sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Zoltan, um cão adorável

              ZOLTAN, O CÃO VAMPIRO DE DRÁCULA


Há muitos anos atrás era de costume recebermos a volta dos pais para casa com histórias e novidades, certa vez, nos chegou em um início de noite com muito folguedo infantil um novo habitante. A mãe com a bolsa de bebê azul da caçula nos braços entrou em casa fazendo segredo.
- Quem adivinhar o que trago aqui, vai ganhar um pirulito! Só não pode opinar caçula por já saber o que é. Fique de bico calado!
Todos os outros pequenos se manifestaram ávidos por diversão, olhavam os contornos, olhava-se as brechas e os lances arrancavam gargalhadas gerais, um dizia que era um urso porque tinha visto uma patinha, a outra dizia que era uma bruxa porque tinha medo de bruxas, outro dizia que era um bebê, outro passando perto disse que era um gato para ficar no lugar de Tom que morreu queimado. A surpresa cansada de esperar furou o bloqueio e colocou o focinho para fora, ágil como um gato a mãe colocou de volta, passaria despercebido por todos se a mais esperta não visse e delatasse: É um cachorro! E é amarelo cor de queimado! Ouviu-se vivas e aplausos, a menina mesmo com ajuda havia acertado. O cãozinho passou de mão em mão, era lindo e arredondado, parecia uma bolinha e estava agoniado, queria descer, sentir o chão nos pés, andara duas horas no escuro para não ser despejado, animal não pode andar em ônibus, desce ele e o dono, não importa se ta tudo pago. Outra onda de gargalhadas, o pobrezinho cambaleava, estava tonto e confuso, não conseguiu andar em linha reta. Foi bem vindo na família, tinha braço à disposição, precisava de um nome, houve outra votação, para uma devia se chamar urso, porque não era um brinquedo, mas era tão fofo quanto, para a outra devia se chamar bruxa, mas era menino e não menina, o nome não servia. O pai decidiu que se chamaria Zoltan, porque era ruivo como o cão vampiro de Drácula, apesar de o filhotinho ser belo e gracioso diferente do personagem do filme de terror de Albert Band, o nome agradou.
Como se o batismo fosse o elo que ligaria o cão ao dono, os dois, pai e filho postiço ficaram próximos, cada vez mais amigos. O cãozinho cresceu, ficou grande como um labrador, o pelo brilhante reluzia ao sol, era quase todo ruivo, exceto por um sinal branco na parte posterior do pescoço, ficava feliz quando corria, mas encontrar o pai depois de dias viajando, o deixava radiante. Não era o único cão da família e dos parentes, mas como ele não havia igual. O pai tinha por habito caçar e pescar, colocava a roupa de caça e pesca, o chapéu, o alforje e a espingarda ou a vara de pescar e saia logo cedo, era mais por diversão ou terapia, pois nunca matara um bicho, voltava com as mãos mais vazias do que quando partia, afinal a marmita voltava limpa. Talvez fosse só para ter o gosto de entrar na mata, ter contato com a natureza, matar um pouco a saudade da infância e se sentir em casa. Com a chegada de Zoltan, esses momentos deixaram de ser solitários, um fazia companhia ao outro e ambos adoravam. No fim da tarde Zoltan surgia no quintal esbaforido da corrida, ao chegar nas redondezas, ele deixava o pai para trás e como se brincasse de aposta, chegava primeiro em casa anunciando sua chegada dez, quinze minutos antes. A mãe respirava aliviada, Zoltan chegou, o pai chegaria logo também, são e salvo de ataque de onça, de porco do mato, de boi bravo e qualquer outro perigo que espreitasse. Depois que chegavam, o pai sentava sereno, acendia um cigarro e Zoltan deitava aos seus pés recebendo um afago entre uma baforada e outra, depois de servido o vício, aos poucos os familiares se reuniam e sob a brisa fresca da noite, ouviam histórias contadas pelo pai sobre o passado e sobre o dia, as peripécias de Zoltan, um bicho novo que encontraram, o cão curioso sempre aprontava uma, não podia ver um rio ou córrego que pulava dentro para tomar banho, então pescar com ele do lado era um verdadeiro fracasso, mas era divertido e não era solitário. Na mata corria atrás de pássaros e bichos de menor porte, se via manada de boi bravo, corria atrás dos calcanhares latindo e rosnando, era destemido, mas o pai sabendo do risco que corriam, também se arriscava para salvá-lo de ser pisoteado. O pai tinha paixão por canto de pássaros e isso ele sabia, respeitava o momento, ficava em silêncio apreciando o fenômeno com paixão igual. Enquanto o pai contava as traquinices do dia, Zoltan olhava desconfiado, entendia que era o assunto e que algo tinha feito de travesso, apenas abanava o rabo e olhava de soslaio atento a qualquer sinal de irritação, mas nunca era castigado, tinha muitas regalias.
Viveu assim por mais de dois anos, nunca ficara doente, nunca fora atropelado ou sofrera qualquer outro acidente, era belo e inteligente. Um dia apareceram na cidade homens vestido em fardas cor de terra, eram de um órgão competente, cuidavam da saúde de bichos e de gente. Furavam, tiravam sangue, faziam exames e quando ninguém mais se lembrava, lá vinham eles, com resultados e sentenças.
Não tinham nomes próprios, eram apenas Sucam’s (Superintendência de Campanhas de Saúde Pública) e nunca foram tão cruéis, quanto quando trouxeram o carrasco e a sentença de Zoltan, que junto com tantos outros foi examinado e teve o sangue colhido, eles não eram médicos, mas tinham um poder de decidir qual o destino dos doentes. Sumiram e o coração aliviado, tomou conta de toda gente. Dias depois, sem que nem pra que, chegaram na porta com um carro e uns documentos, a mãe tinha de assinar, era ordem do governo, os animais contaminados por leishmaniose, teriam de ser sacrificados. Como impedir tal absurdo, ninguém sabia, ninguém podia, talvez o pai pudesse, mas ele não estava em casa. A mãe alegou que era visível a saúde do animal, o pelo lustroso e sedoso, diferente da cadela do irmão que estava doente, caindo os pedaços de couro nas costas e nas orelhas, mas eles foram contundentes, a cadela era saudável, o cão é que estava doente. Mesmo com os apelos e os argumentos, acorrentaram-no e colocaram em cima da caçamba, nem precisava das correntes, era bom e inocente, não faria mal a ninguém nem que quisesse. O homem sempre a dizer: Minha senhora é para seu bem, antes ele que suas crianças, além do mais nem vai sentir, vai fechar os olhos e dormir simples assim.
O carro partiu, Zoltan alegre olhando todos, o rabo balançando, estava passeando sem o pai pela primeira vez. A mãe chorou inconsolável: O que o pai vai dizer, quando não encontrar o seu bichinho que partiu tão feliz, nem desconfiava de seu destino. O filho inconformado pensava em uma solução, o amigo comovido fez um convite: Vamos atrás deles e tomamos o cão a força, eles não podem matar um bicho que nem lhes pertence, não passam de uns cruéis sem coração.
A ideia era boa, a esperança renasceu, foram o filho e mais dois, com certeza trariam o cão. Pouco tempo depois voltaram, os homens eram irredutíveis, não havia acordo, deviam esquecer o amigo, seria melhor assim.
Como esquecer? Como fingir que estava tudo bem? Como contar ao pai? Como seguir em frente?
Quando o pai chegou de viagem, soube de tudo, nos mínimos detalhes, Zoltan se fora para sempre por um ato de crueldade, a mãe tinha certeza que os resultados estavam trocados, mas eles tinham o poder, não aceitaram argumento. O pai acendeu um cigarro, sentou no escuro do quintal e de cabeça baixa por lá ficou por muito tempo, ninguém ousou interromper, era seu luto, estava sofrendo.

sábado, 16 de março de 2013

O inverno das rosas um Ebook de Laisa Couto





A editora Draco publicou um conto em versão ebook da autora de Lagoena, Laisa Couto intitulado O Inverno das Rosas. 


O Conto é uma releitura sombria de uma conhecida história infantil. Da maldição ao sono, o inverno se concretiza. As rosas desabrocham. Uma princesa dorme no alto de uma torre esquecida, mas sua alma continua desperta, habitando os mundos dos sonhos, procurando aflita sua liberdade roubada."
Está disponível por R$2,99 na Amazon.




E na Kobo Books pelo mesmo valor, para conferir basta clicar no link: 



Pois é gente, vamos matar a curiosidade acessando!

Corre lá.

domingo, 3 de março de 2013

Algumas Considerações sobre Lagoena


Finalmente consegui tirar um tempo, ou melhor, me "roubar" um tempo, pois estou escrevendo esse post quando devia estar fazendo um trabalho acadêmico, mas a ocasião pede e estou em divida há meses, para deixar minhas impressões sobre a fantástica web série Lagoena da autora Laisa Couto.
Lagoena narra à história da pequena Reitha que vive em um sobrado com o avô materno escondida de todos os habitantes do reino do Vinagre que suspeitam da existência misteriosa da menina, mas não sabem ao certo o que pensar de tanto segredo e por essa razão existem muitas especulações, algumas até absurdas sobre a garotinha. Em meio a tudo isso a pequena leva sua vida entre a curiosidade normal da infância e a vontade de explorar o mundo que conhece apenas pelas frestas da janela de seu quarto. Por esses motivos também é que Reitha não perde a oportunidade de explorar toda e qualquer informação que faça algum sentido em sua cabeça. Então eis que juntando um fragmento aqui e acolá ela descobre que sua vida está cercada por um grande mistério que vai mudar totalmente o rumo de sua vida e de todos que a cercam.
Li esse livro três vezes e todas às vezes novas emoções me invadiam como se fosse a primeira vez que o fazia, talvez por isso tenha sido tão difícil fazer uma resenha dele, estou tentando há mais de um mês, pedi ajuda até aos profissionais que sabem todas regras para se fazer bem um texto, mas não consegui escrever nada que valesse a pena, então resolvi deixar a formalidade de lado e falar de maneira simples, mais honesta sobre essa obra maravilhosa que tive a oportunidade de ter em mãos.
Lagoena é narrado de uma maneira leve, mas muito minuciosa, o que nos permite conhecer o perfil de cada personagem e de cada ambiente sem se tornar enfadonho ou “pomposo” sabe. Depois que passa toda essa fase de apresentação, vem o melhor de tudo que é a aventura, cada capitulo uma nova surpresa nos aguarda, me senti adolescente outra vez vibrando com o novo livro de terror, de aventura ou de fantasia que estava lendo. A autora passeia por todos esses gêneros de forma brilhante. O enredo tinha tudo para ser chato e até enfadonho, confesso que demorei a ler até porque acreditava ser algo infantil, afinal os protagonistas são crianças, mas foi um grande engano. O livro consegue agradar a todas as idades, gostos e gêneros. Exemplo disso sou eu que virei uma grande fã da série e com certeza serei uma das primeiras a adquirir o exemplar quando for publicado. Vou confessar mais uma coisa, perdi as contas das vezes em que me peguei pensando no destino que os personagens tomariam e até tive sonhos com o mundo fantástico de Lagoena. Muitas vezes também quando acabei de ler o novo capitulo senti como se não tivesse saído da floresta encantada, a sensação que senti ao conhecê-la pela primeira vez ficou em mim por horas e horas e sempre que releio a sensação volta, talvez por isso eu tenha demorado a falar as minhas impressões do livro, porque tenho esse habito de só ter certeza de ter gostado de algo assim, através das sensações que ficam e permanecem, me recuso a dizer que amei um livro ou que ele é excelente se essa doce e agradável sensação não se fizer presente, pois livros são como tudo na vida, uns agradam no momento mas passam, outros (poucos na verdade) ficam guardados para sempre.
Sei que vou ser chamada de exagerada exatamente por ser tão extrema em tudo que faço, e sei que fui nesse post, mas não tenho vergonha de afirmar que Lagoena é um livro magnífico e valeu muito a pena ter lido.

Não vou citar aqui meus personagens favoritos porque a lista seria muito grande, mas se você leitor ficou curioso e quiser conhecer pessoalmente essa obra, ela está atualmente disponível no site Booksérie no endereço eletrônico ; http://bookserie.com.br/.
Segue Também o link da página de Lagoena:
http://bookserie.com.br/series/2/seasons/6/chapters/24/episode

Se quiserem conhecer a autora Laisa Couto, ela se encontra disponível no Blog Confissões Desajustadas, um canto lindo e além de tudo muito agradável que vale a pena ser conferido, possui poemas, textos e matérias de muita qualidade das quais já sou fã há alguns anos.

sábado, 3 de novembro de 2012

Lídia



Entrou no salão com passos vacilantes, não queria estar ali, não gostava dessas ocasiões deprimentes, mas sabia que era preciso seguir em frente, devia isso à prima, só não sabia como deveria proceder nessas ocasiões. Nunca precisara consolar ninguém, a única vez em que fora a um velório, era ela a ser consolada por todos e nunca mais se esquecera o quanto havia sido repulsivo.
Divisou a prima próxima ao ataúde amparada por alguns familiares e quis voltar antes que fosse notada pelos presentes, mas antes que pudesse se voltar, os olhos dela e os de Lídia se encontraram e havia tanto sentimento que se viu paralisada encarando-os, com um gesto de mão a outra a chamou para junto de si. Seguiu até ela com passos firmes e se viu arrebatada por um abraço sentido, cheio de gratidão, por mais que quisesse fugir, sentia que fizera bem em ter ido até lá. Lídia  a soltou e deitou a cabeça em seu ombro, segurava tão firme sua mão que a deixou assustada, sabia que tudo que ela queria era um porto seguro para atracar, mas tinha medo de não corresponder como devia as expectativas. Durante toda a cerimônia se viu arrastada pela prima para todos os lugares o que a deixava cada vez mais desconfortável. Mas como recusar apoio nesse momento? A dor dela era um pouco sua também, mas para a prima isso era tão novo e tão intenso que assustava, Lídia nunca havia perdido alguém que amava para a vida, muito menos para a morte, com certeza se perguntava se algum dia a dor diminuiria e ela poderia voltar a respirar com tranquilidade. O pior de tudo era continuar vivendo quando o que realmente se quer é fazer uma barganha a dona morte e trocar sua vida pela do outro que se foi. Todos chegam para te dizer que a vida continua e que é preciso seguir em frente, mas, como falar é mais fácil que fazer, todo mundo pode dizer o que quiser. Com o passar do tempo Lídia se reencontraria e só ai seguiria em frente sem precisar que ninguém lhe ordenasse voltar à vida. Agora sabia que Lídia encontrara nela a semelhante, que compreendia tudo, que não criticaria seus atos ou ordenaria alguma coisa, somente seguraria sua mão e guardaria esse mistério como um cúmplice de um crime.

domingo, 12 de agosto de 2012

Branca como a neve




Era uma vez um rei que vivia muito feliz e uma rainha que só não era tão feliz porque sentia de vez em quando uma tristeza profunda por ainda não ter tido um filho para alegrar ainda mais os seus dias. Tinha noites em que olhava através da janela de ébano a neve branca cair lá fora e sentia muita solidão, então ela pensava em o quão feliz seria se tivesse a graça de ter uma filha bela como à neve, com cabelos negros como o ébano e lábios vermelhos e veludosos como a pétala de uma rosa. Viveu nesse sofrimento por quinze anos e eis que quando menos esperou, concebeu seu fruto tão desejado.
Deu a luz a uma menina branca como a neve de lábios rosados e cabelos negros a quem batizou de Branca de Neve, entretanto desfrutou dessa benção por apenas um dia. A rainha pereceu para a tristeza do rei que ficara tão órfão quanto à filha. O luto durou sete anos, e sete anos Branca viveu sem uma mãe ou um pai para guiar seus atos, cresceu livre como um pássaro e selvagem como um lobo, o que aprendeu foi graças aos criados a quem atazanava dia após dia, um a um. Foi criada como filha pela cozinheira e por seu marido o lenhador real com quem passava os dias a cortar lenha na floresta.
Era curiosa e rebelde, o que cedo ou tarde chamaria a atenção do pai que diante de sua dor vivera cego a tudo mais que se passava. Foram os convivas do castelo, nobres e encostados que lhe chamaram a atenção para isso, a princesa precisava ser corrigida enquanto era cedo, ou o reino seria perdido para sempre nas mãos da criatura. Diante da pressão para que se casasse e desse uma mãe decente a filha, o rei desposou uma prima distante confiando no fato de que correriam menos riscos se ficasse tudo em família.
O rei morreu uma semana depois, segundo o primeiro ministro, de tanta tristeza. Branca sequer chorou sua morte, para ela, o rei não passava de um estranho, assim como a madrasta. Pouco depois do enterro se enfiou nas dependências dos empregados para ser esquecida por longos dez anos. E teria continuado no esquecimento se não fosse à cobiça da nobreza pela sucessão, já que Branca estava em idade de se casar, e o reino precisava de um sucessor legitimo. Quando questionada, a rainha não teve outra saída a não ser mandar buscar a herdeira na floresta onde passava os dias com o lenhador. A esperança dela era que a selvageria da princesa botasse para correr todos os pretendentes, mas para sua surpresa, Branca tinha uma beleza invejável mesmo disfarçada de plebéia. Sentiu tanta inveja daquela jovem sortuda que não se conformou enquanto não concebeu um plano para acabar com a concorrência.
Mandou chamar o caçador real e lhe ordenou que matasse a princesa no dia seguinte quando ela estivesse distraída com o lenhador. Apesar de gostar muito da jovem, não teve escolha, era a sua vida ou a dela. Muniu-se de coragem e foi à caça no dia seguinte, não demorou a encontrar seu rastro, estava colhendo lenha sozinha, a ocasião não poderia ser melhor, empunhou o arco, armou a flecha e mirou bem no coração, mas enquanto esperava uma boa ocasião para desferir a flecha, suas mãos fraquejaram, a princesa era bela demais para morrer, doía tanto desperdício. Hesitou uma, duas vezes e acabou desistindo, se dispôs a voltar e encarar as consequências, mas antes que pudesse partir, Branca o viu e o atacou com um tronco de madeira levando-o ao desmaio. Ao acordar, se viu amarrado em uma árvore sob a mira de sua própria flecha, o sangue que escorrera do ferimento estava seco em seu rosto e a cabeça doía muito. Piscou varias vezes até conseguir divisar o contorno de seu algoz e a surpresa ao reconhecê-la foi tamanha que o levou a gargalhada.
- Se não calar a boca, te espeto bem no coração!
O caçador parou de rir imediatamente e a encarou, era linda, mas era o diabo de bruta, parecia mais filha do lenhador do que do rei. Ela o fez confessar tudo que a rainha planejara contra ela e depois o libertou, mas com pena de saber que seria condenado a morte por ter falhado, matou um porco do mato e lhe entregou o coração para que provasse a rainha que cumprira a missão. Só depois de libertá-lo e deixá-lo partir é que percebeu que estava encrencada, se fora dada como morta, não mais poderia aparecer no castelo, então precisava encontrar outro lugar para morar. Caminhou sem rumo por dias e noites até que se viu as margens da floresta proibida, se entrasse nela, poderia esperar de tudo, até sua sentença de morte cumprida. Contudo, era tarde demais para voltar atrás, então, tremendo de medo, entrou na escuridão em plena luz do dia, andou as cegas, aflita por não poder divisar nada em seu caminho, mas por uma espécie de milagre, sua audição estava mais aguçada, ouvia até o rastejar das minhocas na terra fofa o que ainda a manteve equilibrada. Após mais de três horas de caminhada, ouviu um uivo que arrepiou seu corpo dos pés a cabeça, olhou em volta e não viu nada, apenas a escuridão. Continuou trêmula até ouvir outra vez o uivo ainda mais perto, aumentou os passos e apurou os ouvidos, sentiu que algo a seguiu, podia ouvir a respiração da criatura logo atrás de si, os passos estavam cada vez mais próximos, sem pensar duas vezes, correu o mais rápido que pode sendo açoitada pelas árvores e tropeçando nos galhos úmidos do chão, apesar disso o bicho saltou por cima dela e parou em sua frente com olhos vermelhos como fogo encarando-a e mostrando os dentes ferozes, era um enorme lobo e parecia faminto. Encolheu-se fechando os olhos, com o coração saltando pela garganta e esperou o bote que não veio, abriu os olhos e viu o animal recuar amedrontado, atrás de si havia outra criatura que não lembrava nada que tivesse visto ou ouvido antes, lembrava os homens da aldeia, mas tinha presas e olhos vermelhos como o do lobo. O homem encarava o lobo que recuava devagar, Branca não quis esperar para ver no que ia dar aquele encontro e correu como louca o mais rápido que pode em direção oposta a deles. Porém, não conseguiu ir muito longe, trombou de frente com uma rocha que não viu por causa do escuro e caiu desacordada.

sábado, 4 de agosto de 2012

O Retorno ao Campo (Fragmento do capitulo do romance "Ulisses")


... Luiza estava ajeitando os laços da roupa em frente ao espelho quando Netinho entrou no quarto e começou a puxá-la apressado e agitado demais para dizer qualquer coisa, resmungando apenas um “vem ver” quando era interrogado, guiou-a para a cozinha do casarão dos bisavós e mostrou um cesto com filhotes de cães sem raça definida, graciosos e peludos. Ele estava encantado com os filhotinhos, nunca vira um antes, os olhos brilhavam de expectativa.
Ela lembrou-se do dia em que Ulisses e Penélope chegaram da mesma forma naquele mesmo ambiente, era como se a historia estivesse se repetindo. Ela e Rosa quiseram tanto os felinos, a ponto de implorar para ficar com eles, no fim acabaram conseguindo, mas com o filho seria diferente, por mais que ele chorasse e implorasse, jamais poderia ficar com o cãozinho. Tivera que abrir mão do gato pelo bem dele, não colocaria outro em seu lugar.
Netinho chorou e implorou, mas a mãe estava irredutível. Ele não entendia que o pêlo do animal representava um perigo para sua saúde, e por mais que a mãe argumentasse, ele tinha um contra argumento convincente. Os pais e os avós também argumentaram a favor do pequeno, mas ela foi obrigada a desobedecê-los dessa vez, há exatamente três anos foi induzida a doar Ulisses pelo bem dele e era pelo bem dele que estava recusando o filhote agora. Netinho tinha saúde frágil e exigia muitos cuidados, viajara pela primeira vez para o campo com milhares de recomendações do médico e cada soluço deixava-os alerta.
O pequeno foi às lágrimas de fato diante da negativa, aconchegou-se no corpo da mãe e soluçou aos prantos deixando Luiza constrangida. “Porque você puxou ao seu pai, tão suscetível meu bem? Antes tivesse saído a mim, forte e com brios.” Ele não entendeu as palavras da mãe e apenas soluçou: “Eu o quero mamãe, queria meu amiguinho pra mim...
Diante do sofrimento real do pequeno, Aurélia pediu à filha que permitisse ao menino ficar como dono do pequeno mesmo não podendo levá-lo com ele aonde fosse, o animal seria criado na casa grande e ele só o veria nas férias quando fossem lá. Netinho aprovou a ideia, só queria ser o dono e poder dizer que tinha um amiguinho só seu. Luiza finalmente cedeu e permitiu que o filho ficasse com o bichinho levando-o do pranto ao riso. Ele era muito belo rindo, tinha as feições de Rosa, os cabelos negros e escorridos como os dela, o sorriso meigo e os olhos amendoados, talvez esse fosse o maior motivo de amá-lo tanto. Otávio só era lembrado no temperamento e na fragilidade, não que ela não amasse o marido, só não tolerava a falta de atitude dele, se fosse mais dono dos próprios atos talvez tivesse mais valor diante de seus olhos...

domingo, 29 de julho de 2012

Gárgula




De um salto parou em cima do antigo prédio da alfândega em ruínas e ficou observando a noite silenciosa. A lua cheia sobre a Barra deitava um filete de luz prata sobre o rio gerando uma belíssima paisagem, as águas moviam-se calmamente beijando o alicerce da mureta de proteção de vez em quando. Infelizmente só era possível respirar ar puro e admirar a paisagem na escuridão da noite, sua aparência disforme provocaria pânico nos seres viventes. Quando seus chifres e suas asas foram esculpidos em seu corpo no alto da torre da igreja acreditava-se que traria sorte a quem frequentasse a residência divina. Agora se pensava outra coisa, para todos era apenas um demônio e trazia má sorte. Durante o dia diversas pessoas olhavam para o alto para admirar as esculturas históricas e benziam-se ao deparar-se com sua figura esquálida desonrando as imagens santas ao seu lado. Imagine o que aconteceria se soubessem que ele ganhava vida a noite e se aventurava pelas ruínas do terminal pesqueiro, dos casarões e de tantos outros estabelecimentos esquecidos em meio as lojas e prédios modernos do atual centro da cidade.
Conhecia aquele lugar como a palma da mão, vivia ali desde que o lugar não passava de uma vilinha esquecida por todos até o inicio do século dezenove quando começaram a surgir casa e prédios em uma velocidade vertiginosa; até quando não havia mais espaço para crescer e a cidade se expandiu para outras áreas. A ele restou habitar as construções inacabadas furtivamente esperando o dia em que andaria tranquilamente outra vez, mas até agora esse dia não chegou. Sentou-se no parapeito e ficou observando alguns mendigos dormirem no passeio lá embaixo, outros cheirarem substancias desconhecidas em garrafas ou latas falando palavras desconexas, enquanto pensava em como seria sua vida se existissem outros de sua espécie para poder dividir seus dias. Os seres de baixo eram tantos que mais pareciam uma praga, enquanto que ele estava só e cansado. Poderia descer um pouco e se divertir apavorando os companheiros de noite, mas não sentia vontade, preferiu ficar até que a fome o fizesse buscar alimento nas ruínas do terminal pesqueiro.
Havia noites em que voava pelo céu iluminado com luzes artificiais buscando esperançoso um ser se não igual, que ao menos voasse como ele e que lhe contasse o que vira e vivera onde passara, mas nunca encontrou ninguém, apenas corujas urbanas desprovidas da fala. Estava cansado de buscar, sentia apenas vontade de descansar, mas seu corpo tinha necessidade de se exercitar, o que o obrigava a voar ou saltar de vez em quando para suportar as dores físicas.
Levantou, ergueu as asas atrofiadas até o alto, ensaiou uns movimentos que o ergueram alguns centímetros do telhado, mas depois voltou a aterrissar e encolheu-as, preferiu saltar até o outro lado. Caiu com estrondo no telhado do terminal para assustar os humanos adormecidos lá em baixo, ouviu um reboliço no interior do prédio e depois o silêncio outra vez, estavam todos cansados demais para se importar com os ruídos do que julgavam serem gatos de rua. 
Desceu até lá e escolheu sua vitima com cuidado, era muito exigente em questão de comida, rapidamente agarrou a vitima e cravou as presas no pescoço fazendo o sangue jorrar para dentro de sua garganta até ficar satisfeito. Depois jogou o corpo inerte no chão e voou de volta para a torre da igreja, agachou-se, encolheu a asas e olhou para o horizonte aguardando o nascer do sol.

sábado, 21 de julho de 2012

Fragmento... Sonhar?



... Elisa estava distraída olhando as estrelas no terreiro e sentindo o vento fresco balançar sua roupa quando Eliana chegou de mansinho olhando em volta atenta a todos os ruídos. Morria de medo da noite e das assombrações que o escuro guardava, mas se a irmã estava lá, estava segura. Elisa parecia não ter medo de nada, passava muita segurança em tudo, mas o que Eliana não sabia era que a irmã também sentia medo de muitas coisas. Só que seus medos eram outros.
Elisa olhou a porteira fechada e mais além a estrada deserta sonhando com o rumo que ela ia lhe dar na vida quando a percorresse. Eliana desconfiou que a irmã estivesse vendo alguma coisa sobrenatural e para não sucumbir ao impulso de sair correndo resolveu perguntar com voz trêmula de medo.
- Você está vendo alguma coisa Elisa, vem alguém lá?
- Não Liana, só estava olhando.
- Você quer sair hoje e papai não deixou?
- Não é isso. Você não entenderia...
- Você não gosta daqui né?
- Claro que eu gosto... Eu só queria conhecer qualquer lugar que não tivesse gado e capim para todo lado.
- Isso eu também queria, vamos pedir a mamãe para nos levar para a cidade amanhã?
Elisa riu da irmã que tinha uma maneira bem particular de entender as coisas, no fundo ela era tão conformada com aquela vida quanto todos os outros.
- É uma boa ideia! Quem sabe você não encontra inspiração para um conto? Eu adoraria ler um conto novo seu.
- Verdade, vou logo falar com ela.
Entrou em casa correndo e sumiu de vista, ela estava só outra vez ouvindo o cricrilar dos grilos e o canto da cigarra. Lembravam Eliana zunindo em seu ouvido com mil novidades o dia todo, se não fosse pelo amor que sentia por ela e pelos pais já teria partido sem olhar para trás...