje, arrumem suas coisas.
- Então o senhor vem conosco?
- Sim, não tenho mais nada a fazer aqui. Lionel tem razão, essa não é mais a nossa Londres. – Mary percebeu muita tristeza na voz dele.
- E o que o fez tomar essa decisão? O que foi que Mr. Chapman lhe disse para que decidisse isso?
- Ele disse que não há mais o que fazer, não existe mais nenhum descendente nosso vivo. Todos se foram, a última delas faleceu ontem à noite. Morreu muito jovem devido à miséria em que vivia. Aparentemente não deixou nenhum herdeiro.
- Oh! Sinto muito!
- Em apenas dez anos, destruíram toda a herança que lhes deixei, não deram valor ao meu esforço, a minha luta. Como foram parar naquele beco imundo? Eu não entendo. Como foram empobrecer dessa maneira?
- Gastar dinheiro é muito fácil vovô, principalmente o que se ganha sem nenhum esforço, de mão beijada. Não deve se culpar, o senhor fez o que pôde.
- Tudo bem. Vamos esquecer essa história de uma vez e vamos embora.
Quando terminou de falar, o bebê grunhiu na cama envolto nas cobertas. Todos o olharam.
- E o que faremos com ele papai?
- Eu havia me esquecido completamente. Acho que podemos abandoná-lo em algum convento na passagem...
- Isso não. Eu não vou permitir. Prometi a mãe dele que o protegeria, não posso simplesmente jogá-lo em qualquer beco. E não vou deixar que o senhor faça isso.
- Como assim prometeu a mãe dele? Você a conhecia então?
- Sim. E ela me fez prometer que não o deixaria desamparado quando ela partisse. Ele era a única razão dela ter resistido tanto à doença. Mas infelizmente acabou morrendo a noite passada e eu me encarreguei dele desde então.
- Mas como você a conhecia Lionel? Estamos aqui há tão pouco tempo. Como pode ser isso?
- Faz alguns dias eu estava andando pela cidade à noite, então ela me chamou a atenção, estava passando mal e eu fui ajudá-la. Quando me viu, achou que eu era um anjo da morte e havia ido buscá-la, me implorou que não a levasse, pois tinha um filho para criar e precisava viver por ele. Disse-me que não tinha mais ninguém no mundo, era viúva e só.
Por mais que eu tentasse explicar que só queria ajudá-la, não me ouvia, estava delirando. Em meio aos delírios fugiu de mim e eu a segui até em casa. Entrei pela janela e cuidei dela a noite toda, estava queimando de febre. Cuidei dele também, quando adormeceram, parti com o dia clareando. Voltei lá todas as noites desde então. Em um momento de lucidez, ela me fez prometer que cuidaria de seu filho quando se fosse, que não o deixaria desamparado. Fiz o que pude, mas ela não resistiu. Então o trouxe para cá para cumprir a promessa que lhe havia feito.
- Ai Lionel, o que faremos agora?
- Eu já disse, cuidaremos dele. Devo isso a Jane... – Não devia ter dito, mas já era tarde.
John o olhou surpreso.
- Que Jane, Lionel?
- Não era Jane, eu me confundi, nem sei o nome dela na verdade.
- Você está me escondendo algo e eu quero saber o que é!
- Não estou escondendo nada John!
- Desculpe-me, estou sendo injusto com você. Sei que não fez nada de errado, tenho plena confiança em seus atos. Desculpe-me de verdade.
Lionel baixou a cabeça em silêncio. John percebeu que o magoara mais uma vez.
- Não fique assim Lionel, diz alguma coisa, me xingue, me bata... Mas não me odeie.  
- Eu nunca o odiei, não sou esse monstro que pensas, não sou um imaturo e inconsequente como dizes. Apesar de tudo tenho sentimentos e tenho orgulho próprio.
- Sei disso, sei muito mais que você imagina. Sei que você me salvou, também salvou a Mary dez anos atrás, e sei que sem você eu não teria chegado aonde cheguei. Se sou o que sou, só devo isso a você Lionel. Mais uma vez lhe peço perdão.
Lionel estendeu a mão em consentimento para selar a paz entre ambos. John o puxou e enlaçou em um abraço. Depois fez cafuné desalinhando a cabeleira cor de mel do neto enquanto ele tentava se desvencilhar.
- Eu queria que o senhor soubesse que lhe entendo. – Falou ajeitando os cabelos e se recompondo do abraço de urso. – Eu sei o quanto era importante para o senhor resgatar o passado. Também sinto falta de meus irmãos, meu pai e minha mãe. Mas sempre achei que seria inútil procurar por alguém que não voltaria mais. Achava que era loucura sua.
- E era, você sempre esteve correto, eu fui um louco.
- Não foi não vovô. Eu também conheci uma moça idêntica a Jane. Por um momento achei que era minha mãe que havia voltado para nós. Mas era só uma coincidência...
- Onde? Como você conheceu essa moça?
- Aqui em Londres mesmo e como já lhes contei. Era ela a jovem que me pediu ajuda, e eis o por que de eu ter feito o que fiz por ela. Foi como se tivesse tido a oportunidade de ter Jane perto de mim mais uma vez. Era como se estivesse diante de mamãe, como quando tudo era real e palpável. Quando morávamos no campo, trabalhávamos na terra, riamos de tudo, cantávamos e tínhamos amigos. Tudo nela lembrava mamãe, a voz, o sorriso, a face...
- Então era ela esse tempo todo, era a pessoa que busquei todos esses dias. E este bebê era seu descendente! Meu descendente...
John ficou emudecido, todo tempo tivera em suas mãos o que procurava.
Ainda havia esperança, ainda havia alguém por quem lutar, ainda havia um motivo para a vida continuar fazendo sentido.
John pegou a pequena criatura lamurienta da cama e ficou fitando seus traços tentando se reconhecer ali, e de repente tudo passou a fazer sentido, não importava quanto tempo se passasse, quantos desencontros ocorressem, um dia Jane e Matt voltariam para ele, só precisaria esperar e não perder a esperança.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

John (Penúltima parte)

           
Mary-ann estremeceu diante da descrição vívida de John.
Só então ele percebeu que cometera um erro, ela passara por tudo isso também e graças a Lionel. Nunca perdoaria o neto por isso.
O silêncio que se fez era constrangedor, mas Mary o quebrou com a voz trêmula.
- E o que era essa criatura desprezível? Qual o nome que damos a esse tipo de ser?
- Ele era um vampiro! Um sanguessuga, ser que vive do sangue humano, sem se importar com o fato de ser um assassino.
- E vocês são assim? Vivem sugando o sangue humano para se alimentar?
- Não, eu nunca matei ninguém para continuar vivo. Tenho resistido todos esses anos para não cair em tentação.
- E quando foi que o senhor se deu conta que havia se tornado um vampiro?
- Quando acordei dias depois com a garganta queimando, meu corpo todo queimava como se eu tivesse com febre de quarenta graus, e aquela sede incontrolável me consumindo, me torturando, me fazendo perder a sanidade.
“Jane veio até mim assustada, e eu senti seu cheiro como um cão farejador. Senti desejo de mordê-la, e isso me apavorou, levantei da cama como uma múmia e sai aos tropeços dali, quanto mais eu a desejava, mais eu corria para longe. Os gritos dela ainda ecoavam em minha cabeça, queria voltar, mas tinha medo, a sede estava ficando cada vez mais insuportável, então parei em um rancho e fiz minha primeira vítima. Suguei o sangue de um cavalo no estábulo, só parei quando me senti satisfeito. Mas ai ele já estava morto”.
“Eu quis chorar, mas não consegui, fugi para longe dali e quando achei que já estava longe o suficiente das pessoas, gritei como um louco”.
“Gritar foi a melhor maneira que achei para me livrar da dor, no começo isso assustava Jane, mas com o tempo ela se acostumou. Achava que fazia parte do meu sofrimento por causa da doença que eu adquirira depois do ataque, aliás, essa foi a melhor desculpa que eu poderia ter dado para minha mudança física e mental. Todos achavam que eu havia contraído uma misteriosa doença que me impedia de sair ao sol, que me trazia dores musculares inimagináveis, que me fazia ficar aparentemente jovem apesar do passar dos anos e que me fizeram escolher os cantos escuros do meu quarto. No início Jane recebia muitas visitas, todos muito solidários com seu sofrimento, mas com o passar do tempo todos cansaram e a abandonaram a própria sorte. Éramos apenas eu e ela outra vez”.
“Havia uma ligação forte entre a gente, a ponto de me fazer fugir dela toda vez que sentisse sede, a ponto de me fazer lutar por ela e querer continuar vivo apesar de tudo”.
“Ela cresceu, se casou com um camponês que também se chamava Lionel. Teve três filhos, Matthew, Catheryne e Lionel”.
“Ela era feliz e achei que havia chegado à hora de partir já que tinha quem cuidasse dela. Mas Jane reagiu de maneira surpreendente quando lhe disse minha decisão. Largou tudo para me seguir, não se importava com os filhos e o marido, iria comigo aonde eu fosse. Tentei convencê-la do contrário, mas foi inútil, achava que só estaria segura ao meu lado. Diante disso, resolvi ficar, sabia que ela não seria feliz longe deles, e não seria feliz longe de mim. A admiração de Jane por mim se estendeu entre as crianças, Catheryne, Matthew e Lionel me adoravam, mas Lionel mais que os outros. Éramos inseparáveis”.
“As crianças cresceram, Catheryne se casou e foi viver com a própria família, Matthew era frágil, não chegou aos vinte anos, logo depois Jane ficou viúva. E de repente só havíamos nós três. Cada vez mais doente, ela começou a se preocupar com o fato de que eu ficaria sozinho no mundo quando ela se fosse. Eu não entendia por que ela tinha tanto medo da solidão, mas ela estava certa, eu seria muito infeliz depois que todos que eu conhecia partissem e me deixasse só no mundo. Foi então que ela com o consentimento dele... Entregou-me o Lionel. No inicio recusei, mas diante da insistência dos dois e louco como era, não pestanejei, aceitei a oferta. Ele ficou eufórico com a possibilidade de ser minha eterna companhia. E eu feliz por ter aquele garoto que tanto amava ao meu lado. Depois que o mordi, me arrependi amargamente. Jane me consolava dizendo que estava tudo bem, mas eu jamais superei esse remorso. Não tinha o direito de ceifar a vida de um jovem tão adorável por puro egoísmo”.
“Se eu odiava tanto o fato de ser esse ser desprezível, então por que impus essa desgraça a alguém que eu dizia que amava?”
Mary percebeu que isso ainda o fazia sofrer, o remorso o consumia por dentro.
- O que você fez foi um grande ato de amor papai, não deve se culpar tanto. Lionel consentiu, você não fez isso à força, era vontade dele também.
- Nada justifica meu ato minha pequenina. Fui um covarde, um imbecil.
- Não fale assim papai! Lionel nunca se arrependeu disso. Então por que não pensa que foi uma decisão dele também?
- Ele era um garoto, não tinha condições de decidir nada naquela época. Mas eu não, eu sabia o que estava fazendo. E fui um pusilânime...
- Não papai! Não fale assim? Por que se culpar tanto de algo que tenho certeza que Lionel nunca se queixou ou o culpou?
- Incrível ver que você gosta tanto dele e o desculpou depois de tudo que lhe fez. Sou muito grato por isso.
- E não era para agradecer? Ele salvou minha vida, me criou, me amou. Devo muito a ele papai.
- Como salvou sua vida Mary? Ele matou sua família!
- Não! Ele jamais faria isso! Ele é bom, aprendeu muito com o senhor e tem muito orgulho disso.
- Como não? Mas então quem fez aquilo?
- Meus pais foram atacados por três... – Parou emocionada, depois de tanto tempo ainda sentia pavor em falar desse assunto. – O senhor sabe, eles matam sem dó nem piedade, e foram cruéis com eles. Iam me matar também se Lionel não tivesse impedido, ele só estava na hora certa no lugar errado e acabou levando a culpa. Ele arriscou a vida para me salvar.
- E por que ele me escondeu tudo isso por tanto tempo? Por que ele não me contou?
- O senhor não lhe deu chance, caiu em cima dele e tirou suas próprias conclusões quando o viu chegar comigo nos braços.
- Claro! Ele chegou corrido com uma multidão furiosa atrás dele, as pessoas bradavam que ele era um monstro assassino. Queria que eu fizesse o que?
- Desse um pouco de crédito a ele uma vez na vida e não o tratasse sempre como um inconsequente, o que ele não é. Apesar do corpo jovem, a cabeça dele é de um homem maduro e responsável.
- Você não o conhece como eu o conheço!
- Será mesmo papai? Ele conversa comigo, me conta suas tristezas e alegrias, me tem como confidente. Eu sei o que se passa em sua alma, ainda que digas que ele não possui uma.
- Ele nunca me deu mostras de que merece algum crédito. A gente nunca conversa ou troca confidências. Reconheço que sou culpado, mas esse é meu jeito. Não sei ser diferente.
- Então aproveite essa oportunidade e faça uma tentativa. Vai ser bom para o senhor e para ele.
- É, talvez você tenha razão. – beijou a testa da garota e acariciou o rosto dela. – Não posso crer que estou recebendo conselhos sensatos de uma menina de quinze anos.
- Dezesseis papai. Fiz mês passado.
- Mas já? Está quase uma anciã então.
- Papai!
Enquanto os dois riam abraçados, alguém bateu na porta. O mordomo entrou e anunciou que tinham visitas.
- Diga ao Mr. Chapman que o receberei em alguns instantes Mr. Jones. Obrigada.
- Sim senhor. – Mr. Jones saiu e fechou a porta atrás de si.
- Antes de você sair quero que saiba que só lhe contei tudo isso para que você soubesse quem realmente somos, eu e Lionel. Acho que já tem idade para entender bem as coisas e por isso espero compreensão de sua parte.
- Claro que compreendo papai. E saiba que nada mudou entre a gente. Acho que os amo ainda mais.
- Fico muito feliz em saber disso. E tem mais uma coisa. Na verdade eu queria um favor seu.
- Favor? Qual?
- Preciso que você volte para a Alemanha com o Lionel essa noite.
- Mas por que?
- É necessário. Você vai correr perigo se ficar, por isso preciso que vá.
- O senhor não vem conosco?
- Infelizmente não posso. Vocês vão ter que partir sem mim.
- Se é assim então não vou papai. Não vou ficar tranquila de saber que o senhor corre perigo aqui sozinho enquanto estamos salvando nossa própria pele.
- Não Mary, você tem que partir ainda hoje. Não me contrarie querida? Isso é muito sério. Tem uma gangue aqui em Londres que está dominando a saída e a entrada de todos os imigrantes e eles já nos descobriram. Até agora não sabem nada de você, mas não vai demorar muito até que descubram e então você estará correndo perigo. Não quero que tenha que passar por tudo de novo filha.
- Entendo o seu lado papai, mas não quero partir sem você. Por que não vem conosco?
- Eu não posso ir ainda.
- Por que não?
- É uma longa história...
- Não me convenceu.
Diante da relutância da garota, resolveu revelar tudo.
- Partimos de Londres assim que Jane morreu, viajamos sem destino pela Europa em busca de uma ocupação, mas alguns anos depois a vida perdeu o sentido e eu me senti vazio. Já não sabia mais quem eu era ou o que estava fazendo da minha vida, então decidi voltar para Londres para reencontrar o homem que fui um dia e matar um pouco da saudade dos meus parentes queridos que haviam vivido aqui. Eu só queria reavivar as lembranças, mas acabei encontrando bem mais que isso.
“Um dia estava revendo o rancho onde morávamos e vi uma camponesinha sair de dentro dele para pegar água no poço. Era Jane bem em minha frente, jovem e saudável outra vez. De repente era como se eu tivesse voltado no tempo, fosse o mesmo camponês de antes voltando da lida e encontrando minha família feliz a minha espera”.
“Investiguei e descobri que era a neta de minha neta, idêntica em tudo a Jane ou mesmo a minha esposa Catheryne com quem Jane se parecia”.
“Diante disso, tomei a decisão de protegê-los de tudo e de todos, era como se eu tivesse garantindo que Jane, Kathy e Matt não partissem de uma vez da minha companhia. Eles voltariam para mim no decorrer do tempo”.
“Aproveitei a onda de transformação e modernidade que estava começando a povoar a Inglaterra e comecei a investir na industrialização e modernização da mão de obra industrial. Ganhei muito dinheiro, me tornei um homem de negócios. Quando era chegada a hora, fingia que havia morrido, deixando um testamento para eles como se fosse um parente distante tendo-os como únicos herdeiros. Desse jeito vi meus descendentes florescerem e prosperarem. Mas, tivemos que fugir de Dover há dez anos atrás e tive que largá-los. Acabei perdendo o contato. Agora preciso reencontrá-los e retomar minha razão de viver”.
“Entende agora por que não posso partir? Tenho que descobrir onde vivem, o que fazem e como posso voltar a ajudá-los”.
- Como o senhor pretende reencontrá-los? Londres está muito grande agora, vai ser como buscar agulha em um palheiro.
- Eu contratei um detetive. Ele está ai fora agora me aguardando. Certamente tem novidades para mim.
- Então vou pedir que entre. Não vamos mais fazê-lo esperar não é?
- Isso. Mande.
- Boa sorte então papai.
- Obrigada. E Mary? Nunca se esqueça que eu te amo muito.
- Também te amo papai.
Mary saiu e respirou fundo ao fechar a porta atrás de si, precisava processar tanta informação. Pediu que Mr. Chapman entrasse e foi até o quarto onde estavam Lionel e o bebê. Encontrou-o acalentado o menino adormecido no braço.
- Então? O que meu avô tanto conversou com você esse tempo todo?
- Ele me fez relatos emocionantes de sua vida, me falou de você e me disse que temos que partir, mas não me convenceu disso. Agora é que não sei mesmo se quero partir e deixá-lo Lionel.
- Se John quer que façamos isso, acho melhor não contrariá-lo Mary, ele sabe bem o que faz.
- Então você quer partir e deixá-lo Lionel?
- Não! Mas, não sei se quero desobedecê-lo e vir a me arrepender depois. O que ele pensa de mim é muito importante, e não tenho feito por onde ele me tenha em boa conta ultimamente. – Enquanto falava, deitou o bebê na cama.
- Sei o quanto isso é importante para você. E sei também que John te ama mais que tudo, e não importa quantos erros cometa nessa vida, ele vai te perdoar sempre.
Ela o abraçou enquanto ele ponderava pesaroso sobre a opinião dela.
Ouviram um grito forte vindo da biblioteca e correram ate lá. Encontraram Mr. Jones no meio do caminho.
- O que houve Mr. Jones?
- Não sei senhor Lionel, estava na porta dispensando Mr. Chapman quando ouvi o senhor John gritar. – Falou com cara de pavor.
- Tudo bem Mr. Jones, não precisa se preocupar. Acho que ele não recebeu uma boa noticia. Essa é só uma forma dele expressar a dor que ela lhe causou. – Mary falou prevendo o acontecido. – Pode ir para a cozinha, tome um copo d’água. E quando ele estiver melhor, iremos vê-lo. Vá se recompor sim!
- Co-com licença. – Falou e saiu apressado.
 Assim que o senhor trêmulo sumiu pelo corredor, Lionel quis ir até o avô, mas Mary o impediu.
- Deixe-o se recuperar, ele vai nos procurar quando achar necessário.
- Mas eu preciso saber o que aconteceu com ele.
- Não se preocupe, ele vai nos informar quando chegar à hora certa.
- Tudo bem, vamos aguardar.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

John ( Continuação)

           
- Onde você o encontrou?
- Na Dudley Street em um sobrado velho e mal cuidado, a mãe havia morrido há pouco.
- Então o leve e ponha-o de volta onde achou. Vou sair e quando voltar não quero nem rastro desse infeliz aqui.
- Vai ser impossível. A essa altura já devem ter encontrado o corpo e perceberam que o bebê sumiu.
- Como você sabe disso?
- Quando eu estava no apartamento, ouvi alguém chegando, mas não se preocupe, saí antes que me vissem.
- Mais essa agora. Tome! Leve-o daqui. – Falou entregando o bebê. – Tenho que resolver um assunto. Quando eu voltar quero que tenha resolvido esse ai também.
Falou e saiu pisando firme.
Andou por algum tempo sem perceber ao certo onde estava, quando se deu conta já havia chegado à beira do Tâmisa. As lembranças surgindo como uma onda, quase poderia ver tudo acontecer em sua frente, os risos de Kathy, a vozinha fina e estridente de Jane. Sua pequena Jane...
Tanta coisa mudara desde então, a cidade crescera, as pessoas mendigavam por uma mísera vida de escravidão. Onde estava os camponeses? Onde estavam os homens de bem? 
Aquela não era mais a sua Londres, mas não a deixaria por enquanto, não enquanto existissem laços de sangue.
Enquanto pensava, sentiu uma sensação estranha, olhou em volta e só havia o silêncio da madrugada, ninguém a vista. Mas sentia que estava sendo observado por alguém ou algo, havia um sinal de alerta em seu interior. Achou melhor voltar para casa.
Saiu fingindo que não havia percebido nada, quem o estava observando, não deveria ser confiável, melhor não arriscar. Não estava curioso de quem se trataria. Se não fosse o incidente que ocorreria, não teria descoberto seu perseguidor.
Enquanto seguia pela Pall Mall Street, um vulto negro saltou em sua direção como um gato, aterrissou diante de si e bloqueou seu caminho.
- Onde pensa que vai forasteiro? – O desconhecido perguntou em tom ameaçador. Tinha umas expressões grosseiras, selvagens, lembrava um grande rato sujo e desgrenhado. Era um tanto assustador, certamente Mary-ann entraria em pânico diante dele. – Não gostamos de intrusos em nossa região.
- Não sou forasteiro. Sou cidadão desta terra, nasci aqui em Westminster. Quem lhe deu o direito de interpelar-me?
- O direito a mim conferido quando me tornei o guardião deste lugar. E como tal tenho o total dever de controlar a entrada e a saída de estranhos na minha região. O que me garante que falas a verdade? Como posso crer no que me dizes se nunca o vi por aqui? Como fez para se esconder por tanto tempo?
- Vivo trancado em casa ultimamente, prefiro a calmaria do campo a essa desordem que essa cidade se tornou. Saí hoje por que quis pensar, arejar minha cabeça. Não estou aqui como concorrente, não se preocupe.
- Oui, oui. Vou acreditar em você. Mas quero que saiba que estaremos em seu encalço, saberemos cada passo que der... Au revoir. Bon Voyage. – Falou e saiu da frente para que John pudesse seguir.
Chegou em casa duas horas depois, entrou e foi direto para o quarto de Lionel.
- Precisamos conversar. Vem comigo!
Lionel o seguiu sem entender o que estava acontecendo, sabia que era algo grave por que John estava muito alterado. Entraram na biblioteca e ele trancou a porta.
- Se eu lhe pedisse um favor você faria?
- Claro Vô. Sem pensar duas vezes.
- Quero que você leve a Mary de volta para a Alemanha.
- Quê? Como assim?
- Estamos sendo vigiados. Hoje quando fui dar uma volta fui interceptado por um sanguessuga que me ameaçou para que não colocasse em risco seus negócios. Disse que vai vigiar cada passo que eu der. Entende agora por que eu preciso que você a tire daqui? Não podemos correr o risco de descobrirem-na.
- E porque você não vem conosco? Não há nada que nos prenda aqui. Essa não é mais a Londres que conhecemos, essa metrópole cheia de gente esquisita, de desabrigados, de sujeira. Esse não é mais nosso lugar vovô. Venha com a gente?
- Não posso. Tenho que encontrar alguém antes de partir. Não vou descansar enquanto não o fizer. Não será um bandidozinho de quinta que vai me impedir.
- Isso não faz mais sentido, sabe que não faz. Não temos mais ninguém que nos prenda aqui. Seja lá quem for que procura, nem imagina que existimos.
- Não importa. Eu vou ficar. – Falou decidido. – Então? Posso providenciar tudo para sua partida?
- Você só pode estar louco. Como pode insistir tanto nesse barco furado?
- Chega de discussão Lionel, já decidi. Não tem nada que me faça desistir.
- E se ela se recusar a ir sem o senhor? O que eu faço? A levarei a força?
- Não, eu a convencerei a ir. Não se preocupe. Promete que vai cuidar bem dela até eu voltar? Promete que vai defendê-la com sua própria vida se for preciso?
- Tá, eu prometo. Mas vê se não demora muito a se juntar a gente. Vamos estar te esperando.
Lionel abraçou o avô e já ia saindo quando ele o chamou.
- E o que você fez com o bebê?
- Eu? Bom... – Suspirou e fitou o chão desconfiado. – Eu o abriguei em um lugar seguro.  
- Onde?!               
- Entreguei-o a Mary-ann para que cuidasse dele até descidir aonde vou deixá-lo em segurança.
John o encarou irritado. Ainda teria que resolver mais essa por que se dependesse do neto, seria mais um que teria que abrigar. Claro que não estava reclamando de ter feito isso com a pequena Mary, mas não era saudável ter humanos por perto. E era egoísta também, pois teria que privá-los do direito de ser uma pessoa normal como todas as outras.
- Tudo bem. Eu cuidarei disso. Agora vá. Preciso ficar só. E quando Mary acordar, peça que venha me ver, preciso lhe falar.
- Ok.
Quando os primeiros raios de sol começaram a surgir, fechou as cortinas e acendeu as velas de um único candelabro. Não queria muita claridade, a luz feria seus olhos.
Pouco mais de duas horas depois, alguém bateu na porta.
- Olá papai. Mandou me chamar?
- Sim querida. Sente-se aqui. – Falou apontando a poltrona diante de si. Depois que ela se acomodou ele continuou. – Tenho algo muito sério pra lhe dizer. Mas eu queria que não me julgasse mal querida. Entenda que aconteça o que acontecer, eu nunca iria machucá-la e jamais duvide do meu amor e do amor de Lionel por você.
- Não estou entendendo papai. – Mary-ann o fitou com seus olhos azuis profundos, mas parecia tranquila o que fez John seguir em frente.
- Chegou à hora de você saber a verdade sobre a gente.
Ela se limitou a ajeitar os longos cachos dourados e se acomodou melhor na poltrona para ouvir o que ele tinha a dizer pressentindo que seria uma longa história. John estudou seus movimentos atentamente e recomeçou a falar.
- Você sempre quis saber muitas coisas de mim, mas eu sempre dei respostas evasivas. Agora chegou a hora de responder com sinceridade. Pode me perguntar o que quiser e eu responderei.
- Posso mesmo?
- Claro. O que você gostaria de saber minha querida?
- Deixe-me ver. Por que sua mãe o batizou de John?
- Só isso? Então tá. Minha mãe era devota de St. John, toda vez que acontecia alguma coisa boa, ela atribuía o feito a ele. Se papai plantava, ela pedia a St. John a benção para a colheita, se um novilho novo nascia ela o dedicava a St. John... - Enquanto falava sorria saudoso. – Eram tempos maravilhosos aqueles.
- Seu pai plantava? E sua mãe fazia o que?
- Eu sou filho de camponeses, nasci camponês, minha mãe passava o dia tecendo e fiando. Meu pai passava o dia no campo. Eu passava o dia com ele aprendendo como cuidar da terra que um dia seria minha e de minha própria família. Eu nasci em um tempo em que o grande Tâmisa era uma benção para seus filhos e não uma desgraça. A vida era fácil, não se precisava de muito para ser feliz. Casei-me com uma jovem da vizinhança chamada Catheryne, a conheci na igreja e foi amor à primeira vista. Tivemos dois filhos, Uma menina chamada Jane, um menino chamado Matthew. Só os via a noite quando chegava da lida, mas todos me recebiam com grande alegria e eu me sentia no paraíso, era um homem realizado.
“Jane crescia depressa, e ajudava Kathy em tudo, era prestativa. Matt já era mais preguiçoso, preferia ficar sob os cuidados da irmã e da mãe, relutava em me acompanhar no campo. Tentei até que o convenci a ir comigo, estava seguindo o mesmo ramo de meu pai, e sabia que esse tempo juntos só favoreceria nossa relação. Eu os amava tanto!”
Parou emocionado. Eram tantas lembranças. Não havia um só dia que não lembrasse deles, não sentisse dor e saudade.
“Matt era frágil e um dia acabou adoecendo, então fui sozinho para o campo, mas quando voltei à noite, ninguém correu para me abraçar, entrei em casa com o coração apertado, devia ter acontecido algo de muito grave para a casa estar tão silenciosa. Abri a porta e vi minha Kathy caída na sala ensanguentada e imóvel, havia sinais de luta, móveis quebrados, tudo espalhado. Corri até ela, mas já era tarde, estava morta. Ouvi um grito agudo vindo do quarto, era Jane apavorada. Quando cheguei lá, vi a criatura mais desprezível que existe avançando para ela com a boca suja de sangue. Sem medir as conseqüências, pulei em cima dele antes que chegasse perto de minha filha, lutamos por alguns segundos, mas ele era extremamente forte. Me arremessou na parede e me imobilizou, senti seus caninos cravando em meu pescoço. Ele começou a sugar meu sangue como fizera com Kathy, perdi o controle de meus movimentos, mas os gritos apavorados de Jane me chamaram a razão, e eu voltei a lutar para me soltar daquele abraço mortal. Ele a mataria também se eu não fizesse nada. Decidi que não lhe daria esse prazer. Poderia até me levar, mas Jane não. De algum modo consegui força para me livrar dele e quando o fiz, peguei uma tocha acesa da lareira e enfiei em seu olho. Ele começou a gritar feito louco com o olho derretido pela chama, aproveitei e corri para Jane. Ela estava em estado de choque encolhida a um canto, perguntei por Matt e ela apenas olhou para a cama ao lado.
Ele também estava morto. Não passava de um pequeno embrulho ensangue jogado no colchão. Nunca senti tanta dor em minha vida como naquele momento. Em um ato de insanidade, avancei em cima do ser e o lancei nas chamas da lareira. Seu corpo era inflamável e incendiou como uma estopa. Ouvimos seus gritos abraçados, sem sentir nenhum pesar por sua triste sorte. Meu pescoço sangrava e eu perdi os sentidos...
           


Continua...






domingo, 30 de janeiro de 2011

John

     

         Londres, 1854






John andava de um lado para o outro na sala concentrado em pensamentos, trajava uma casaca preta, calças marrom e botas pretas polidas, trazia o cabelo bem penteado. Era alto e tinha um belo porte para os seus centenários vinte e oito anos. Impressionava aonde chegava com sua beleza e poder de sedução involuntárias. Lembrava um animal selvagem preste a dar o bote enquanto andava pela sala vazia. Se tivesse um coração estaria pulsando freneticamente. Fazia anos que saíra daquela cidade e agora que voltara, Lionel queria por tudo a perder com seus atos desmedidos.
Ouviu um barulho quase inaudível e se virou enfurecido. Ele estava lá o olhando como se nada tivesse acontecido.
- Onde você esteve esse tempo todo? – Falou avançado para cima do rapaz que recuou a uma distância segura. – O que você está querendo fazendo isso? Quer botar tudo a perder? Quer acabar com meus planos? Não vê que pode me prejudicar agindo assim?
Apenas o tom de voz denunciava sua irritação, a face não se alterava, os músculos quase não mexiam, um simples mortal sequer perceberia que estavam brigando, o dialogo lembrava uma conversa pacífica em um baile sobre a beleza da festa ou a hospitalidade dos anfitriões.
- Eu só fui dar um passeio. Conhecer a cidade, estudar as condições de sobrevivência, afinal não podemos ficar trancados aqui o tempo todo.
- Quantas vezes já pedi que não me atrapalhasse, tenho coisas importantes a fazer, não bote tudo a perder...
- Não sou seu escravo ou prisioneiro. Não aguento mais minguar aqui dentro dessa casa. Se for para viver escondido. Prefiro voltar para a Alemanha. Lá ao menos tínhamos comida decente.
- Não estou pedindo que passe fome ou se sacrifique. Só estou pedindo um pouco de paciência, precisamos passar incólumes até que fique seguro para todos nós.
- Mas você sai à hora que quer, faz coisas que não me diz... Enquanto eu sou obrigado a ouvir suas ordens e apenas agitar a cauda como um cão servil. Não aguento mais essa prisão, quero respirar o ar da noite ao menos uma vez antes de morrer de tédio.
- Eu não quero lhe aprisionar, só quero impedir que você faça outra besteira como a que fez em Dover há dez anos atrás.
- Você nunca vai me perdoar não é? Vai passar na cara na primeira oportunidade que tiver. Será que não pode me dar um voto de confiança uma única vez na vida?
- Desculpe. Não tive intenção de te ofender, é só que não é fácil superar quando temos a prova de nossos erros diante de nossos olhos todo tempo. Não podemos nos arriscar como quando você raptou Mary-ann daquela vez.
- Você não acha que já aprendi a lição?
- Espero mesmo que tenha aprendido. – Suspirou para diminuir a irritação. – Agora vá. Preciso ficar sozinho.
- Trouxe comida. – Falou sumindo pela porta.
- Como assim trouxe comida? Volte aqui Lionel!
Lionel reapareceu com um embrulho no braço e jogou para John que agarrou e abriu a boca perplexo.
- Não se preocupe vovô, era um órfão solitário. A mãe estava morta, acho que morreu de Peste. É só um lanche, não pude conseguir algo melhor.
John admirou o recém nascido bestificado. Lionel se superou mais uma vez...

         Continua...