sábado, 4 de agosto de 2012

O Retorno ao Campo (Fragmento do capitulo do romance "Ulisses")


... Luiza estava ajeitando os laços da roupa em frente ao espelho quando Netinho entrou no quarto e começou a puxá-la apressado e agitado demais para dizer qualquer coisa, resmungando apenas um “vem ver” quando era interrogado, guiou-a para a cozinha do casarão dos bisavós e mostrou um cesto com filhotes de cães sem raça definida, graciosos e peludos. Ele estava encantado com os filhotinhos, nunca vira um antes, os olhos brilhavam de expectativa.
Ela lembrou-se do dia em que Ulisses e Penélope chegaram da mesma forma naquele mesmo ambiente, era como se a historia estivesse se repetindo. Ela e Rosa quiseram tanto os felinos, a ponto de implorar para ficar com eles, no fim acabaram conseguindo, mas com o filho seria diferente, por mais que ele chorasse e implorasse, jamais poderia ficar com o cãozinho. Tivera que abrir mão do gato pelo bem dele, não colocaria outro em seu lugar.
Netinho chorou e implorou, mas a mãe estava irredutível. Ele não entendia que o pêlo do animal representava um perigo para sua saúde, e por mais que a mãe argumentasse, ele tinha um contra argumento convincente. Os pais e os avós também argumentaram a favor do pequeno, mas ela foi obrigada a desobedecê-los dessa vez, há exatamente três anos foi induzida a doar Ulisses pelo bem dele e era pelo bem dele que estava recusando o filhote agora. Netinho tinha saúde frágil e exigia muitos cuidados, viajara pela primeira vez para o campo com milhares de recomendações do médico e cada soluço deixava-os alerta.
O pequeno foi às lágrimas de fato diante da negativa, aconchegou-se no corpo da mãe e soluçou aos prantos deixando Luiza constrangida. “Porque você puxou ao seu pai, tão suscetível meu bem? Antes tivesse saído a mim, forte e com brios.” Ele não entendeu as palavras da mãe e apenas soluçou: “Eu o quero mamãe, queria meu amiguinho pra mim...
Diante do sofrimento real do pequeno, Aurélia pediu à filha que permitisse ao menino ficar como dono do pequeno mesmo não podendo levá-lo com ele aonde fosse, o animal seria criado na casa grande e ele só o veria nas férias quando fossem lá. Netinho aprovou a ideia, só queria ser o dono e poder dizer que tinha um amiguinho só seu. Luiza finalmente cedeu e permitiu que o filho ficasse com o bichinho levando-o do pranto ao riso. Ele era muito belo rindo, tinha as feições de Rosa, os cabelos negros e escorridos como os dela, o sorriso meigo e os olhos amendoados, talvez esse fosse o maior motivo de amá-lo tanto. Otávio só era lembrado no temperamento e na fragilidade, não que ela não amasse o marido, só não tolerava a falta de atitude dele, se fosse mais dono dos próprios atos talvez tivesse mais valor diante de seus olhos...

domingo, 29 de julho de 2012

Gárgula




De um salto parou em cima do antigo prédio da alfândega em ruínas e ficou observando a noite silenciosa. A lua cheia sobre a Barra deitava um filete de luz prata sobre o rio gerando uma belíssima paisagem, as águas moviam-se calmamente beijando o alicerce da mureta de proteção de vez em quando. Infelizmente só era possível respirar ar puro e admirar a paisagem na escuridão da noite, sua aparência disforme provocaria pânico nos seres viventes. Quando seus chifres e suas asas foram esculpidos em seu corpo no alto da torre da igreja acreditava-se que traria sorte a quem frequentasse a residência divina. Agora se pensava outra coisa, para todos era apenas um demônio e trazia má sorte. Durante o dia diversas pessoas olhavam para o alto para admirar as esculturas históricas e benziam-se ao deparar-se com sua figura esquálida desonrando as imagens santas ao seu lado. Imagine o que aconteceria se soubessem que ele ganhava vida a noite e se aventurava pelas ruínas do terminal pesqueiro, dos casarões e de tantos outros estabelecimentos esquecidos em meio as lojas e prédios modernos do atual centro da cidade.
Conhecia aquele lugar como a palma da mão, vivia ali desde que o lugar não passava de uma vilinha esquecida por todos até o inicio do século dezenove quando começaram a surgir casa e prédios em uma velocidade vertiginosa; até quando não havia mais espaço para crescer e a cidade se expandiu para outras áreas. A ele restou habitar as construções inacabadas furtivamente esperando o dia em que andaria tranquilamente outra vez, mas até agora esse dia não chegou. Sentou-se no parapeito e ficou observando alguns mendigos dormirem no passeio lá embaixo, outros cheirarem substancias desconhecidas em garrafas ou latas falando palavras desconexas, enquanto pensava em como seria sua vida se existissem outros de sua espécie para poder dividir seus dias. Os seres de baixo eram tantos que mais pareciam uma praga, enquanto que ele estava só e cansado. Poderia descer um pouco e se divertir apavorando os companheiros de noite, mas não sentia vontade, preferiu ficar até que a fome o fizesse buscar alimento nas ruínas do terminal pesqueiro.
Havia noites em que voava pelo céu iluminado com luzes artificiais buscando esperançoso um ser se não igual, que ao menos voasse como ele e que lhe contasse o que vira e vivera onde passara, mas nunca encontrou ninguém, apenas corujas urbanas desprovidas da fala. Estava cansado de buscar, sentia apenas vontade de descansar, mas seu corpo tinha necessidade de se exercitar, o que o obrigava a voar ou saltar de vez em quando para suportar as dores físicas.
Levantou, ergueu as asas atrofiadas até o alto, ensaiou uns movimentos que o ergueram alguns centímetros do telhado, mas depois voltou a aterrissar e encolheu-as, preferiu saltar até o outro lado. Caiu com estrondo no telhado do terminal para assustar os humanos adormecidos lá em baixo, ouviu um reboliço no interior do prédio e depois o silêncio outra vez, estavam todos cansados demais para se importar com os ruídos do que julgavam serem gatos de rua. 
Desceu até lá e escolheu sua vitima com cuidado, era muito exigente em questão de comida, rapidamente agarrou a vitima e cravou as presas no pescoço fazendo o sangue jorrar para dentro de sua garganta até ficar satisfeito. Depois jogou o corpo inerte no chão e voou de volta para a torre da igreja, agachou-se, encolheu a asas e olhou para o horizonte aguardando o nascer do sol.

sábado, 21 de julho de 2012

Fragmento... Sonhar?



... Elisa estava distraída olhando as estrelas no terreiro e sentindo o vento fresco balançar sua roupa quando Eliana chegou de mansinho olhando em volta atenta a todos os ruídos. Morria de medo da noite e das assombrações que o escuro guardava, mas se a irmã estava lá, estava segura. Elisa parecia não ter medo de nada, passava muita segurança em tudo, mas o que Eliana não sabia era que a irmã também sentia medo de muitas coisas. Só que seus medos eram outros.
Elisa olhou a porteira fechada e mais além a estrada deserta sonhando com o rumo que ela ia lhe dar na vida quando a percorresse. Eliana desconfiou que a irmã estivesse vendo alguma coisa sobrenatural e para não sucumbir ao impulso de sair correndo resolveu perguntar com voz trêmula de medo.
- Você está vendo alguma coisa Elisa, vem alguém lá?
- Não Liana, só estava olhando.
- Você quer sair hoje e papai não deixou?
- Não é isso. Você não entenderia...
- Você não gosta daqui né?
- Claro que eu gosto... Eu só queria conhecer qualquer lugar que não tivesse gado e capim para todo lado.
- Isso eu também queria, vamos pedir a mamãe para nos levar para a cidade amanhã?
Elisa riu da irmã que tinha uma maneira bem particular de entender as coisas, no fundo ela era tão conformada com aquela vida quanto todos os outros.
- É uma boa ideia! Quem sabe você não encontra inspiração para um conto? Eu adoraria ler um conto novo seu.
- Verdade, vou logo falar com ela.
Entrou em casa correndo e sumiu de vista, ela estava só outra vez ouvindo o cricrilar dos grilos e o canto da cigarra. Lembravam Eliana zunindo em seu ouvido com mil novidades o dia todo, se não fosse pelo amor que sentia por ela e pelos pais já teria partido sem olhar para trás...

sábado, 14 de julho de 2012

Fragmento de um romance



Aline desceu do ônibus e viu Cadu indo para casa, não perdeu a oportunidade e correu em sua direção, quando chegou perto gritou: me dê uma carona! Depois pulou nas costas dele fazendo-o perder o equilíbrio. Se já não estivesse tão acostumado com esse hábito dela, teriam caído os dois no chão. Ambos riram e ele a levou para casa ouvindo a novidade que a estava deixando tão feliz.
- Consegui o emprego! Meu primeiro emprego!
- Sabia que você ia conseguir, temos que comemorar... Começa quando?
- Segunda feira. Não vejo a hora. Nem acredito que vou poder pagar minha faculdade, comprar minhas coisas sem depender de vovó...
Cadu a colocou no chão em frente a casa onde ela morava com a avó e os dois se sentaram no banco de cimento em baixo da amendoeira onde Dona Marina passava as tardes bordando. Ela explicou como havia sido a entrevista detalhe por detalhe, falou também das cargas horárias, salário e transporte. Ele não ficou satisfeito, achou que ela merecia mais, mas como ela estava contente preferiu não desapontá-la.
Aline e Cadu se conheciam desde pequenos, quando a mãe dele se mudara para a vizinhança. Ele tinha então quatro anos e ela três, mas já era sapeca e amigável. Ela o viu uma vez e já falou com ele como se fossem velhos amigos, tinha um sorriso faceiro e falava pelos cotovelos. Ao menos essa característica conservava até hoje, parecia que tinha engolido uma vitrola quebrada, pelo menos era o que dizia Dona Marina. Segundo a avó, ela tinha tanta pressa em falar que se esqueceu de andar, andou tarde, mas falou muito cedo, por pouco não nasceu tagarelando.
Mas o que Aline tinha de espevitada, Cadu tinha de calmo, sempre fora muito tranquilo e não dera trabalho nenhum à mãe para criá-lo, um era o oposto do outro.
- Me diga agora o que você vê?
- Vejo um futuro azul claro com nuvens de algodão branquinhas aonde iremos nos deitar e descansar depois de um dia muito corrido e muito sacrificado.
- Ah, deixa de ser pessimista, vai ser gratificante também.
- Você tem razão, é muito gratificante, dá uma sensação de poder, de liberdade que só sentindo para saber. É muito bom crescer, você vai ver.
Aline sorriu vislumbrando tudo que ele disse com uma sensação de que ia amar tudo aquilo. Ia ser muito bom crescer...

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Voltar?

Só eu sei a emoção que está me invadindo ao entrar neste cantinho cinco meses depois de tê-lo abandonado, não sabia que gostava tanto daqui até agora, quando tive coragem outra vez de encará-lo,  e deixar minhas fraquezas de lado. Fui capaz de rejeitá-lo a ponto de sequer querer olhar suas linhas, tentei esquecer como era sua cara e o que suas páginas guardavam, mas pior que isso, era reconhecer o quanto  me machucava estar longe daqui que por tanto tempo foi meu melhor lugar no mundo.
Como sempre não sabemos o quanto gostamos de algo até perder, e talvez eu o tenha perdido mesmo. Não sei se vou poder voltar, não por mim, mas por estar demorando tanto esse momento de, digamos, "autoconhecimento" passar. Tudo começou exatamente ai, na necessidade de me conhecer, de descobrir o que quero de verdade na vida, de saber se devo continuar sendo quem sou ou se devo mudar meu rumo, e nessa entrou também essa "crise" da escrita. Como vou escrever se nem nisso sou boa? Como continuar se nem ao menos sei sobre o que falar e como falar? Mas só agora vejo que não devo parar, aqui é meu lugar, meu refugio, era para onde eu corria quando precisava sentir que algum lugar no mundo me pertencia, e sem isso, o vazio é maior. Não sou escritora, não sou blogueira, sou apenas uma leitora que se mete no ramo da escrita só para não esquecer o caminho de casa.
Quero voltar a ativa, não vai ser agora, nem sei quando vai ser, só sei que uma hora essa crise vai passar, e as folhas vou voltar a riscar. Mesmo que sejam frases curtas vou postar por que não quero que esse lugar venha a definhar por minha covardia, esse medo tenho que superar.
Por fim, minhas desculpas a quem me segue, visita e acompanha, pelo silêncio tão prolongado, pelo descaso e pelo medo de encarar tudo isso de frente prejudicando mesmo inconscientemente, quem me valorizou por tanto tempo.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Shangri-la


Xandhi terminou a ordenha e alisou o pêlo emaranhado da iaque, depois a liberou para pastar pela pradaria. Antes de levar o leite para dentro de casa, recolheu todo o estrume do estábulo e colocou dentro da estufa para queimar e aquecer a cabana onde moravam.
Com o leite fariam manteiga, queijo e xarope, além de beberem quente para aquecer o corpo no frio. Ela olhou o rebanho pastando ao longe feliz em saber que os animais os respeitavam e partilhavam a vida segura e tranquila de Shangri-la.
Ainda lembrava como se fosse ontem o dia que chegara ali com a avó e o irmão fugindo do horror de ver sua aldeia sendo saqueada por três Ietis das montanhas. O pai ordenara que ela salvasse a mãe, a avó e o irmão enquanto ele se juntaria aos homens da aldeia para a defender com a própria vida se fosse preciso. Mas a mãe se recusara a partir e deixar o marido sozinho sucumbindo junto com toda a aldeia. Para ela não havia escolha a não ser atender ao pedido do pai, os três partiram levando a dor e o medo como companheiros. Erraram por dias a fio na neve congelante sem rumo. Quando não parecia mais haver esperança de salvação, a aldeia sagrada apareceu no horizonte como um oásis no meio do deserto. O paraíso que tantos buscaram sem sucesso e de onde muitos fugiram por não estar preparado para alcançar a paz de espírito quase alucinante. O paraíso que surgira do desespero e da incerteza, do medo e da dor.
Ela agora sabia que Shangri-la era sagrada porque abria seus braços maternos para os que mais necessitavam e os que menos ambicionavam, fossem humanos ou não.
Inspirou enchendo os pulmões de ar gelado e expirou soltando fumaça pelo nariz, depois colocou a manta feita de pêlo de iaque em cima dos ombros, pegou os baldes de leite e foi até a cozinha. O ar quente da habitação a envolveu lembrando o colo aquecido da mãe quando era pequena. Enquanto aquecia um pouco de leite ouvia a voz grave da avó contando histórias para Jamhàal sentada na sala forrada com a lã da última tosa dos iaques da aldeia.
Quando o leite ferveu, levou três xícaras e se juntou aos dois agradecendo mentalmente pela oportunidade de ter sido escolhida para viver em Shangri-la.  

domingo, 8 de janeiro de 2012

Sozinha


Hellen sentou na cadeira próxima a janela e começou a folhear um livro que sequer conferira o titulo, sabia que não o leria, talvez nunca mais o fizesse. Ler agora não fazia mais sentido sem sua irmã por perto. Com quem discutiria sobre o quão bom era, ou sobre as falhas deixadas pelo autor? Rosana a deixara sem se importar em como ela ficaria sem sua companhia. A deixara entregue aos leões, com uma dúzia de sentimentos negativos inundando seu ser e não a perdoaria nunca por isso. Agora só sentia ódio e uma vontade louca de ver a dor estampada no rosto dos outros, era injusto que só ela sofresse enquanto o mundo ria indiferente ao seu sofrimento.
E o que mais doía, eram as lembranças. Uma música cantada em dueto arrancando risos por causa do inglês imperfeito ou da voz desafinada, uma cena duramente criticada e analisada, os passeios por ruas desconhecidas com a desculpa de um compromisso urgente só para fugir de casa por alguns minutos, os sonhos impossíveis sussurrados durante a madrugada...
Acima de tudo a certeza de nunca estar sozinha apesar de tudo. Viveriam para sempre juntas, mas Rosana se fora e agora teria de seguir em frente. Sempre em frente...

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Mundo de Tinta


A primeira vista o desconhecido
Tudo tão novo e sem sentido...
Como um cavaleiro errante
Vagando sem destino
Colecionando lembranças.
Mas o mundo lhe sorri
Tudo soa convidativo
Não precisa mais fugir,
Faz desse pedaço sua casa
E se por um instante
Ou por tantos outros
A emoção lhe invade
Não tema, faz parte.
Afinal quem disse que era fácil?
Esse não era o primeiro
Certamente não será o último
Colhe então os frutos doces
Sem temer a flor amarga.
E no fim dessa longa marcha
Quando tudo ficar gravado na memória,
E a saudade no coração fizer morada.
Abre de novo aquele mundo
E viva outra vez essa jornada.