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domingo, 1 de março de 2015

Lúcia



A neve que caia há dois dias sem parar tinha tomado todo o povoado, mas não impedia que as pessoas continuassem vivendo suas vidas como se ainda fosse verão. Na verdade a neve já fazia parte da vida de todos e o verão parecia apenas uma lenda daquelas que os pais costumam contar para divertir os filhos e aguçar a imaginação de todos. Em alguns meses pararia de nevar todo dia e as árvores voltariam a florescer, mas continuaria tão frio quanto estava agora, então esse tal de verão com temperaturas agradáveis e um sol morno que aquece o coração como um aquecedor natural eles nunca viram ou sentiram.
Lúcia olhou pela janela coberta com mais ou menos 20 centímetros de neve e pulou de alegria ao ver que havia parado de nevar, saiu correndo pela casa em busca da ama para pedir permissão para sair, mas não encontrou ninguém nas áreas comuns, ela deveria estar no quarto. Decidiu sair sem permissão mesmo, estava cansada de ficar trancada em casa dia e noite.
Vestiu um sobretudo de lã e abriu a porta, saiu deixando um rastro de pegadas profundas para trás, contornou a frente da casa e partiu pela estrada deserta em direção a árvore que ficava na beira do riacho congelado, ela estava coberta de neve e certamente estaria escorregadia, não ia dar para subir em seus galhos. O vento frio e cortante fustigava sua pele avermelhada enquanto ela olhava em volta para a imensidão branca, era uma visão encantadora, amava viver ali. A natureza poderia parecer diferente nos livros de biologia e até atraente as vezes, mas nada se comparava a vida por aquelas bandas, árvores, animais, plantas e pessoas que sobreviviam em meio a tanto gelo e desolação sem sentir falta de uma vida mais acessível.
Amava tanto aquele inverno eterno que sonhava em um dia de nevasca poder sair de casa e sentir a neve caindo em sua cabeça, ombros e braços, mas seus pais e sua ama a matariam se ela fizesse uma loucura dessas. Tinha que se contentar em caminhar apenas na neve fofa e espessa.
Estava distraída olhando o horizonte quando um movimento no topo da arvore chamou sua atenção, havia mais alguém ou algo ali, mas estava camuflado pelos tufos de neve acumulados nos galhos. Decidiu se aproximar ainda mais da beirada do rio onde os galhos se curvavam a altura de sua mão em busca de uma boa visão da criatura que lhe fazia companhia. Quando se aproximou, um imenso floco de neve alçou voou derrubando neve em sua cabeça impedindo-a de ver com clareza que animal era ou que direção havia tomado. Limpou o rosto e sacudiu o gelo do corpo, saiu de debaixo dos galhos e olhou em volta em busca de um movimento que denunciasse sua localização. Movimentos nos arbustos ao longe chamaram mais uma vez sua atenção e ela correu para lá sem pensar duas vezes, pretendia chegar o mais próximo possível da ave, queria descobrir qual a espécie e admirar sua beleza. Não tomou o cuidado de olhar a direção que estava seguindo para que não viesse a se perder, simplesmente correu. Ao se aproximar do arbusto branco como flocos de algodão, as folhas remexeram com força derrubando a neve no chão, uma ave não seria capaz de tanta força, seu coração disparou antes mesmo que pudesse ver quem ou o que estava escondido ali, sabia que não era uma boa surpresa. Virou na direção que viera e saiu correndo antes mesmo que o ser saísse de trás das folhagens e a encarasse. Correu o mais rápido que pode atolando as botas na neve e se sentindo cada vez mais pesada e encharcada, sabia que não iria longe e seria atacada a qualquer instante, ouvia a respiração pesada atrás de si e sentia que estava cada vez mais perto de abocanhá-la ou agarra-la, pela velocidade que vinha em sua direção e pelo som feroz soube que não era uma criatura humana, e soube também que não era um animal de pequeno porte, seu fim havia chegado muito cedo. Tentou aumentar a velocidade mesmo estando exausta já, mas seu pé entortou e ela caiu de cara na neve fofa enchendo seu rosto, olhos e boca de gelo. Fechou os olhos e esperou o bote, seus pais sempre disseram que não podia sair sozinha por ai, os animais selvagens estariam a espreita de qualquer vacilo deles para caçá-los, as comidas nesses tempos eram escassas e os ataques de tigres e lobos nas aldeias aconteciam com mais frequência que o normal. O animal saltou em cima de si pousando suas patas firmes e ágeis em suas costas, abocanhou seu capuz e estraçalhou a lã em busca de carne fresca, estava faminto. O medo tomou seu corpo enchendo-a de pânico, seu sangue congelou nas veias, sentiu vontade de gritar, mas a voz morreu na garganta, seria melhor não resistir e aceitar que a culpa por aquilo fora toda dela, iria morrer de forma tão estupida por pura teimosia. O animal investiu mais uma vez em seu pescoço, mas recuou ganindo desesperado, assustada com o som doloroso ela levantou a cabeça e encarou um enorme lobo lutando com uma ave, ele gania toda vez que o animal bicava seu rosto e avançava na ave que batia as asas com fúria. A luta não durou muito e o animal recuou com o rosto sangrado, a ave batia as asas e exibia suas garras afiadas ameaçadoramente fazendo o lobo fugir furioso por ter perdido sua caça e a briga. Depois que ele sumiu de vista, a ave pousou no chão exausta e se virou em direção a garota que permanecera deitada incapaz de reagir. Era uma belíssima coruja branca e enorme, suas asas abertas mediam uns dois metros e ela em pé media uns oitenta centímetros. Encarou Lúcia com olhos brilhantes e baixou a cabeça como se a cumprimentasse. As lágrimas escorreram por seu rosto e o pranto fez seu corpo trêmulo recuperar o controle de si. Se levantou desorientada e caiu de joelhos em frente a ave magnifica, chorou por longos minutos sem dizer uma só palavra, a coruja também não fez nenhum som, esperou pacientemente que a criança retribuísse a gentileza com um obrigado ao menos. Quando Lúcia falou, ela se eriçou atenta ao som.
- Você salvou minha vida! Como eu posso retribuir isso? Como eu posso agradecer seu gesto?
A coruja olhou-a como se entendesse cada palavra e abriu as asas em toda a sua extensão como se quisesse abraçá-la, permaneceu assim por alguns minutos até que a criança se moveu em sua direção e enlaçou seu corpo surpreendentemente macio e quente. Sentiu tanto afeto vindo daquele ser que que seu coração se acalmou de repente e dentro daquelas asas que a envolviam se sentiu segura, até o frio congelante se foi. A coruja recuou alguns passos e fechou as asas encarando-a, depois bateu asas e partiu pela imensidão. Lucia levantou e correu atrás dela até vê-la sumir no horizonte, quando contasse a todos o que tinha vivido, ninguém acreditaria, diriam que ela estava louca. Mas de uma coisa ela sabia, nunca mais esqueceria daquele dia enquanto vivesse.

domingo, 1 de fevereiro de 2015

Branca como a neve - Continuação

... A rainha recebeu a noticia em regozijo, mandou cozinhar o coração para comer no jantar e depois ordenou que prendessem o caçador por ter matado acidentalmente a filha do rei. O reino chorou a morte da jovem, mas logo todos se conformaram, daria na mesma ela viva ou morta.
Branca acordou dentro de uma espécie de caverna mobiliada como um quarto e olhou em volta tentando entender o que estava acontecendo, a cabeça doía e sua visão estava embaçada. Passou a mão pela cabeça e sentiu uma elevação do tamanho de um limão na têmpora direita, a dor só aumentou com o toque. Uma criança enrugada a observava da porta entreaberta o que a deixou assustada, encobriu-se nos lençóis e esperou o que quer que fosse. A criança sumiu e depois voltou com vários outros do mesmo jeito que ele. Uma voz grave a chamou e ela reapareceu por detrás das cobertas curiosa por saber quem a chamava. Para sua surpresa, havia vários homens pequeninos como criança olhando-a e interrogando-a como gente grande. Depois de responder a todas elas, sabatinou-os com mil questionamentos sobre quem eram, o que faziam e o que queriam com ela.
Foi com alivio que percebeu que os homenzinhos, ou melhor, anõezinhos eram amigos e estavam dispostos a ajudá-la, quando recebeu o convite para ficar morando com eles na caverna, não pensou duas vezes, aceitou de imediato. Os anões eram mineradores e trabalhavam nos subterrâneos da floresta negra onde se podia extrair o melhor minério que existia, então aproveitaram e fizeram as fendas das rochas de casa como ela mesma pode perceber, ou melhor, aonde ela mesma veio a se bater. Quando a dor de cabeça aliviou, levantou-se da cama e se pôs a faxina as casas de aranha e o pó dos móveis. Os anões não eram nada higiênicos e ela não gostava de sujeira. Depois da faxina, pegou uma tina e encheu de água até em cima, colocou alfazema para perfumar a água e quem fosse usá-la.
Quando eles chegaram à noite, nem tiveram tempo de se admirar com a arrumação que ela fizera, pois Branca os obrigou a entrar na tina de água um por um para que tirassem a sujeira do corpo e se botasse mais apresentáveis, Já que moraria com eles, os colocaria na linha. Os anões haviam feito um belo trabalho com a caverna, lembrava em tudo uma casa de verdade, e depois de limpa, ficou até agradável de morar, o único defeito era gostarem tanto de animais domésticos, a caverna vivia cheia de galinhas e patos entrando e saindo, mas ela os expulsava a vassouradas toda vez que ousavam, as benditas criaturas faziam uma tremenda bagunça. O anão mais novo cansado de ver a briga diária dela com seus bichinhos resolveram construir uma espécie de curralzinho só para eles, prendia de dia e soltava de noite. Fora isso, viviam em perfeita harmonia, não havia um só dia em que não trouxessem uma lembrança e ela já acordava sabendo que encontraria um presente a sua espera na entrada da caverna, até fazenda conseguiam. Como? Ela não sabia, mas eram belíssimas e serviam de distração para sua solidão diária, cosia e bordava vestidos para ela e batas para eles com prazer. Um mês depois já estava cansada de ficar trancada o dia todo, estava acostumada a caçar, andar pela floresta em busca de lenha e frutas comestíveis, enquanto ali quando terminavam os afazeres de casa ficava sem ter o que fazer pelo resto do dia. Sentia vontade de ir até a cidade saber as novidades, mas não fazia ideia para que lado ficava, tinha medo de se perder pela floresta negra e reencontrar os demônios que a levaram até ali. Só em lembrar sentia arrepios. Por outro lado, ficar presa naquela caverna estava matando-a. Os amigos usavam argumentos assustadores para impedi-la de ir embora, haviam criaturas amaldiçoadas na floresta que poderiam acabar com sua vida em um piscar de olhos. Contudo, não estava ali como prisioneira, eles não tinham o direito de proibi-la de fazer nada. Decidiu arriscar, pegou a capa de chuva preta feita com couro impermeável que eles te deram de presente a três dias atrás e abriu a porta esperando ver a luz do dia, para sua tristeza a escuridão lá fora era pior que dentro da caverna, precisava que seus olhos se acostumassem com a falta de luz para poder sair, deveria haver alguma trilha por onde os amigos andavam todos os dias, só precisaria seguir por ela para ver onde chegaria. Enquanto andava atenta em meio aos galhos e folhas, mantinha sua audição aguçada na esperança de ouvir o perigo antes que alguma criatura pudesse ataca-la. Levava consigo uma faca afiada, mas desejava ter trazido uma picareta afiada e pesada capaz de abater uma fera com um só golpe. Não adiantava lastimar, era uma caçadora, não tinha nada que temer, papai Belsey havia ensinado como se virar na floresta, em um mês não poderia ter esquecido tudo que sabia. Ao lembrar do pai lenhador sentia uma saudade sem fim, imaginou o quanto ele e mamãe Merge deveriam ter sofrido com a notícia de sua morte, eram velhos já, não suportariam mais desgostos como esse. Se pudesse vê-los mesmo de longe, mesmo que não pudesse consolá-los e nem abraça-los, só ver de longe mesmo.
Depois de horas andando percebeu que não iria chegar à cidade, estava perdida em meio a mata cerrada, o melhor a fazer era voltar para casa por onde viera. Voltou com o coração aliviado ao perceber que reconhecia a trilha por onde viera, apesar de cansada, não tinha medo de ficar perdida ali para sempre. Depois de alguns minutos, pensou ter ouvido um movimento leve nas folhagens, olhou em volta e só viu o escuro que seus olhos já estavam a habituados a divisar. Sentiu que tinha alguém observando-a, más, por mais que procurasse em volta, não conseguia ver ou ouvir nada além de sua própria respiração. Sentiu um arrepio percorrer sua espinha, tentou seguir em frente sem entrar em pânico, logo estaria em casa outra vez rindo sua covardia. Andou por mais uma hora sem que a sensação de que estava sendo observada a deixasse, se havia aguem observando-a, certamente a estava seguindo. Poderia colocar sua casa em risco, seus amigos poderiam ser atacados e tudo por sua causa, decidiu não dar mais um passo até descobrir quem era e o que queria com ela. Falou baixinho com medo de quebrar a quietude ou atrair feras famintas.
- Quem é você que me segue? O que quer de mim?
O som saiu quase inaudível, mas ela achou que havia falado alto demais e aguardou amedrontada o ataque da criatura desconhecida, no entanto, nada se moveu. Quem ou o que a estivesse seguindo, deveria ser bastante ameaçador para permitir que passeasse pela floresta como ela estava fazendo sem ser atacada ao primeiro passo após a porta. Deveria ter estranhado aquele silêncio desde o início, mas fora inconsequente a ponto de achar que o que tivera, era sorte. Olhou em volta sem saber o que fazer, se estivesse atraindo o inimigo para a caverna, seria uma tragédia. Tentou recobrar a tranquilidade e pensar com clareza, talvez fosse um amigo que a seguia e não um inimigo. Pensar nisso fez o medo sumir, seu coração desacelerar e as pernas pararem de tremer, se estava sendo protegida não tinha porque se apavorar, chegaria em casa em paz. Continuou a caminhar por mais uma hora até que avistou o curralzinho que ficavam os patos e correu para casa com o coração saltando no peito, não acreditava que havia voltado ilesa. Ao se aproximar da porta, olhou pra trás e gelou ao ver em meio as árvores no galho mais alto, dois olhos vermelhos sangrentos encarando-a.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Enquanto Todos Dormem...


As pessoas costumam dizer que a noite seus medos parecem maiores, suas dores parecem enormes e os fantasmas mais assustadores. Talvez elas tenham razão, para uns a noite esconde segredos inconfessáveis. Não durmo sozinha desde que era criança, ou melhor, não durmo nunca,  mas isso também não é bom, acompanhada não posso derramar minhas lágrimas como devo, se ouvirem meu pranto, exigirão explicações que não quero dar, então as derramo silenciosamente enquanto todos dormem, apenas meu travesseiro é testemunha, mas silenciar a expressão da dor não a diminui e eu sigo assim, sofrendo sozinha. Minha mãe não é boba, já deve ter visto meu travesseiro úmido pela manhã, mas ela cala, finge que nada aconteceu, me deixa só, não me interroga. Por um lado isso é bom, não gosto de dar explicações, mas por outro, dói ainda mais esse silêncio, é quase um abandono. Enquanto sofro noite após noite, tenho medo de dormir, não fico sozinha em nenhum comodo da casa, todos em volta me olham como se eu fosse louca, não acreditam em mim, perdem a paciência comigo e me tratam como um peso. Fui diagnosticada como esquizofrênica, vejo mortos, ouço vozes, tenho fobias, tudo conspira a favor do diagnostico, no mundo real não sobra espaço para o sobrenatural, preferem disferir uma sentença. Não me lembro ao certo quando isso começou, acho que acontece desde sempre, pois dizem que nunca, desde que nasci, tive uma noite de sono tranquila. Não me lembro de nada daquela época, mas do restante de minha vida, não me lembro de outra coisa, até me acostumei com eles, com os vultos, com as vozes, eram minhas únicas amigas, mas de um tempo para cá, eles também me tratam mal, me dizem coisas dolorosas, me fazem sofrer, me perturbam, não me deixam ter paz. Não todos eles, um em particular, o homem de asas negras, esse me consome com seu veneno. Os outros até tentaram interferir nas atitudes dele, mas foram rechaçados, agora apenas me olham com pesar e balançam a cabeça, me estendem a mão de longe, mas não ousam se aproximar. O homem me vigia dia e noite, mas à noite, ele parece ganhar mais força, à noite tudo parece pior, deito virada para minha companheira de cama, mas sinto sua presença e ouço sua voz, sei que ele está encostado no canto do quarto, próximo a minha cabeça de braços cruzados, uma perna ereta e a outra flexionada, as asas encolhidas, só são usadas quando quer me intimidar, quando ouso enfrentá-lo, se não tivesse mostrado há muito tempo que não sou de todo fraca, ele já teria me arrastado com ele para não sei onde, mas ele sabe o quanto temo que isso aconteça, ele conhece tudo que se passa em meu ser, não tenho como fugir, nem com quem contar. Enquanto todos dormem, eu sofro sozinha e silenciosamente.

domingo, 12 de agosto de 2012

Branca como a neve




Era uma vez um rei que vivia muito feliz e uma rainha que só não era tão feliz porque sentia de vez em quando uma tristeza profunda por ainda não ter tido um filho para alegrar ainda mais os seus dias. Tinha noites em que olhava através da janela de ébano a neve branca cair lá fora e sentia muita solidão, então ela pensava em o quão feliz seria se tivesse a graça de ter uma filha bela como à neve, com cabelos negros como o ébano e lábios vermelhos e veludosos como a pétala de uma rosa. Viveu nesse sofrimento por quinze anos e eis que quando menos esperou, concebeu seu fruto tão desejado.
Deu a luz a uma menina branca como a neve de lábios rosados e cabelos negros a quem batizou de Branca de Neve, entretanto desfrutou dessa benção por apenas um dia. A rainha pereceu para a tristeza do rei que ficara tão órfão quanto à filha. O luto durou sete anos, e sete anos Branca viveu sem uma mãe ou um pai para guiar seus atos, cresceu livre como um pássaro e selvagem como um lobo, o que aprendeu foi graças aos criados a quem atazanava dia após dia, um a um. Foi criada como filha pela cozinheira e por seu marido o lenhador real com quem passava os dias a cortar lenha na floresta.
Era curiosa e rebelde, o que cedo ou tarde chamaria a atenção do pai que diante de sua dor vivera cego a tudo mais que se passava. Foram os convivas do castelo, nobres e encostados que lhe chamaram a atenção para isso, a princesa precisava ser corrigida enquanto era cedo, ou o reino seria perdido para sempre nas mãos da criatura. Diante da pressão para que se casasse e desse uma mãe decente a filha, o rei desposou uma prima distante confiando no fato de que correriam menos riscos se ficasse tudo em família.
O rei morreu uma semana depois, segundo o primeiro ministro, de tanta tristeza. Branca sequer chorou sua morte, para ela, o rei não passava de um estranho, assim como a madrasta. Pouco depois do enterro se enfiou nas dependências dos empregados para ser esquecida por longos dez anos. E teria continuado no esquecimento se não fosse à cobiça da nobreza pela sucessão, já que Branca estava em idade de se casar, e o reino precisava de um sucessor legitimo. Quando questionada, a rainha não teve outra saída a não ser mandar buscar a herdeira na floresta onde passava os dias com o lenhador. A esperança dela era que a selvageria da princesa botasse para correr todos os pretendentes, mas para sua surpresa, Branca tinha uma beleza invejável mesmo disfarçada de plebéia. Sentiu tanta inveja daquela jovem sortuda que não se conformou enquanto não concebeu um plano para acabar com a concorrência.
Mandou chamar o caçador real e lhe ordenou que matasse a princesa no dia seguinte quando ela estivesse distraída com o lenhador. Apesar de gostar muito da jovem, não teve escolha, era a sua vida ou a dela. Muniu-se de coragem e foi à caça no dia seguinte, não demorou a encontrar seu rastro, estava colhendo lenha sozinha, a ocasião não poderia ser melhor, empunhou o arco, armou a flecha e mirou bem no coração, mas enquanto esperava uma boa ocasião para desferir a flecha, suas mãos fraquejaram, a princesa era bela demais para morrer, doía tanto desperdício. Hesitou uma, duas vezes e acabou desistindo, se dispôs a voltar e encarar as consequências, mas antes que pudesse partir, Branca o viu e o atacou com um tronco de madeira levando-o ao desmaio. Ao acordar, se viu amarrado em uma árvore sob a mira de sua própria flecha, o sangue que escorrera do ferimento estava seco em seu rosto e a cabeça doía muito. Piscou varias vezes até conseguir divisar o contorno de seu algoz e a surpresa ao reconhecê-la foi tamanha que o levou a gargalhada.
- Se não calar a boca, te espeto bem no coração!
O caçador parou de rir imediatamente e a encarou, era linda, mas era o diabo de bruta, parecia mais filha do lenhador do que do rei. Ela o fez confessar tudo que a rainha planejara contra ela e depois o libertou, mas com pena de saber que seria condenado a morte por ter falhado, matou um porco do mato e lhe entregou o coração para que provasse a rainha que cumprira a missão. Só depois de libertá-lo e deixá-lo partir é que percebeu que estava encrencada, se fora dada como morta, não mais poderia aparecer no castelo, então precisava encontrar outro lugar para morar. Caminhou sem rumo por dias e noites até que se viu as margens da floresta proibida, se entrasse nela, poderia esperar de tudo, até sua sentença de morte cumprida. Contudo, era tarde demais para voltar atrás, então, tremendo de medo, entrou na escuridão em plena luz do dia, andou as cegas, aflita por não poder divisar nada em seu caminho, mas por uma espécie de milagre, sua audição estava mais aguçada, ouvia até o rastejar das minhocas na terra fofa o que ainda a manteve equilibrada. Após mais de três horas de caminhada, ouviu um uivo que arrepiou seu corpo dos pés a cabeça, olhou em volta e não viu nada, apenas a escuridão. Continuou trêmula até ouvir outra vez o uivo ainda mais perto, aumentou os passos e apurou os ouvidos, sentiu que algo a seguiu, podia ouvir a respiração da criatura logo atrás de si, os passos estavam cada vez mais próximos, sem pensar duas vezes, correu o mais rápido que pode sendo açoitada pelas árvores e tropeçando nos galhos úmidos do chão, apesar disso o bicho saltou por cima dela e parou em sua frente com olhos vermelhos como fogo encarando-a e mostrando os dentes ferozes, era um enorme lobo e parecia faminto. Encolheu-se fechando os olhos, com o coração saltando pela garganta e esperou o bote que não veio, abriu os olhos e viu o animal recuar amedrontado, atrás de si havia outra criatura que não lembrava nada que tivesse visto ou ouvido antes, lembrava os homens da aldeia, mas tinha presas e olhos vermelhos como o do lobo. O homem encarava o lobo que recuava devagar, Branca não quis esperar para ver no que ia dar aquele encontro e correu como louca o mais rápido que pode em direção oposta a deles. Porém, não conseguiu ir muito longe, trombou de frente com uma rocha que não viu por causa do escuro e caiu desacordada.

domingo, 29 de julho de 2012

Gárgula




De um salto parou em cima do antigo prédio da alfândega em ruínas e ficou observando a noite silenciosa. A lua cheia sobre a Barra deitava um filete de luz prata sobre o rio gerando uma belíssima paisagem, as águas moviam-se calmamente beijando o alicerce da mureta de proteção de vez em quando. Infelizmente só era possível respirar ar puro e admirar a paisagem na escuridão da noite, sua aparência disforme provocaria pânico nos seres viventes. Quando seus chifres e suas asas foram esculpidos em seu corpo no alto da torre da igreja acreditava-se que traria sorte a quem frequentasse a residência divina. Agora se pensava outra coisa, para todos era apenas um demônio e trazia má sorte. Durante o dia diversas pessoas olhavam para o alto para admirar as esculturas históricas e benziam-se ao deparar-se com sua figura esquálida desonrando as imagens santas ao seu lado. Imagine o que aconteceria se soubessem que ele ganhava vida a noite e se aventurava pelas ruínas do terminal pesqueiro, dos casarões e de tantos outros estabelecimentos esquecidos em meio as lojas e prédios modernos do atual centro da cidade.
Conhecia aquele lugar como a palma da mão, vivia ali desde que o lugar não passava de uma vilinha esquecida por todos até o inicio do século dezenove quando começaram a surgir casa e prédios em uma velocidade vertiginosa; até quando não havia mais espaço para crescer e a cidade se expandiu para outras áreas. A ele restou habitar as construções inacabadas furtivamente esperando o dia em que andaria tranquilamente outra vez, mas até agora esse dia não chegou. Sentou-se no parapeito e ficou observando alguns mendigos dormirem no passeio lá embaixo, outros cheirarem substancias desconhecidas em garrafas ou latas falando palavras desconexas, enquanto pensava em como seria sua vida se existissem outros de sua espécie para poder dividir seus dias. Os seres de baixo eram tantos que mais pareciam uma praga, enquanto que ele estava só e cansado. Poderia descer um pouco e se divertir apavorando os companheiros de noite, mas não sentia vontade, preferiu ficar até que a fome o fizesse buscar alimento nas ruínas do terminal pesqueiro.
Havia noites em que voava pelo céu iluminado com luzes artificiais buscando esperançoso um ser se não igual, que ao menos voasse como ele e que lhe contasse o que vira e vivera onde passara, mas nunca encontrou ninguém, apenas corujas urbanas desprovidas da fala. Estava cansado de buscar, sentia apenas vontade de descansar, mas seu corpo tinha necessidade de se exercitar, o que o obrigava a voar ou saltar de vez em quando para suportar as dores físicas.
Levantou, ergueu as asas atrofiadas até o alto, ensaiou uns movimentos que o ergueram alguns centímetros do telhado, mas depois voltou a aterrissar e encolheu-as, preferiu saltar até o outro lado. Caiu com estrondo no telhado do terminal para assustar os humanos adormecidos lá em baixo, ouviu um reboliço no interior do prédio e depois o silêncio outra vez, estavam todos cansados demais para se importar com os ruídos do que julgavam serem gatos de rua. 
Desceu até lá e escolheu sua vitima com cuidado, era muito exigente em questão de comida, rapidamente agarrou a vitima e cravou as presas no pescoço fazendo o sangue jorrar para dentro de sua garganta até ficar satisfeito. Depois jogou o corpo inerte no chão e voou de volta para a torre da igreja, agachou-se, encolheu a asas e olhou para o horizonte aguardando o nascer do sol.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Shangri-la


Xandhi terminou a ordenha e alisou o pêlo emaranhado da iaque, depois a liberou para pastar pela pradaria. Antes de levar o leite para dentro de casa, recolheu todo o estrume do estábulo e colocou dentro da estufa para queimar e aquecer a cabana onde moravam.
Com o leite fariam manteiga, queijo e xarope, além de beberem quente para aquecer o corpo no frio. Ela olhou o rebanho pastando ao longe feliz em saber que os animais os respeitavam e partilhavam a vida segura e tranquila de Shangri-la.
Ainda lembrava como se fosse ontem o dia que chegara ali com a avó e o irmão fugindo do horror de ver sua aldeia sendo saqueada por três Ietis das montanhas. O pai ordenara que ela salvasse a mãe, a avó e o irmão enquanto ele se juntaria aos homens da aldeia para a defender com a própria vida se fosse preciso. Mas a mãe se recusara a partir e deixar o marido sozinho sucumbindo junto com toda a aldeia. Para ela não havia escolha a não ser atender ao pedido do pai, os três partiram levando a dor e o medo como companheiros. Erraram por dias a fio na neve congelante sem rumo. Quando não parecia mais haver esperança de salvação, a aldeia sagrada apareceu no horizonte como um oásis no meio do deserto. O paraíso que tantos buscaram sem sucesso e de onde muitos fugiram por não estar preparado para alcançar a paz de espírito quase alucinante. O paraíso que surgira do desespero e da incerteza, do medo e da dor.
Ela agora sabia que Shangri-la era sagrada porque abria seus braços maternos para os que mais necessitavam e os que menos ambicionavam, fossem humanos ou não.
Inspirou enchendo os pulmões de ar gelado e expirou soltando fumaça pelo nariz, depois colocou a manta feita de pêlo de iaque em cima dos ombros, pegou os baldes de leite e foi até a cozinha. O ar quente da habitação a envolveu lembrando o colo aquecido da mãe quando era pequena. Enquanto aquecia um pouco de leite ouvia a voz grave da avó contando histórias para Jamhàal sentada na sala forrada com a lã da última tosa dos iaques da aldeia.
Quando o leite ferveu, levou três xícaras e se juntou aos dois agradecendo mentalmente pela oportunidade de ter sido escolhida para viver em Shangri-la.  

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Viagem sem volta



Kaaliã estava compenetrado olhando para um ponto fixo no espaço através da parede transparente da sala de comandos quando o general Jodl entrou e se surpreendeu com o fato do amigo estar sob a forma humana que assumira durante a estadia na terra. Desde então, Kaaliã já não era mais o mesmo e isso o estava preocupando.
- Olhando o espaço outra vez?
Sua voz era gélida, lembrava um lamento.
- Ela chama de céu...
A voz de Kaaliã era mais suave e demonstrava emoção nessa simples frase.
- Ela... Isso explica sua forma...
Olhou pro amigo com desagrado.
- Você foi vê-la?
- Fui. Ela quer voltar. – Levantou o dedo indicador e apontou para um ponto azul quase indistinto no firmamento.
- Sabe que é impossível. Já falamos sobre isso tantas vezes. – havia um tom de impaciência na sua voz.
- Eu sei, você já falou varias vezes que ela é nossa maior fonte de pesquisa e nossa ultima esperança. Mas e ela? O que ela quer não importa?
- Não nesse caso. Essa humana foi à única até hoje que resistiu a viajem. Você mesmo a trouxe para nós...
- Mas estou arrependido – Cortou bruscamente – Se pudesse voltar no tempo, jamais a teria usurpado de seu mundo, da sua família, de seu lar...
- Faz ideia do que está dizendo Kaaliã? Prefere essa humana à  toda nossa nação? Prefere sucumbir aos desejos fúteis desse ser a reconhecer a grande contribuição que ela pode trazer para nossas pesquisas?
- Eu convivi com ela na terra, conheci seus desejos e anseios, me fiz de amigo. Ela confiou em mim e eu a traí.
- Realmente não te reconheço mais. Será que não vês que deves lealdade a seu povo e não a ela?
- Os humanos têm prazo de validade sabia? E o prazo de Kayla não vai durar muito se ela continuar vivendo nesse sofrimento.
Jodl suspirou para controlar a irritação.
- E o que você sugere que façamos?
- Deixe-me levá-la de volta?
- Isso não está em minhas mãos Kaaliã. Mesmo que eu desse permissão, o conselho não permitiria e ainda me destituiria do meu cargo. Não pretendo ser promovido a desertor. Tudo que Kayla terá que fazer agora é aceitar que nosso planeta é seu novo lar.
- Se você tivesse conhecido a terra de perto, tivesse visto de perto como eles vivem, não diria para Kayla aceitar nosso planeta como seu lar.
- Eu não vi a terra de perto, mas estudei seu ecossistema. Não vi como eles vivem, mas sei que não são esses seres perfeitos que você idealiza. Eles matam seus semelhantes, tiram vidas de inocentes, constroem armas e guerreiam por poder.
- Mas nem todos são assim, muitos deles amam seus semelhantes, se dedicam aos mais necessitados...
- E de onde você copiou esse discurso? Por acaso foi Kayla que lhe falou tudo isso?
- Isso e muito mais. Me contou historias lindas de atos heróicos e grandes provas de amor. Sabia que os humanos amam?
- E o que seria isso?
- Amar é quando você se dedica a alguém. Quando você quer ver o outro feliz mesmo que disso dependa sua própria felicidade. É quando você não se importa de morrer por alguém.  É quando você decide que não pode morrer por que disso depende a vida de seu grande amor e amor é quando você só é feliz se seu amor também for...
- Se tudo que me disse for o que você sente por ela, então não vai querer vê-la livre se souber que o que me pede é uma sentença de morte. Kayla sobreviveu a viagem de vinda, mas não suportaria uma viajem de volta. A matéria dela pode se dissolver como aconteceu com os outros e aí sua luta não teria valido a pena. Sinto muito.
Jodl saiu da sala alterado, essa conversa havia mexido mais com ele do que gostaria.
Kaaliã voltou a mirar o céu relembrando do lugar onde fora realmente feliz apesar de ter sido apenas um estrangeiro.

domingo, 22 de maio de 2011

Fim de tarde...

                                                               



Você lembra, lembra!
Daquele tempo
Eu tinha estrelas nos olhos
Um jeito de herói
Era mais forte e veloz
Que qualquer mocinho
De cowboy...
(Roupa Nova)

Sentou-se no banco da orla como fazia todas as tardes, sentindo o vento sacudir suas roupas e inspirou o ar calmamente. As ondas batiam nas pedras e se desfaziam em espumas brancas, o sol rubro descia no horizonte rumo ao desconhecido.
Apesar de a vista embaçada divisar apenas sombras confusas, gostava de assistir aquele espetáculo que após tantos anos ainda achava ser um milagre. De todas as coisas que presenciara na vida, a natureza era a única que ainda lhe reservava maravilhosas surpresas. Lembrava-se com perfeição de sua vida de menino, de como gostava de subir em árvores, nadar pelado no rio, correr entre as árvores do sitio, galopar pelo pasto no Pintado, ordenhar a vaca Cabrita... Foi ele que a batizara com esse nome, só por que quando ela era bezerrinha vivia saltitando no pasto feliz da vida. 
Sentia muitas saudades daquela época, mas sentia ainda mais saudades do Herói, seu cão perdigueiro, foi o melhor amigo que podia ter existido no mundo; fiel, companheiro, cúmplice, divertido e muito faceiro. Tudo que fazia, ele topava sem reclamar, corria atrás do Pintado pelo pasto, tomavam banho de rio, caçavam na mata e pescavam na bica.
Lembrava com freqüência do dia em que ele chegou à casa grande pequenino e resmunguento, foi simpatia a primeira vista, pegou-o no braço e acariciou, recebeu uma lambida de cumprimento. Herói tinha um cheiro bom, cheiro de cachorro, mas era bom, adorava ficar sentindo o cheiro dele enquanto dormia nos seus braços. Uma vez, ele até colocou um gato do mato pra correr só por que percebeu o perigo que o animal lhe representava, e isso fez com que o admirasse ainda mais, eita bicho corajoso sô! Sorriu só de lembrar.
Herói viveu quatorze anos, mas por ele estaria vivo até hoje, quem sabe assim sua vida teria mais sentido, não sentiria tanta solidão apesar da família enorme que havia construído. Um dia sua casa foi barulhenta, agora o silêncio era seu companheiro; sua vida fora corrida e seu tempo curto, mas agora sobravam horas no fim do dia; antes tinha sempre um ombro amigo para ofertar, uma palavra de conforto para doar, agora sua boca mal articulava um bom dia, as pessoas não tinham mais paciência para lhe escutar. 
Mas nem tudo era amargura no fim, havia lembranças para confortar um corpo calejado, enrugado, e estranhamente cansado. Havia também sua esposa Edite companheira e cúmplice como Herói. E havia também a pequena Julia, esperta e sagaz, com seus poucos anos de vida, lhe ensinava valorosas lições de amor, sua razão de continuar seguindo em frente até que a escuridão da noite trouxesse seu merecido descanso.
Mas enquanto o descanso não vinha, continuaria sorrindo como um bobo com as lembranças que lhe acompanhavam dia após dia, sentindo prazer em vislumbrar daquele banco marrom na orla da praia o espetáculo do entardecer

domingo, 1 de maio de 2011

O Mar

Há coisas na vida difíceis de compreender, dormimos e quando acordamos nada mais é como antes. Não sei como foi, senti uma dor muito grande quando vi.  Foi como se tudo que vivi não tivesse valido a pena. O mar lava a terra e apaga todos os passos que demos, todos os sonhos que tivemos, todos os momentos belos que tivemos.
Ainda agora olho para o mar e não acredito que ele foi tão implacável conosco.  Todos nos avisaram que isso aconteceria mais cedo ou mais tarde, mas não quisemos acreditar.  Achei que não estaria mais viva para ver. E de repente acordo e o que vejo é destruição, fúria e revolta.  Muita revolta.
É preciso ir, mas não consigo desenterrar os pés dessa areia quente que os calejaram.  Onde antes havia a calma serena de um rio, agora habita as ondas furiosas do mar que o destrói.  Onde havia coqueiros belos e altos, restam raízes arrancadas à força de seu berço. Onde havia casas simples e aconchegantes, apenas destroços.  Os barcos, apenas madeiras pintadas e sem nenhum valor. O mar se aproxima mais e mais das casas restantes.  Logo será a minha que irá adormecer no fundo do que fora o meu sustento um dia, do que fora o meu medo e minha alegria.
Está sendo difícil ir e deixar este lugar. Não tenho mais para onde ir, estou velha demais para bater asas e voar para outro lugar. Aqui nasci e me criei. Uma vez ou outra é que pegava a barca e ia à feira da cidade, mas logo voltava a pisar no meu reino querido onde muitas vezes fui princesa e fui rainha na minha imaginação de menina, onde tudo era belo e simples.  
Lembro-me perfeitamente de tudo. Vejo um filme passar diante de meus olhos e me admiro como minha história está entrelaçada com a deste lugar e com a deste rio que se foi quando nunca imaginávamos que isso aconteceria.
E é nesse lugar que estão os meus pais, meus irmãos, meus filhos e netos que já se foram. Agora todos ficarão para trás, como se mais de sete décadas não fizesse diferença. Vou arrumar minhas riquezas, tudo o que posso carregar e o resto vou deixar para o mar. Não posso deixar que ele  leve os meus bordados de anos e anos guardados, os quadros dos meus mais caros parentes, os meus livros que já não me dizem mais nada, mas já me fizeram feliz há tempos atrás, e, as mais belas lembranças que possuo e que mar algum levará.


quarta-feira, 23 de março de 2011

John ( Parte Final)

            
John ficou trancado no escritório até o anoitecer. Mary-ann e Lionel o aguardaram pacientemente.
- Você viu como Mr. Jones ficou apavorado hoje cedo. – Lionel ria enquanto relembrava. – Pobrezinho, deve achar que somos um bando de loucos.
- Ou coisa pior não é? Já pensou como devem nos ver os de fora? Temos hábitos incomuns, moramos em casas sombrias, economizamos a luz do dia, encerramos as janelas com cortinas pesadas, só eu me alimento, só eu durmo e só eu tenho uma coloração comum na pele. Sem falar nos estoques de sangue para transfusões diária nos doentes.
- Já havia me esquecido que pensamos e vivemos diferentes de todos os outros.
Enquanto conversavam alguém bateu na porta do quarto. Quando interrogaram de quem se tratava, John respondeu do outro lado. Mary abriu a porta aflita.
- Papai, o que aconteceu? Estamos esperando-o desde cedo.
- Não se preocupe, foi só um dissabor, estou melhor agora. Vim avisar que vamos partir ainda hoje, arrumem suas coisas.
- Então o senhor vem conosco?
- Sim, não tenho mais nada a fazer aqui. Lionel tem razão, essa não é mais a nossa Londres. – Mary percebeu muita tristeza na voz dele.
- E o que o fez tomar essa decisão? O que foi que Mr. Chapman lhe disse para que decidisse isso?
- Ele disse que não há mais o que fazer, não existe mais nenhum descendente nosso vivo. Todos se foram, a última delas faleceu ontem à noite. Morreu muito jovem devido à miséria em que vivia. Aparentemente não deixou nenhum herdeiro.
- Oh! Sinto muito!
- Em apenas dez anos, destruíram toda a herança que lhes deixei, não deram valor ao meu esforço, a minha luta. Como foram parar naquele beco imundo? Eu não entendo. Como foram empobrecer dessa maneira?
- Gastar dinheiro é muito fácil vovô, principalmente o que se ganha sem nenhum esforço, de mão beijada. Não deve se culpar, o senhor fez o que pôde.
- Tudo bem. Vamos esquecer essa história de uma vez e vamos embora.
Quando terminou de falar, o bebê grunhiu na cama envolto nas cobertas. Todos o olharam.
- E o que faremos com ele papai?
- Eu havia me esquecido completamente. Acho que podemos abandoná-lo em algum convento na passagem...
- Isso não. Eu não vou permitir. Prometi a mãe dele que o protegeria, não posso simplesmente jogá-lo em qualquer beco. E não vou deixar que o senhor faça isso.
- Como assim prometeu a mãe dele? Você a conhecia então?
- Sim. E ela me fez prometer que não o deixaria desamparado quando ela partisse. Ele era a única razão dela ter resistido tanto à doença. Mas infelizmente acabou morrendo a noite passada e eu me encarreguei dele desde então.
- Mas como você a conhecia Lionel? Estamos aqui há tão pouco tempo. Como pode ser isso?
- Faz alguns dias eu estava andando pela cidade à noite, então ela me chamou a atenção, estava passando mal e eu fui ajudá-la. Quando me viu, achou que eu era um anjo da morte e havia ido buscá-la, me implorou que não a levasse, pois tinha um filho para criar e precisava viver por ele. Disse-me que não tinha mais ninguém no mundo, era viúva e só.
Por mais que eu tentasse explicar que só queria ajudá-la, não me ouvia, estava delirando. Em meio aos delírios fugiu de mim e eu a segui até em casa. Entrei pela janela e cuidei dela a noite toda, estava queimando de febre. Cuidei dele também, quando adormeceram, parti com o dia clareando. Voltei lá todas as noites desde então. Em um momento de lucidez, ela me fez prometer que cuidaria de seu filho quando se fosse, que não o deixaria desamparado. Fiz o que pude, mas ela não resistiu. Então o trouxe para cá para cumprir a promessa que lhe havia feito.
- Ai Lionel, o que faremos agora?
- Eu já disse, cuidaremos dele. Devo isso a Jane... – Não devia ter dito, mas já era tarde.
John o olhou surpreso.
- Que Jane, Lionel?
- Não era Jane, eu me confundi, nem sei o nome dela na verdade.
- Você está me escondendo algo e eu quero saber o que é!
- Não estou escondendo nada John!
- Desculpe-me, estou sendo injusto com você. Sei que não fez nada de errado, tenho plena confiança em seus atos. Desculpe-me de verdade.
Lionel baixou a cabeça em silêncio. John percebeu que o magoara mais uma vez.
- Não fique assim Lionel, diz alguma coisa, me xingue, me bata... Mas não me odeie.  
- Eu nunca o odiei, não sou esse monstro que pensas, não sou um imaturo e inconsequente como dizes. Apesar de tudo tenho sentimentos e tenho orgulho próprio.
- Sei disso, sei muito mais que você imagina. Sei que você me salvou, também salvou a Mary dez anos atrás, e sei que sem você eu não teria chegado aonde cheguei. Se sou o que sou, só devo isso a você Lionel. Mais uma vez lhe peço perdão.
Lionel estendeu a mão em consentimento para selar a paz entre ambos. John o puxou e enlaçou em um abraço. Depois fez cafuné desalinhando a cabeleira cor de mel do neto enquanto ele tentava se desvencilhar.
- Eu queria que o senhor soubesse que lhe entendo. – Falou ajeitando os cabelos e se recompondo do abraço de urso. – Eu sei o quanto era importante para o senhor resgatar o passado. Também sinto falta de meus irmãos, meu pai e minha mãe. Mas sempre achei que seria inútil procurar por alguém que não voltaria mais. Achava que era loucura sua.
- E era, você sempre esteve correto, eu fui um louco.
- Não foi não vovô. Eu também conheci uma moça idêntica a Jane. Por um momento achei que era minha mãe que havia voltado para nós. Mas era só uma coincidência...
- Onde? Como você conheceu essa moça?
- Aqui em Londres mesmo e como já lhes contei. Era ela a jovem que me pediu ajuda, e eis o por que de eu ter feito o que fiz por ela. Foi como se tivesse tido a oportunidade de ter Jane perto de mim mais uma vez. Era como se estivesse diante de mamãe, como quando tudo era real e palpável. Quando morávamos no campo, trabalhávamos na terra, riamos de tudo, cantávamos e tínhamos amigos. Tudo nela lembrava mamãe, a voz, o sorriso, a face...
- Então era ela esse tempo todo, era a pessoa que busquei todos esses dias. E este bebê era seu descendente! Meu descendente...
John ficou emudecido, todo tempo tivera em suas mãos o que procurava.
Ainda havia esperança, ainda havia alguém por quem lutar, ainda havia um motivo para a vida continuar fazendo sentido.
John pegou a pequena criatura lamurienta da cama e ficou fitando seus traços tentando se reconhecer ali, e de repente tudo passou a fazer sentido, não importava quanto tempo se passasse, quantos desencontros ocorressem, um dia Jane e Matt voltariam para ele, só precisaria esperar e não perder a esperança.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

John (Penúltima parte)

           
Mary-ann estremeceu diante da descrição vívida de John.
Só então ele percebeu que cometera um erro, ela passara por tudo isso também e graças a Lionel. Nunca perdoaria o neto por isso.
O silêncio que se fez era constrangedor, mas Mary o quebrou com a voz trêmula.
- E o que era essa criatura desprezível? Qual o nome que damos a esse tipo de ser?
- Ele era um vampiro! Um sanguessuga, ser que vive do sangue humano, sem se importar com o fato de ser um assassino.
- E vocês são assim? Vivem sugando o sangue humano para se alimentar?
- Não, eu nunca matei ninguém para continuar vivo. Tenho resistido todos esses anos para não cair em tentação.
- E quando foi que o senhor se deu conta que havia se tornado um vampiro?
- Quando acordei dias depois com a garganta queimando, meu corpo todo queimava como se eu tivesse com febre de quarenta graus, e aquela sede incontrolável me consumindo, me torturando, me fazendo perder a sanidade.
“Jane veio até mim assustada, e eu senti seu cheiro como um cão farejador. Senti desejo de mordê-la, e isso me apavorou, levantei da cama como uma múmia e sai aos tropeços dali, quanto mais eu a desejava, mais eu corria para longe. Os gritos dela ainda ecoavam em minha cabeça, queria voltar, mas tinha medo, a sede estava ficando cada vez mais insuportável, então parei em um rancho e fiz minha primeira vítima. Suguei o sangue de um cavalo no estábulo, só parei quando me senti satisfeito. Mas ai ele já estava morto”.
“Eu quis chorar, mas não consegui, fugi para longe dali e quando achei que já estava longe o suficiente das pessoas, gritei como um louco”.
“Gritar foi a melhor maneira que achei para me livrar da dor, no começo isso assustava Jane, mas com o tempo ela se acostumou. Achava que fazia parte do meu sofrimento por causa da doença que eu adquirira depois do ataque, aliás, essa foi a melhor desculpa que eu poderia ter dado para minha mudança física e mental. Todos achavam que eu havia contraído uma misteriosa doença que me impedia de sair ao sol, que me trazia dores musculares inimagináveis, que me fazia ficar aparentemente jovem apesar do passar dos anos e que me fizeram escolher os cantos escuros do meu quarto. No início Jane recebia muitas visitas, todos muito solidários com seu sofrimento, mas com o passar do tempo todos cansaram e a abandonaram a própria sorte. Éramos apenas eu e ela outra vez”.
“Havia uma ligação forte entre a gente, a ponto de me fazer fugir dela toda vez que sentisse sede, a ponto de me fazer lutar por ela e querer continuar vivo apesar de tudo”.
“Ela cresceu, se casou com um camponês que também se chamava Lionel. Teve três filhos, Matthew, Catheryne e Lionel”.
“Ela era feliz e achei que havia chegado à hora de partir já que tinha quem cuidasse dela. Mas Jane reagiu de maneira surpreendente quando lhe disse minha decisão. Largou tudo para me seguir, não se importava com os filhos e o marido, iria comigo aonde eu fosse. Tentei convencê-la do contrário, mas foi inútil, achava que só estaria segura ao meu lado. Diante disso, resolvi ficar, sabia que ela não seria feliz longe deles, e não seria feliz longe de mim. A admiração de Jane por mim se estendeu entre as crianças, Catheryne, Matthew e Lionel me adoravam, mas Lionel mais que os outros. Éramos inseparáveis”.
“As crianças cresceram, Catheryne se casou e foi viver com a própria família, Matthew era frágil, não chegou aos vinte anos, logo depois Jane ficou viúva. E de repente só havíamos nós três. Cada vez mais doente, ela começou a se preocupar com o fato de que eu ficaria sozinho no mundo quando ela se fosse. Eu não entendia por que ela tinha tanto medo da solidão, mas ela estava certa, eu seria muito infeliz depois que todos que eu conhecia partissem e me deixasse só no mundo. Foi então que ela com o consentimento dele... Entregou-me o Lionel. No inicio recusei, mas diante da insistência dos dois e louco como era, não pestanejei, aceitei a oferta. Ele ficou eufórico com a possibilidade de ser minha eterna companhia. E eu feliz por ter aquele garoto que tanto amava ao meu lado. Depois que o mordi, me arrependi amargamente. Jane me consolava dizendo que estava tudo bem, mas eu jamais superei esse remorso. Não tinha o direito de ceifar a vida de um jovem tão adorável por puro egoísmo”.
“Se eu odiava tanto o fato de ser esse ser desprezível, então por que impus essa desgraça a alguém que eu dizia que amava?”
Mary percebeu que isso ainda o fazia sofrer, o remorso o consumia por dentro.
- O que você fez foi um grande ato de amor papai, não deve se culpar tanto. Lionel consentiu, você não fez isso à força, era vontade dele também.
- Nada justifica meu ato minha pequenina. Fui um covarde, um imbecil.
- Não fale assim papai! Lionel nunca se arrependeu disso. Então por que não pensa que foi uma decisão dele também?
- Ele era um garoto, não tinha condições de decidir nada naquela época. Mas eu não, eu sabia o que estava fazendo. E fui um pusilânime...
- Não papai! Não fale assim? Por que se culpar tanto de algo que tenho certeza que Lionel nunca se queixou ou o culpou?
- Incrível ver que você gosta tanto dele e o desculpou depois de tudo que lhe fez. Sou muito grato por isso.
- E não era para agradecer? Ele salvou minha vida, me criou, me amou. Devo muito a ele papai.
- Como salvou sua vida Mary? Ele matou sua família!
- Não! Ele jamais faria isso! Ele é bom, aprendeu muito com o senhor e tem muito orgulho disso.
- Como não? Mas então quem fez aquilo?
- Meus pais foram atacados por três... – Parou emocionada, depois de tanto tempo ainda sentia pavor em falar desse assunto. – O senhor sabe, eles matam sem dó nem piedade, e foram cruéis com eles. Iam me matar também se Lionel não tivesse impedido, ele só estava na hora certa no lugar errado e acabou levando a culpa. Ele arriscou a vida para me salvar.
- E por que ele me escondeu tudo isso por tanto tempo? Por que ele não me contou?
- O senhor não lhe deu chance, caiu em cima dele e tirou suas próprias conclusões quando o viu chegar comigo nos braços.
- Claro! Ele chegou corrido com uma multidão furiosa atrás dele, as pessoas bradavam que ele era um monstro assassino. Queria que eu fizesse o que?
- Desse um pouco de crédito a ele uma vez na vida e não o tratasse sempre como um inconsequente, o que ele não é. Apesar do corpo jovem, a cabeça dele é de um homem maduro e responsável.
- Você não o conhece como eu o conheço!
- Será mesmo papai? Ele conversa comigo, me conta suas tristezas e alegrias, me tem como confidente. Eu sei o que se passa em sua alma, ainda que digas que ele não possui uma.
- Ele nunca me deu mostras de que merece algum crédito. A gente nunca conversa ou troca confidências. Reconheço que sou culpado, mas esse é meu jeito. Não sei ser diferente.
- Então aproveite essa oportunidade e faça uma tentativa. Vai ser bom para o senhor e para ele.
- É, talvez você tenha razão. – beijou a testa da garota e acariciou o rosto dela. – Não posso crer que estou recebendo conselhos sensatos de uma menina de quinze anos.
- Dezesseis papai. Fiz mês passado.
- Mas já? Está quase uma anciã então.
- Papai!
Enquanto os dois riam abraçados, alguém bateu na porta. O mordomo entrou e anunciou que tinham visitas.
- Diga ao Mr. Chapman que o receberei em alguns instantes Mr. Jones. Obrigada.
- Sim senhor. – Mr. Jones saiu e fechou a porta atrás de si.
- Antes de você sair quero que saiba que só lhe contei tudo isso para que você soubesse quem realmente somos, eu e Lionel. Acho que já tem idade para entender bem as coisas e por isso espero compreensão de sua parte.
- Claro que compreendo papai. E saiba que nada mudou entre a gente. Acho que os amo ainda mais.
- Fico muito feliz em saber disso. E tem mais uma coisa. Na verdade eu queria um favor seu.
- Favor? Qual?
- Preciso que você volte para a Alemanha com o Lionel essa noite.
- Mas por que?
- É necessário. Você vai correr perigo se ficar, por isso preciso que vá.
- O senhor não vem conosco?
- Infelizmente não posso. Vocês vão ter que partir sem mim.
- Se é assim então não vou papai. Não vou ficar tranquila de saber que o senhor corre perigo aqui sozinho enquanto estamos salvando nossa própria pele.
- Não Mary, você tem que partir ainda hoje. Não me contrarie querida? Isso é muito sério. Tem uma gangue aqui em Londres que está dominando a saída e a entrada de todos os imigrantes e eles já nos descobriram. Até agora não sabem nada de você, mas não vai demorar muito até que descubram e então você estará correndo perigo. Não quero que tenha que passar por tudo de novo filha.
- Entendo o seu lado papai, mas não quero partir sem você. Por que não vem conosco?
- Eu não posso ir ainda.
- Por que não?
- É uma longa história...
- Não me convenceu.
Diante da relutância da garota, resolveu revelar tudo.
- Partimos de Londres assim que Jane morreu, viajamos sem destino pela Europa em busca de uma ocupação, mas alguns anos depois a vida perdeu o sentido e eu me senti vazio. Já não sabia mais quem eu era ou o que estava fazendo da minha vida, então decidi voltar para Londres para reencontrar o homem que fui um dia e matar um pouco da saudade dos meus parentes queridos que haviam vivido aqui. Eu só queria reavivar as lembranças, mas acabei encontrando bem mais que isso.
“Um dia estava revendo o rancho onde morávamos e vi uma camponesinha sair de dentro dele para pegar água no poço. Era Jane bem em minha frente, jovem e saudável outra vez. De repente era como se eu tivesse voltado no tempo, fosse o mesmo camponês de antes voltando da lida e encontrando minha família feliz a minha espera”.
“Investiguei e descobri que era a neta de minha neta, idêntica em tudo a Jane ou mesmo a minha esposa Catheryne com quem Jane se parecia”.
“Diante disso, tomei a decisão de protegê-los de tudo e de todos, era como se eu tivesse garantindo que Jane, Kathy e Matt não partissem de uma vez da minha companhia. Eles voltariam para mim no decorrer do tempo”.
“Aproveitei a onda de transformação e modernidade que estava começando a povoar a Inglaterra e comecei a investir na industrialização e modernização da mão de obra industrial. Ganhei muito dinheiro, me tornei um homem de negócios. Quando era chegada a hora, fingia que havia morrido, deixando um testamento para eles como se fosse um parente distante tendo-os como únicos herdeiros. Desse jeito vi meus descendentes florescerem e prosperarem. Mas, tivemos que fugir de Dover há dez anos atrás e tive que largá-los. Acabei perdendo o contato. Agora preciso reencontrá-los e retomar minha razão de viver”.
“Entende agora por que não posso partir? Tenho que descobrir onde vivem, o que fazem e como posso voltar a ajudá-los”.
- Como o senhor pretende reencontrá-los? Londres está muito grande agora, vai ser como buscar agulha em um palheiro.
- Eu contratei um detetive. Ele está ai fora agora me aguardando. Certamente tem novidades para mim.
- Então vou pedir que entre. Não vamos mais fazê-lo esperar não é?
- Isso. Mande.
- Boa sorte então papai.
- Obrigada. E Mary? Nunca se esqueça que eu te amo muito.
- Também te amo papai.
Mary saiu e respirou fundo ao fechar a porta atrás de si, precisava processar tanta informação. Pediu que Mr. Chapman entrasse e foi até o quarto onde estavam Lionel e o bebê. Encontrou-o acalentado o menino adormecido no braço.
- Então? O que meu avô tanto conversou com você esse tempo todo?
- Ele me fez relatos emocionantes de sua vida, me falou de você e me disse que temos que partir, mas não me convenceu disso. Agora é que não sei mesmo se quero partir e deixá-lo Lionel.
- Se John quer que façamos isso, acho melhor não contrariá-lo Mary, ele sabe bem o que faz.
- Então você quer partir e deixá-lo Lionel?
- Não! Mas, não sei se quero desobedecê-lo e vir a me arrepender depois. O que ele pensa de mim é muito importante, e não tenho feito por onde ele me tenha em boa conta ultimamente. – Enquanto falava, deitou o bebê na cama.
- Sei o quanto isso é importante para você. E sei também que John te ama mais que tudo, e não importa quantos erros cometa nessa vida, ele vai te perdoar sempre.
Ela o abraçou enquanto ele ponderava pesaroso sobre a opinião dela.
Ouviram um grito forte vindo da biblioteca e correram ate lá. Encontraram Mr. Jones no meio do caminho.
- O que houve Mr. Jones?
- Não sei senhor Lionel, estava na porta dispensando Mr. Chapman quando ouvi o senhor John gritar. – Falou com cara de pavor.
- Tudo bem Mr. Jones, não precisa se preocupar. Acho que ele não recebeu uma boa noticia. Essa é só uma forma dele expressar a dor que ela lhe causou. – Mary falou prevendo o acontecido. – Pode ir para a cozinha, tome um copo d’água. E quando ele estiver melhor, iremos vê-lo. Vá se recompor sim!
- Co-com licença. – Falou e saiu apressado.
 Assim que o senhor trêmulo sumiu pelo corredor, Lionel quis ir até o avô, mas Mary o impediu.
- Deixe-o se recuperar, ele vai nos procurar quando achar necessário.
- Mas eu preciso saber o que aconteceu com ele.
- Não se preocupe, ele vai nos informar quando chegar à hora certa.
- Tudo bem, vamos aguardar.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

John ( Continuação)

           
- Onde você o encontrou?
- Na Dudley Street em um sobrado velho e mal cuidado, a mãe havia morrido há pouco.
- Então o leve e ponha-o de volta onde achou. Vou sair e quando voltar não quero nem rastro desse infeliz aqui.
- Vai ser impossível. A essa altura já devem ter encontrado o corpo e perceberam que o bebê sumiu.
- Como você sabe disso?
- Quando eu estava no apartamento, ouvi alguém chegando, mas não se preocupe, saí antes que me vissem.
- Mais essa agora. Tome! Leve-o daqui. – Falou entregando o bebê. – Tenho que resolver um assunto. Quando eu voltar quero que tenha resolvido esse ai também.
Falou e saiu pisando firme.
Andou por algum tempo sem perceber ao certo onde estava, quando se deu conta já havia chegado à beira do Tâmisa. As lembranças surgindo como uma onda, quase poderia ver tudo acontecer em sua frente, os risos de Kathy, a vozinha fina e estridente de Jane. Sua pequena Jane...
Tanta coisa mudara desde então, a cidade crescera, as pessoas mendigavam por uma mísera vida de escravidão. Onde estava os camponeses? Onde estavam os homens de bem? 
Aquela não era mais a sua Londres, mas não a deixaria por enquanto, não enquanto existissem laços de sangue.
Enquanto pensava, sentiu uma sensação estranha, olhou em volta e só havia o silêncio da madrugada, ninguém a vista. Mas sentia que estava sendo observado por alguém ou algo, havia um sinal de alerta em seu interior. Achou melhor voltar para casa.
Saiu fingindo que não havia percebido nada, quem o estava observando, não deveria ser confiável, melhor não arriscar. Não estava curioso de quem se trataria. Se não fosse o incidente que ocorreria, não teria descoberto seu perseguidor.
Enquanto seguia pela Pall Mall Street, um vulto negro saltou em sua direção como um gato, aterrissou diante de si e bloqueou seu caminho.
- Onde pensa que vai forasteiro? – O desconhecido perguntou em tom ameaçador. Tinha umas expressões grosseiras, selvagens, lembrava um grande rato sujo e desgrenhado. Era um tanto assustador, certamente Mary-ann entraria em pânico diante dele. – Não gostamos de intrusos em nossa região.
- Não sou forasteiro. Sou cidadão desta terra, nasci aqui em Westminster. Quem lhe deu o direito de interpelar-me?
- O direito a mim conferido quando me tornei o guardião deste lugar. E como tal tenho o total dever de controlar a entrada e a saída de estranhos na minha região. O que me garante que falas a verdade? Como posso crer no que me dizes se nunca o vi por aqui? Como fez para se esconder por tanto tempo?
- Vivo trancado em casa ultimamente, prefiro a calmaria do campo a essa desordem que essa cidade se tornou. Saí hoje por que quis pensar, arejar minha cabeça. Não estou aqui como concorrente, não se preocupe.
- Oui, oui. Vou acreditar em você. Mas quero que saiba que estaremos em seu encalço, saberemos cada passo que der... Au revoir. Bon Voyage. – Falou e saiu da frente para que John pudesse seguir.
Chegou em casa duas horas depois, entrou e foi direto para o quarto de Lionel.
- Precisamos conversar. Vem comigo!
Lionel o seguiu sem entender o que estava acontecendo, sabia que era algo grave por que John estava muito alterado. Entraram na biblioteca e ele trancou a porta.
- Se eu lhe pedisse um favor você faria?
- Claro Vô. Sem pensar duas vezes.
- Quero que você leve a Mary de volta para a Alemanha.
- Quê? Como assim?
- Estamos sendo vigiados. Hoje quando fui dar uma volta fui interceptado por um sanguessuga que me ameaçou para que não colocasse em risco seus negócios. Disse que vai vigiar cada passo que eu der. Entende agora por que eu preciso que você a tire daqui? Não podemos correr o risco de descobrirem-na.
- E porque você não vem conosco? Não há nada que nos prenda aqui. Essa não é mais a Londres que conhecemos, essa metrópole cheia de gente esquisita, de desabrigados, de sujeira. Esse não é mais nosso lugar vovô. Venha com a gente?
- Não posso. Tenho que encontrar alguém antes de partir. Não vou descansar enquanto não o fizer. Não será um bandidozinho de quinta que vai me impedir.
- Isso não faz mais sentido, sabe que não faz. Não temos mais ninguém que nos prenda aqui. Seja lá quem for que procura, nem imagina que existimos.
- Não importa. Eu vou ficar. – Falou decidido. – Então? Posso providenciar tudo para sua partida?
- Você só pode estar louco. Como pode insistir tanto nesse barco furado?
- Chega de discussão Lionel, já decidi. Não tem nada que me faça desistir.
- E se ela se recusar a ir sem o senhor? O que eu faço? A levarei a força?
- Não, eu a convencerei a ir. Não se preocupe. Promete que vai cuidar bem dela até eu voltar? Promete que vai defendê-la com sua própria vida se for preciso?
- Tá, eu prometo. Mas vê se não demora muito a se juntar a gente. Vamos estar te esperando.
Lionel abraçou o avô e já ia saindo quando ele o chamou.
- E o que você fez com o bebê?
- Eu? Bom... – Suspirou e fitou o chão desconfiado. – Eu o abriguei em um lugar seguro.  
- Onde?!               
- Entreguei-o a Mary-ann para que cuidasse dele até descidir aonde vou deixá-lo em segurança.
John o encarou irritado. Ainda teria que resolver mais essa por que se dependesse do neto, seria mais um que teria que abrigar. Claro que não estava reclamando de ter feito isso com a pequena Mary, mas não era saudável ter humanos por perto. E era egoísta também, pois teria que privá-los do direito de ser uma pessoa normal como todas as outras.
- Tudo bem. Eu cuidarei disso. Agora vá. Preciso ficar só. E quando Mary acordar, peça que venha me ver, preciso lhe falar.
- Ok.
Quando os primeiros raios de sol começaram a surgir, fechou as cortinas e acendeu as velas de um único candelabro. Não queria muita claridade, a luz feria seus olhos.
Pouco mais de duas horas depois, alguém bateu na porta.
- Olá papai. Mandou me chamar?
- Sim querida. Sente-se aqui. – Falou apontando a poltrona diante de si. Depois que ela se acomodou ele continuou. – Tenho algo muito sério pra lhe dizer. Mas eu queria que não me julgasse mal querida. Entenda que aconteça o que acontecer, eu nunca iria machucá-la e jamais duvide do meu amor e do amor de Lionel por você.
- Não estou entendendo papai. – Mary-ann o fitou com seus olhos azuis profundos, mas parecia tranquila o que fez John seguir em frente.
- Chegou à hora de você saber a verdade sobre a gente.
Ela se limitou a ajeitar os longos cachos dourados e se acomodou melhor na poltrona para ouvir o que ele tinha a dizer pressentindo que seria uma longa história. John estudou seus movimentos atentamente e recomeçou a falar.
- Você sempre quis saber muitas coisas de mim, mas eu sempre dei respostas evasivas. Agora chegou a hora de responder com sinceridade. Pode me perguntar o que quiser e eu responderei.
- Posso mesmo?
- Claro. O que você gostaria de saber minha querida?
- Deixe-me ver. Por que sua mãe o batizou de John?
- Só isso? Então tá. Minha mãe era devota de St. John, toda vez que acontecia alguma coisa boa, ela atribuía o feito a ele. Se papai plantava, ela pedia a St. John a benção para a colheita, se um novilho novo nascia ela o dedicava a St. John... - Enquanto falava sorria saudoso. – Eram tempos maravilhosos aqueles.
- Seu pai plantava? E sua mãe fazia o que?
- Eu sou filho de camponeses, nasci camponês, minha mãe passava o dia tecendo e fiando. Meu pai passava o dia no campo. Eu passava o dia com ele aprendendo como cuidar da terra que um dia seria minha e de minha própria família. Eu nasci em um tempo em que o grande Tâmisa era uma benção para seus filhos e não uma desgraça. A vida era fácil, não se precisava de muito para ser feliz. Casei-me com uma jovem da vizinhança chamada Catheryne, a conheci na igreja e foi amor à primeira vista. Tivemos dois filhos, Uma menina chamada Jane, um menino chamado Matthew. Só os via a noite quando chegava da lida, mas todos me recebiam com grande alegria e eu me sentia no paraíso, era um homem realizado.
“Jane crescia depressa, e ajudava Kathy em tudo, era prestativa. Matt já era mais preguiçoso, preferia ficar sob os cuidados da irmã e da mãe, relutava em me acompanhar no campo. Tentei até que o convenci a ir comigo, estava seguindo o mesmo ramo de meu pai, e sabia que esse tempo juntos só favoreceria nossa relação. Eu os amava tanto!”
Parou emocionado. Eram tantas lembranças. Não havia um só dia que não lembrasse deles, não sentisse dor e saudade.
“Matt era frágil e um dia acabou adoecendo, então fui sozinho para o campo, mas quando voltei à noite, ninguém correu para me abraçar, entrei em casa com o coração apertado, devia ter acontecido algo de muito grave para a casa estar tão silenciosa. Abri a porta e vi minha Kathy caída na sala ensanguentada e imóvel, havia sinais de luta, móveis quebrados, tudo espalhado. Corri até ela, mas já era tarde, estava morta. Ouvi um grito agudo vindo do quarto, era Jane apavorada. Quando cheguei lá, vi a criatura mais desprezível que existe avançando para ela com a boca suja de sangue. Sem medir as conseqüências, pulei em cima dele antes que chegasse perto de minha filha, lutamos por alguns segundos, mas ele era extremamente forte. Me arremessou na parede e me imobilizou, senti seus caninos cravando em meu pescoço. Ele começou a sugar meu sangue como fizera com Kathy, perdi o controle de meus movimentos, mas os gritos apavorados de Jane me chamaram a razão, e eu voltei a lutar para me soltar daquele abraço mortal. Ele a mataria também se eu não fizesse nada. Decidi que não lhe daria esse prazer. Poderia até me levar, mas Jane não. De algum modo consegui força para me livrar dele e quando o fiz, peguei uma tocha acesa da lareira e enfiei em seu olho. Ele começou a gritar feito louco com o olho derretido pela chama, aproveitei e corri para Jane. Ela estava em estado de choque encolhida a um canto, perguntei por Matt e ela apenas olhou para a cama ao lado.
Ele também estava morto. Não passava de um pequeno embrulho ensangue jogado no colchão. Nunca senti tanta dor em minha vida como naquele momento. Em um ato de insanidade, avancei em cima do ser e o lancei nas chamas da lareira. Seu corpo era inflamável e incendiou como uma estopa. Ouvimos seus gritos abraçados, sem sentir nenhum pesar por sua triste sorte. Meu pescoço sangrava e eu perdi os sentidos...
           


Continua...