domingo, 1 de fevereiro de 2015

Branca como a neve - Continuação

... A rainha recebeu a noticia em regozijo, mandou cozinhar o coração para comer no jantar e depois ordenou que prendessem o caçador por ter matado acidentalmente a filha do rei. O reino chorou a morte da jovem, mas logo todos se conformaram, daria na mesma ela viva ou morta.
Branca acordou dentro de uma espécie de caverna mobiliada como um quarto e olhou em volta tentando entender o que estava acontecendo, a cabeça doía e sua visão estava embaçada. Passou a mão pela cabeça e sentiu uma elevação do tamanho de um limão na têmpora direita, a dor só aumentou com o toque. Uma criança enrugada a observava da porta entreaberta o que a deixou assustada, encobriu-se nos lençóis e esperou o que quer que fosse. A criança sumiu e depois voltou com vários outros do mesmo jeito que ele. Uma voz grave a chamou e ela reapareceu por detrás das cobertas curiosa por saber quem a chamava. Para sua surpresa, havia vários homens pequeninos como criança olhando-a e interrogando-a como gente grande. Depois de responder a todas elas, sabatinou-os com mil questionamentos sobre quem eram, o que faziam e o que queriam com ela.
Foi com alivio que percebeu que os homenzinhos, ou melhor, anõezinhos eram amigos e estavam dispostos a ajudá-la, quando recebeu o convite para ficar morando com eles na caverna, não pensou duas vezes, aceitou de imediato. Os anões eram mineradores e trabalhavam nos subterrâneos da floresta negra onde se podia extrair o melhor minério que existia, então aproveitaram e fizeram as fendas das rochas de casa como ela mesma pode perceber, ou melhor, aonde ela mesma veio a se bater. Quando a dor de cabeça aliviou, levantou-se da cama e se pôs a faxina as casas de aranha e o pó dos móveis. Os anões não eram nada higiênicos e ela não gostava de sujeira. Depois da faxina, pegou uma tina e encheu de água até em cima, colocou alfazema para perfumar a água e quem fosse usá-la.
Quando eles chegaram à noite, nem tiveram tempo de se admirar com a arrumação que ela fizera, pois Branca os obrigou a entrar na tina de água um por um para que tirassem a sujeira do corpo e se botasse mais apresentáveis, Já que moraria com eles, os colocaria na linha. Os anões haviam feito um belo trabalho com a caverna, lembrava em tudo uma casa de verdade, e depois de limpa, ficou até agradável de morar, o único defeito era gostarem tanto de animais domésticos, a caverna vivia cheia de galinhas e patos entrando e saindo, mas ela os expulsava a vassouradas toda vez que ousavam, as benditas criaturas faziam uma tremenda bagunça. O anão mais novo cansado de ver a briga diária dela com seus bichinhos resolveram construir uma espécie de curralzinho só para eles, prendia de dia e soltava de noite. Fora isso, viviam em perfeita harmonia, não havia um só dia em que não trouxessem uma lembrança e ela já acordava sabendo que encontraria um presente a sua espera na entrada da caverna, até fazenda conseguiam. Como? Ela não sabia, mas eram belíssimas e serviam de distração para sua solidão diária, cosia e bordava vestidos para ela e batas para eles com prazer. Um mês depois já estava cansada de ficar trancada o dia todo, estava acostumada a caçar, andar pela floresta em busca de lenha e frutas comestíveis, enquanto ali quando terminavam os afazeres de casa ficava sem ter o que fazer pelo resto do dia. Sentia vontade de ir até a cidade saber as novidades, mas não fazia ideia para que lado ficava, tinha medo de se perder pela floresta negra e reencontrar os demônios que a levaram até ali. Só em lembrar sentia arrepios. Por outro lado, ficar presa naquela caverna estava matando-a. Os amigos usavam argumentos assustadores para impedi-la de ir embora, haviam criaturas amaldiçoadas na floresta que poderiam acabar com sua vida em um piscar de olhos. Contudo, não estava ali como prisioneira, eles não tinham o direito de proibi-la de fazer nada. Decidiu arriscar, pegou a capa de chuva preta feita com couro impermeável que eles te deram de presente a três dias atrás e abriu a porta esperando ver a luz do dia, para sua tristeza a escuridão lá fora era pior que dentro da caverna, precisava que seus olhos se acostumassem com a falta de luz para poder sair, deveria haver alguma trilha por onde os amigos andavam todos os dias, só precisaria seguir por ela para ver onde chegaria. Enquanto andava atenta em meio aos galhos e folhas, mantinha sua audição aguçada na esperança de ouvir o perigo antes que alguma criatura pudesse ataca-la. Levava consigo uma faca afiada, mas desejava ter trazido uma picareta afiada e pesada capaz de abater uma fera com um só golpe. Não adiantava lastimar, era uma caçadora, não tinha nada que temer, papai Belsey havia ensinado como se virar na floresta, em um mês não poderia ter esquecido tudo que sabia. Ao lembrar do pai lenhador sentia uma saudade sem fim, imaginou o quanto ele e mamãe Merge deveriam ter sofrido com a notícia de sua morte, eram velhos já, não suportariam mais desgostos como esse. Se pudesse vê-los mesmo de longe, mesmo que não pudesse consolá-los e nem abraça-los, só ver de longe mesmo.
Depois de horas andando percebeu que não iria chegar à cidade, estava perdida em meio a mata cerrada, o melhor a fazer era voltar para casa por onde viera. Voltou com o coração aliviado ao perceber que reconhecia a trilha por onde viera, apesar de cansada, não tinha medo de ficar perdida ali para sempre. Depois de alguns minutos, pensou ter ouvido um movimento leve nas folhagens, olhou em volta e só viu o escuro que seus olhos já estavam a habituados a divisar. Sentiu que tinha alguém observando-a, más, por mais que procurasse em volta, não conseguia ver ou ouvir nada além de sua própria respiração. Sentiu um arrepio percorrer sua espinha, tentou seguir em frente sem entrar em pânico, logo estaria em casa outra vez rindo sua covardia. Andou por mais uma hora sem que a sensação de que estava sendo observada a deixasse, se havia aguem observando-a, certamente a estava seguindo. Poderia colocar sua casa em risco, seus amigos poderiam ser atacados e tudo por sua causa, decidiu não dar mais um passo até descobrir quem era e o que queria com ela. Falou baixinho com medo de quebrar a quietude ou atrair feras famintas.
- Quem é você que me segue? O que quer de mim?
O som saiu quase inaudível, mas ela achou que havia falado alto demais e aguardou amedrontada o ataque da criatura desconhecida, no entanto, nada se moveu. Quem ou o que a estivesse seguindo, deveria ser bastante ameaçador para permitir que passeasse pela floresta como ela estava fazendo sem ser atacada ao primeiro passo após a porta. Deveria ter estranhado aquele silêncio desde o início, mas fora inconsequente a ponto de achar que o que tivera, era sorte. Olhou em volta sem saber o que fazer, se estivesse atraindo o inimigo para a caverna, seria uma tragédia. Tentou recobrar a tranquilidade e pensar com clareza, talvez fosse um amigo que a seguia e não um inimigo. Pensar nisso fez o medo sumir, seu coração desacelerar e as pernas pararem de tremer, se estava sendo protegida não tinha porque se apavorar, chegaria em casa em paz. Continuou a caminhar por mais uma hora até que avistou o curralzinho que ficavam os patos e correu para casa com o coração saltando no peito, não acreditava que havia voltado ilesa. Ao se aproximar da porta, olhou pra trás e gelou ao ver em meio as árvores no galho mais alto, dois olhos vermelhos sangrentos encarando-a.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Infância

Pedro se aproximou da goiabeira e gritou pela irmã, ela estava no galho mais alto que pudera subir, estava fugindo do pai.
- Vamos Lia, o pai ta chamando. Se você não descer, vou mandar ele vir aqui te buscar.
- Pois que mande, eu não vou descer. - Falou em meio as lágrimas, ha pouco subira na árvore em prantos.
- Você só ta piorando as coisas, o pai vai zangar com você. É melhor obedecer Lia.
- Não! Me deixe em paz! Vá embora daqui. Quero ficar sozinha.
- Ta bom, mas uma hora você vai ter que descer, não pode ficar aí em cima pra sempre.
- Vou sim, vá embora.
- Deixe só começar a escurecer, pra ver quem tem razão.
  Pedro se foi e ela ficou sozinha, recomeçou a chorar. O joelho que havia machucado ardia, o sangue havia escorrido por toda a perna deixando a visão ainda mais dramática. Pouco depois Inácio surgiu em baixo da árvore sério.
- Desce daí Lia!
- Não pai, por favor, me deixe ficar aqui? Não me leve pra minha mãe?
- Ela não vai te machucar filha, vai só lavar seu ferimento, por remédio e fazer um curativo pra não infeccionar.
- Mas vai doer. Não basta o que já to sofrendo com esse machucado?
- Deixe pelo menos eu ver como é que ta isso?
- Ta bem, mas não toca. - Desceu e se sentou no galho mais baixo, próxima ao pai, atenta aos movimentos dele. Não queria cair em armadilhas.
- Vixe! Ta bem feio hein? - Falou examinando a escoriação no joelho direito da menina, havia esfolado toda a região. Certamente inflamaria e a impediria de andar ou movimentar a perna por alguns dias.
- Ta vendo! Vai doer muito.
- Mas se não cuidar vai ser pior. É melhor a gente lavar isso, tirar essa areia, botar uma pomadinha e cobrir pra não infeccionar. Como foi isso?
- Foi de bicicleta, desci a ladeira sem freio, bati em uma pedra e caí.
- Meu Deus, o que vocês não fizerem, outro não faz. Vem, vamos entrar pra ver isso. E tenha como exemplo pra próxima.
- Não pai, mamãe vai machucar ainda mais. - Começou a chorar novamente deixando o pai comovido.
- Vem, eu não vou deixar sua mãe lhe machucar, se você quiser eu mesmo lavo, coloco remédio, faço um curativo com muito cuidado.
- Você faria isso pai?
- Claro querida, vem, pule no meu braço.
- Vou sujar sua roupa, minha perna ta toda ensanguentada.
- Não tem problema, eu lavo depois. Venha!
Estendeu os braços e a segurou, era tão pequena pra umas coisas, mas pra outras parecia ter vinte anos. Lia se aconchegou no ombro do pai e enxugou as lágrimas. Nunca havia sofrido tanto. Não sabia se sofrera mais com a dor ou com a expectativa do curativo que a mãe faria.



domingo, 2 de novembro de 2014

Matando a saudade

Quando entrei aqui, não acreditei que já vai fazer um ano que fiz minha ultima postagem.
Não fazia ideia que havia abandonado meu cantinho por tanto tempo.
Me senti na obrigação de dar uma satisfação a quem por ventura vier me visitar, ei-la.
Faz exatamente um ano que parei de produzir, arrumei um emprego, estou terminando uma faculdade, ganhei responsabilidades de gente grande e entre trabalhos acadêmicos, trabalhos extras que trago para casa, não me sobrou muito tempo.
A minha ultima postagem foi uma homenagem a Luar, um gato que tivemos e que vivia mirando o muro na esperança de ganhar o mundo.
Pois é, ele ganhou.
Uma tarde ele me olhou de frente, pulou o muro e saiu a caça, nunca mais voltou, naquele momento eu soube que ele estava partindo para sempre, tentei impedir que saísse, mas, ele foi mais rápido, partiu sem deixar rastros.
O poema e as fotos ficaram, a saudade também.
Tenho outros gatos agora, talvez eles ganhem um poema qualquer dia desses, mas Luar nunca será substituído, meu amor será dele para sempre.
Enfim, vou voltar a escrever, sinto falta daqui mesmo que não seja mais como era antigamente, sinto falta de exercitar meu cérebro nesse meio tão solitário. Vou voltar, não sei quando, mas vou.



sábado, 16 de novembro de 2013

Quando te vejo...


Quando te vejo...

Quando te vejo olhando o céu pensativo ou sentindo aromas desconhecidos;
Seu rostinho sereno me escondendo segredos, dói aqui dentro.
Quando te vejo desejando a liberdade, olhando o portão imóvel, escapando pra rua a cada oportunidade, dói aqui dentro.
Quando te prendo, dói aqui dentro.
Quando me convenço que é para o seu bem, que é por amor que te aprisiono entre essas paredes frias, dói aqui dentro.
Quando você me segue para todo canto miando e pedindo: só dessa vez!
Dói aqui dentro!
E é porque dói aqui dentro que me pergunto se o que faço é certo. Se podar seu instinto não é um grande egoísmo.
O que podem fazer contra você é tão cruel que tremo só de pensar.
Então continuo a te ver desejando...
Mesmo sabendo que não sou suficiente para você, não poderei atender seus desejos.
Seguiremos adiante sentindo doer aqui dentro.

quinta-feira, 22 de agosto de 2013

Enquanto Todos Dormem...


As pessoas costumam dizer que a noite seus medos parecem maiores, suas dores parecem enormes e os fantasmas mais assustadores. Talvez elas tenham razão, para uns a noite esconde segredos inconfessáveis. Não durmo sozinha desde que era criança, ou melhor, não durmo nunca,  mas isso também não é bom, acompanhada não posso derramar minhas lágrimas como devo, se ouvirem meu pranto, exigirão explicações que não quero dar, então as derramo silenciosamente enquanto todos dormem, apenas meu travesseiro é testemunha, mas silenciar a expressão da dor não a diminui e eu sigo assim, sofrendo sozinha. Minha mãe não é boba, já deve ter visto meu travesseiro úmido pela manhã, mas ela cala, finge que nada aconteceu, me deixa só, não me interroga. Por um lado isso é bom, não gosto de dar explicações, mas por outro, dói ainda mais esse silêncio, é quase um abandono. Enquanto sofro noite após noite, tenho medo de dormir, não fico sozinha em nenhum comodo da casa, todos em volta me olham como se eu fosse louca, não acreditam em mim, perdem a paciência comigo e me tratam como um peso. Fui diagnosticada como esquizofrênica, vejo mortos, ouço vozes, tenho fobias, tudo conspira a favor do diagnostico, no mundo real não sobra espaço para o sobrenatural, preferem disferir uma sentença. Não me lembro ao certo quando isso começou, acho que acontece desde sempre, pois dizem que nunca, desde que nasci, tive uma noite de sono tranquila. Não me lembro de nada daquela época, mas do restante de minha vida, não me lembro de outra coisa, até me acostumei com eles, com os vultos, com as vozes, eram minhas únicas amigas, mas de um tempo para cá, eles também me tratam mal, me dizem coisas dolorosas, me fazem sofrer, me perturbam, não me deixam ter paz. Não todos eles, um em particular, o homem de asas negras, esse me consome com seu veneno. Os outros até tentaram interferir nas atitudes dele, mas foram rechaçados, agora apenas me olham com pesar e balançam a cabeça, me estendem a mão de longe, mas não ousam se aproximar. O homem me vigia dia e noite, mas à noite, ele parece ganhar mais força, à noite tudo parece pior, deito virada para minha companheira de cama, mas sinto sua presença e ouço sua voz, sei que ele está encostado no canto do quarto, próximo a minha cabeça de braços cruzados, uma perna ereta e a outra flexionada, as asas encolhidas, só são usadas quando quer me intimidar, quando ouso enfrentá-lo, se não tivesse mostrado há muito tempo que não sou de todo fraca, ele já teria me arrastado com ele para não sei onde, mas ele sabe o quanto temo que isso aconteça, ele conhece tudo que se passa em meu ser, não tenho como fugir, nem com quem contar. Enquanto todos dormem, eu sofro sozinha e silenciosamente.

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Zoltan, um cão adorável

              ZOLTAN, O CÃO VAMPIRO DE DRÁCULA


Há muitos anos atrás era de costume recebermos a volta dos pais para casa com histórias e novidades, certa vez, nos chegou em um início de noite com muito folguedo infantil um novo habitante. A mãe com a bolsa de bebê azul da caçula nos braços entrou em casa fazendo segredo.
- Quem adivinhar o que trago aqui, vai ganhar um pirulito! Só não pode opinar caçula por já saber o que é. Fique de bico calado!
Todos os outros pequenos se manifestaram ávidos por diversão, olhavam os contornos, olhava-se as brechas e os lances arrancavam gargalhadas gerais, um dizia que era um urso porque tinha visto uma patinha, a outra dizia que era uma bruxa porque tinha medo de bruxas, outro dizia que era um bebê, outro passando perto disse que era um gato para ficar no lugar de Tom que morreu queimado. A surpresa cansada de esperar furou o bloqueio e colocou o focinho para fora, ágil como um gato a mãe colocou de volta, passaria despercebido por todos se a mais esperta não visse e delatasse: É um cachorro! E é amarelo cor de queimado! Ouviu-se vivas e aplausos, a menina mesmo com ajuda havia acertado. O cãozinho passou de mão em mão, era lindo e arredondado, parecia uma bolinha e estava agoniado, queria descer, sentir o chão nos pés, andara duas horas no escuro para não ser despejado, animal não pode andar em ônibus, desce ele e o dono, não importa se ta tudo pago. Outra onda de gargalhadas, o pobrezinho cambaleava, estava tonto e confuso, não conseguiu andar em linha reta. Foi bem vindo na família, tinha braço à disposição, precisava de um nome, houve outra votação, para uma devia se chamar urso, porque não era um brinquedo, mas era tão fofo quanto, para a outra devia se chamar bruxa, mas era menino e não menina, o nome não servia. O pai decidiu que se chamaria Zoltan, porque era ruivo como o cão vampiro de Drácula, apesar de o filhotinho ser belo e gracioso diferente do personagem do filme de terror de Albert Band, o nome agradou.
Como se o batismo fosse o elo que ligaria o cão ao dono, os dois, pai e filho postiço ficaram próximos, cada vez mais amigos. O cãozinho cresceu, ficou grande como um labrador, o pelo brilhante reluzia ao sol, era quase todo ruivo, exceto por um sinal branco na parte posterior do pescoço, ficava feliz quando corria, mas encontrar o pai depois de dias viajando, o deixava radiante. Não era o único cão da família e dos parentes, mas como ele não havia igual. O pai tinha por habito caçar e pescar, colocava a roupa de caça e pesca, o chapéu, o alforje e a espingarda ou a vara de pescar e saia logo cedo, era mais por diversão ou terapia, pois nunca matara um bicho, voltava com as mãos mais vazias do que quando partia, afinal a marmita voltava limpa. Talvez fosse só para ter o gosto de entrar na mata, ter contato com a natureza, matar um pouco a saudade da infância e se sentir em casa. Com a chegada de Zoltan, esses momentos deixaram de ser solitários, um fazia companhia ao outro e ambos adoravam. No fim da tarde Zoltan surgia no quintal esbaforido da corrida, ao chegar nas redondezas, ele deixava o pai para trás e como se brincasse de aposta, chegava primeiro em casa anunciando sua chegada dez, quinze minutos antes. A mãe respirava aliviada, Zoltan chegou, o pai chegaria logo também, são e salvo de ataque de onça, de porco do mato, de boi bravo e qualquer outro perigo que espreitasse. Depois que chegavam, o pai sentava sereno, acendia um cigarro e Zoltan deitava aos seus pés recebendo um afago entre uma baforada e outra, depois de servido o vício, aos poucos os familiares se reuniam e sob a brisa fresca da noite, ouviam histórias contadas pelo pai sobre o passado e sobre o dia, as peripécias de Zoltan, um bicho novo que encontraram, o cão curioso sempre aprontava uma, não podia ver um rio ou córrego que pulava dentro para tomar banho, então pescar com ele do lado era um verdadeiro fracasso, mas era divertido e não era solitário. Na mata corria atrás de pássaros e bichos de menor porte, se via manada de boi bravo, corria atrás dos calcanhares latindo e rosnando, era destemido, mas o pai sabendo do risco que corriam, também se arriscava para salvá-lo de ser pisoteado. O pai tinha paixão por canto de pássaros e isso ele sabia, respeitava o momento, ficava em silêncio apreciando o fenômeno com paixão igual. Enquanto o pai contava as traquinices do dia, Zoltan olhava desconfiado, entendia que era o assunto e que algo tinha feito de travesso, apenas abanava o rabo e olhava de soslaio atento a qualquer sinal de irritação, mas nunca era castigado, tinha muitas regalias.
Viveu assim por mais de dois anos, nunca ficara doente, nunca fora atropelado ou sofrera qualquer outro acidente, era belo e inteligente. Um dia apareceram na cidade homens vestido em fardas cor de terra, eram de um órgão competente, cuidavam da saúde de bichos e de gente. Furavam, tiravam sangue, faziam exames e quando ninguém mais se lembrava, lá vinham eles, com resultados e sentenças.
Não tinham nomes próprios, eram apenas Sucam’s (Superintendência de Campanhas de Saúde Pública) e nunca foram tão cruéis, quanto quando trouxeram o carrasco e a sentença de Zoltan, que junto com tantos outros foi examinado e teve o sangue colhido, eles não eram médicos, mas tinham um poder de decidir qual o destino dos doentes. Sumiram e o coração aliviado, tomou conta de toda gente. Dias depois, sem que nem pra que, chegaram na porta com um carro e uns documentos, a mãe tinha de assinar, era ordem do governo, os animais contaminados por leishmaniose, teriam de ser sacrificados. Como impedir tal absurdo, ninguém sabia, ninguém podia, talvez o pai pudesse, mas ele não estava em casa. A mãe alegou que era visível a saúde do animal, o pelo lustroso e sedoso, diferente da cadela do irmão que estava doente, caindo os pedaços de couro nas costas e nas orelhas, mas eles foram contundentes, a cadela era saudável, o cão é que estava doente. Mesmo com os apelos e os argumentos, acorrentaram-no e colocaram em cima da caçamba, nem precisava das correntes, era bom e inocente, não faria mal a ninguém nem que quisesse. O homem sempre a dizer: Minha senhora é para seu bem, antes ele que suas crianças, além do mais nem vai sentir, vai fechar os olhos e dormir simples assim.
O carro partiu, Zoltan alegre olhando todos, o rabo balançando, estava passeando sem o pai pela primeira vez. A mãe chorou inconsolável: O que o pai vai dizer, quando não encontrar o seu bichinho que partiu tão feliz, nem desconfiava de seu destino. O filho inconformado pensava em uma solução, o amigo comovido fez um convite: Vamos atrás deles e tomamos o cão a força, eles não podem matar um bicho que nem lhes pertence, não passam de uns cruéis sem coração.
A ideia era boa, a esperança renasceu, foram o filho e mais dois, com certeza trariam o cão. Pouco tempo depois voltaram, os homens eram irredutíveis, não havia acordo, deviam esquecer o amigo, seria melhor assim.
Como esquecer? Como fingir que estava tudo bem? Como contar ao pai? Como seguir em frente?
Quando o pai chegou de viagem, soube de tudo, nos mínimos detalhes, Zoltan se fora para sempre por um ato de crueldade, a mãe tinha certeza que os resultados estavam trocados, mas eles tinham o poder, não aceitaram argumento. O pai acendeu um cigarro, sentou no escuro do quintal e de cabeça baixa por lá ficou por muito tempo, ninguém ousou interromper, era seu luto, estava sofrendo.

sábado, 16 de março de 2013

O inverno das rosas um Ebook de Laisa Couto





A editora Draco publicou um conto em versão ebook da autora de Lagoena, Laisa Couto intitulado O Inverno das Rosas. 


O Conto é uma releitura sombria de uma conhecida história infantil. Da maldição ao sono, o inverno se concretiza. As rosas desabrocham. Uma princesa dorme no alto de uma torre esquecida, mas sua alma continua desperta, habitando os mundos dos sonhos, procurando aflita sua liberdade roubada."
Está disponível por R$2,99 na Amazon.




E na Kobo Books pelo mesmo valor, para conferir basta clicar no link: 



Pois é gente, vamos matar a curiosidade acessando!

Corre lá.

domingo, 3 de março de 2013

Algumas Considerações sobre Lagoena


Finalmente consegui tirar um tempo, ou melhor, me "roubar" um tempo, pois estou escrevendo esse post quando devia estar fazendo um trabalho acadêmico, mas a ocasião pede e estou em divida há meses, para deixar minhas impressões sobre a fantástica web série Lagoena da autora Laisa Couto.
Lagoena narra à história da pequena Reitha que vive em um sobrado com o avô materno escondida de todos os habitantes do reino do Vinagre que suspeitam da existência misteriosa da menina, mas não sabem ao certo o que pensar de tanto segredo e por essa razão existem muitas especulações, algumas até absurdas sobre a garotinha. Em meio a tudo isso a pequena leva sua vida entre a curiosidade normal da infância e a vontade de explorar o mundo que conhece apenas pelas frestas da janela de seu quarto. Por esses motivos também é que Reitha não perde a oportunidade de explorar toda e qualquer informação que faça algum sentido em sua cabeça. Então eis que juntando um fragmento aqui e acolá ela descobre que sua vida está cercada por um grande mistério que vai mudar totalmente o rumo de sua vida e de todos que a cercam.
Li esse livro três vezes e todas às vezes novas emoções me invadiam como se fosse a primeira vez que o fazia, talvez por isso tenha sido tão difícil fazer uma resenha dele, estou tentando há mais de um mês, pedi ajuda até aos profissionais que sabem todas regras para se fazer bem um texto, mas não consegui escrever nada que valesse a pena, então resolvi deixar a formalidade de lado e falar de maneira simples, mais honesta sobre essa obra maravilhosa que tive a oportunidade de ter em mãos.
Lagoena é narrado de uma maneira leve, mas muito minuciosa, o que nos permite conhecer o perfil de cada personagem e de cada ambiente sem se tornar enfadonho ou “pomposo” sabe. Depois que passa toda essa fase de apresentação, vem o melhor de tudo que é a aventura, cada capitulo uma nova surpresa nos aguarda, me senti adolescente outra vez vibrando com o novo livro de terror, de aventura ou de fantasia que estava lendo. A autora passeia por todos esses gêneros de forma brilhante. O enredo tinha tudo para ser chato e até enfadonho, confesso que demorei a ler até porque acreditava ser algo infantil, afinal os protagonistas são crianças, mas foi um grande engano. O livro consegue agradar a todas as idades, gostos e gêneros. Exemplo disso sou eu que virei uma grande fã da série e com certeza serei uma das primeiras a adquirir o exemplar quando for publicado. Vou confessar mais uma coisa, perdi as contas das vezes em que me peguei pensando no destino que os personagens tomariam e até tive sonhos com o mundo fantástico de Lagoena. Muitas vezes também quando acabei de ler o novo capitulo senti como se não tivesse saído da floresta encantada, a sensação que senti ao conhecê-la pela primeira vez ficou em mim por horas e horas e sempre que releio a sensação volta, talvez por isso eu tenha demorado a falar as minhas impressões do livro, porque tenho esse habito de só ter certeza de ter gostado de algo assim, através das sensações que ficam e permanecem, me recuso a dizer que amei um livro ou que ele é excelente se essa doce e agradável sensação não se fizer presente, pois livros são como tudo na vida, uns agradam no momento mas passam, outros (poucos na verdade) ficam guardados para sempre.
Sei que vou ser chamada de exagerada exatamente por ser tão extrema em tudo que faço, e sei que fui nesse post, mas não tenho vergonha de afirmar que Lagoena é um livro magnífico e valeu muito a pena ter lido.

Não vou citar aqui meus personagens favoritos porque a lista seria muito grande, mas se você leitor ficou curioso e quiser conhecer pessoalmente essa obra, ela está atualmente disponível no site Booksérie no endereço eletrônico ; http://bookserie.com.br/.
Segue Também o link da página de Lagoena:
http://bookserie.com.br/series/2/seasons/6/chapters/24/episode

Se quiserem conhecer a autora Laisa Couto, ela se encontra disponível no Blog Confissões Desajustadas, um canto lindo e além de tudo muito agradável que vale a pena ser conferido, possui poemas, textos e matérias de muita qualidade das quais já sou fã há alguns anos.